Análise: Obama mostra ligação com indústria do etanol

Quando a companhia energética VeraSun inaugurou uma nova usina de processamento de etanol na cidade de Charles, em Iowa, no último verão, alguns dos principais defensores do setor estiveram por lá. Líderes da Associação Nacional de Produtores de Milho e da Associação de Combustíveis Renováveis, por exemplo, vieram para ajudar a cortar a fita inaugural - bem como o senador Barack Obama.

The New York Times |

Atrás da senadora Hillary Rodham Clinton naquela época, tanto em reconhecimento quanto nas urnas, Obama estava em meio a uma viagem de campanha pelo Estado, onde eventualmente conquistou sua primeira vitória. Condizente com sua posição como senador de Illinois, o segundo maior produtor de milho do país, o candidato aproveitou o momento e apoiou o etanol como um combustível alternativo.

Obama concorre como um reformista que quer reduzir a influência de interesses especiais nas decisões políticas. Mas como qualquer outro político, ele tem protetores poderosos que ajudam a moldar seu ponto de vista. Quando o assunto é etanol doméstico, quase todo feito à base de milho, ele também tem conselheiros e defensores proeminentes com elos estreitos com a indústria, num momento em que a política de energia vive um grande contraste entre os partidos e seus candidatos presidenciais. No coração do cinturão do milho naquele dia de agosto, Obama argumentou que adotar o etanol como um substituto para a gasolina "ultimamente ajudaria a segurança nacional, porque no momento damos milhões de dólares a alguns dos países mais hostis do planeta". A dependência americana do petróleo, ele acrescentou, "dificulta a utilização de uma política externa que seja inteligente e gere segurança a longo prazo".

Atualmente, quando Obama visita Estados agrícolas, ele é acompanhado por seu amigo e defensor Tom Daschle. Ex-líder da maioria do Senado pela Dacota do Sul, Daschle participa da diretoria de três companhias de etanol e trabalha em uma firma de advocacia em Washington onde, de acordo com a descrição de seu trabalho, "passa grande parte de seu tempo fornecendo conselhos estratégicos e políticos a clientes de energia renovável".

Principal conselheiro

O principal conselheiro de Obama sobre a questão de energia e meio-ambiente, Jason Grumet, veio da Comissão Nacional de Políticas Energéticas, uma iniciativa associada com Daschle e Bob Dole, também antigo líder da maioria do Senado e grande defensor do etanol, que tem ampla ligação com a gigante de agronegócios Archer Daniels Midland, ou ADM.

Pouco depois de chegar ao Senado, o próprio Obama gerou uma breve controvérsia ao utilizar aviões corporativos da ADM com tarifas subsidiadas. A companhia é a maior produtora de etanol e se baseia em seu Estado.

Jason Furman, diretor de políticas econômicas da campanha de Obama, afirmou que as decisões do senador se baseiam em mérito. "Isso é o que sempre o motivou nessa questão e ele continuará a determinar suas políticas adiante", disse Furman.

Quando questionado se Obama mostrou alguma forma de pré-disposição ou defesa do debate do etanol porque representa um Estado produtor de milho que se beneficiaria disso, Furman disse: "Ele quer representar os Estados Unidos da América e suas políticas se baseiam no que seria melhor para o país". 

Obama e McCain discordam

Etanol é um assunto em que Obama discorda amplamente de seu oponente republicano, o senador John McCain. Ainda que ambos os candidatos enfatizem a necessidade dos Estados Unidos conquistarem "segurança energética" enquanto diminuem as emissões de carbono que contribuem para o aquecimento global, eles têm visões diferentes sobre o papel que o etanol, que pode ser feito a partir de uma grande variedade de materiais orgânicos, deveria representar nesse esforço.

McCain, que não vem de um Estado agrícola, defende a eliminação dos subsídios multi-bilionários anuais. Como defensor do livre comércio, ele também se opõe à tarifa de 54% o galão que os Estados Unidos impõem à importação do etanol feito à base de cana-de-açúcar, que tem mais energia do que aquele feito a partir do milho e cuja produção é mais barata.

"Nós cometemos uma série de erros ao não adotar uma política energética sustentável, um dos quais é o subsídio ao etanol à base de milho, que eu alertei em Iowa que iria prejudicar o mercado" e contribuir para a inflação, disse McCain em uma entrevista ao jornal brasileiro O Estado de São Paulo. "Além disso, é errado", ele acrescentou, tributar o etanol à base de cana-de-açúcar brasileiro, "que é muito mais eficiente do que o etanol à base de milho".

Obama, por outro lado, defende o subsídio, que em algumas instâncias vai parar nas mãos das mesmas companhias petrolíferas que segundo ele deveriam ser submetidas à tributação sobre os lucros. Dizendo querer ajudar os Estados Unidos a construir uma "independência energética" ele também defende a tarifa, que alguns economistas dizem poder ser ilegal de acordo com as regras da Organização Mundial do Comércio, mas que seus conselheiros dizem não ser.

Muitos economistas, defensores dos consumidores, especialistas em meio-ambiente e grupos analistas de impostos criticam os programas de etanol à base de milho como uma atividade desnecessária e mais benéfica aos conglomerados agrícolas do que aos pequenos produtores. Essas reclamações se intensificaram recentemente conforme o preço do milho aumentou junto com o preço do petróleo e o produto normalmente usado como alimento passou a ser direcionado à produção de etanol.

"Para tirar a pressão desse mercado, a coisa mais óbvia a se fazer é diminuir a tributação ao etanol brasileiro que entra no país", disse C. Ford Runge, economista especializado na política de mercadorias do Centro Internacional de Política Agrícola e Alimentar da Universidade de Minnesota. "Mas uma das razões fundamentais da política do biocombustível estar tão fora de sintonia com o mercado é que os grupos de interesse político têm sido dominantes na construção dos subsídios que a apóiam"

O milho gera menos de duas unidades de energia para cada unidade de energia usada na sua produção, enquanto a relação no caso da cana-de-açúcar é de oito para um. Com custos de produção mais baixos e o preço das terras menor em países tropicais, onde é produzida, a cana-de-açúcar é uma fonte muito mais eficiente.

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