JERUSALÉM - Israel esperava que a guerra em Gaza não iria apenas enfraquecer o Hamas, mas eventualmente fortalecer seu rival secular, a Autoridade Palestina, e até mesmo permitir seu retorno a Gaza.

Mas dia após dia, a autoridade, seu líder, Mahmoud Abbas, e seu partido, Fatah, parecem mais e mais isolados e marginalizados, mesmo nas cidades palestinas da Cisjordânia que controlam. Manifestantes acusam Abbas de não fazer nada para impedir a carnificina em Gaza (na verdade, seus oficiais de polícia usaram cacetetes e gás lacrimejante contra estes mesmos manifestantes).

Quanto mais bombas caem em Gaza, mais o apoio ao Hamas parece crescer às custas da Autoridade Palestina, já considerada corrupta e distante dos palestinos comuns.

"A Autoridade Palestina é uma das grandes perdedoras desta guerra", disse Ghassan Khatib, um analista palestino independente da cidade de Ramallah, na Cisjordânia. "Como poderia lucrar de uma guerra na qual é uma das casualidades?"

Israel propõe, com o tácito acordo do Egito e Estados Unidos, colocar a Autoridade Palestina no coração de um ambicioso programa de reconstrução de Gaza, administrando a ajuda à reconstrução e cuidando da segurança das fronteiras da região. Mas o plano atraiu ceticismo. Khatib, por exemplo, disse que a ideia de qualquer papel da Autoridade Palestina na Gaza pós-guerra é "tola" e "ingênua".


Israel poderá sair fortalecido desta guerra em Gaza / AP

Talvez mais desencorajador aos poucos que acreditam que um acordo seja possível agora (com as negociações de paz suspensas e os palestinos divididos entre o Hamas em Gaza e a Autoridade Palestina na Cisjordânia) seja o fato de Israel não ter grandes esperanças de um papel pós-guerra maior para o Fatah. A proposta de Israel parece o cumprimento de um dever, o reconhecimento de um atraso que nem mesmo os ataques ferozes do Hamas podem desfazer.

"Há muitas ideias realistas por aí", concedeu Yigal Palmor, porta-voz do Ministério do Exterior Israelense. O motivo: a maioria das ideias, segundo ele, se apoiam amplamente "na boa vontade do Hamas". Isso pode ser algo não tão disponível, porque o Hamas, profundamente enraizado na sociedade de Gaza tanto como seu defensor quanto como fornecedor de serviços sociais, deve sobreviver de alguma forma mesmo depois da guerra.

Mesmo se Israel conseguir eliminar o Hamas, ninguém aqui parece acreditar que a autoridade liderara por Abbas substituiria o grupo militante, especialmente porque a autoridade seria vista em Gaza como defensora dos israelenses.

Na verdade, com sua credibilidade em jogo, oficiais da Autoridade Palestina são cautelosos sobre serem vistos como quem quer se beneficiar da operação israelenses. Jamal Zakout, consultor do primeiro-ministro da Autoridade Palestina, Salam Fayyad, disse, "Nossa prioridade é parar o derramamento de sangue".

Por ISABEL KERSHNER

20º dia de ataques

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