Analgésicos colocam veteranos com estresse pós-traumático em risco

Estudo sugere relação entre tratamento com opióides para aliviar a dor e resultados clínicos adversos como ferimentos e overdose

The New York Times |

Um estudo, que foi publicado no dia 29 de fevereiro no Jornal da Associação Americana de Medicina, descobriu que os veteranos que voltam do Iraque e do Afeganistão e receberam prescrições de opióides para aliviar a dor - e particularmente aqueles com síndrome de estresse pós-traumático - tiveram maior prevalência de "resultados clínicos adversos", como overdoses, ferimentos autoinfligidos e outros causados por acidentes e brigas.

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O Departamento de Assuntos de Veteranos e o Departamento da Defesa tem tentado há muitos anos reduzir o uso de tratamentos com opióides entre soldados ativos e veteranos diante de relatos de automedicação, vício, abuso de drogas e mortes causadas por overdoses ou pela mistura de medicamentos.

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Soldado americano espera para deixar missão no Iraque (6/11/2011)
Mas o estudo levanta novas preocupações de que os médicos - os principais prescritores de opióides para veteranos - nem sempre seguem as diretrizes governamentais destinadas a restringir o tratamento contra a dor com o uso de opióides para veteranos com síndrome de estresse pós-traumático e outros diagnósticos relacionados à saúde mental.

"Muitas vezes existe um abismo muito grande entre as políticas de determinadas coisas e a prática delas", disse Karen Seal, diretora de uma clínica de cuidados integrados no Centro Médico para Veteranos em São Francisco, que foi uma das principais pesquisadoras do estudo. "É nisso que precisamos melhorar, na implementação das políticas e diretrizes que já existem."

Robert D. Kerns, médico e diretor do programa nacional de administração de dores do Departamento de Assuntos dos Veteranos, disse em uma entrevista que o departamento vem chamando a atenção para as novas descobertas para fazer com que os médicos a considerem alternativas ao tratamento com opióides, especialmente para pacientes com síndrome de estresse pós-traumático.

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"Isso reforça o que está escrito nos livros e chama a atenção para um importante desafio", disse Kerns. "E nos encoraja a continuar a olhar para outras inovações que podem ser agregadas às nossas iniciativas já existentes."

Programas alternativos

Kerns disse que o programa de saúde dos assuntos para veteranos, assim como o sistema de saúde do Pentágono, tem expandido programas alternativos de tratamento contra dor para reduzir o uso de opióides, incluindo acupuntura, medicina quiroprática, fisioterapia, exercícios e técnicas de relaxamento.

O Departamento de Veteranos também procurou expandir o uso de terapias psicológicas já usadas para tratamentos da síndrome de estresse pós-traumático, principalmente a terapia cognitiva-comportamental para o tratamento da dor crônica, disse Kerns, que está conduzindo pesquisas nessa área.

Compreender as ligações potenciais entre a síndrome de estresse pós-traumático e a dor crônica é algo importante, pois ambos os casos são comuns entre os membros do serviço militar. De acordo com algumas estimativas, um em cada cinco veteranos de guerra relata ter sintomas de síndrome de estresse pós-traumático que incluem pesadelos, flashbacks, irritabilidade e insônia.

A dor crônica também prevalece entre soldados e veteranos, mesmo aqueles que não sofreram ferimentos mais sérios no campo de batalha como a perda de um membro. Dores na região inferior das costas, ombro, joelho e outras dores articulares são comuns por causa das tensões físicas da rotina do trabalho, que inclui o vestimento de armadura pesada e o uso de mochilas.

Outros estudos já demonstraram que as taxas para os pacientes com Síndrome de Estresse Pós-Traumático que usam analgésicos opióides são mais elevadas do que as de outros pacientes. Seal disse que uma das teorias que existem para isso é a de que pacientes com distúrbios de ansiedade como a síndrome de estresse pós-traumático podem ser mais sensíveis à dor.

"É um ciclo vicioso", disse ela. "Quando um indivíduo tem um transtorno de ansiedade, quando sente dor ele fica ansioso por causa disso, e então fica mais consciente da dor e tende a reclamar dela."

Ela disse que a maioria dos veteranos mais jovens tende a receber cuidados de saúde dos médicos de cuidados primários que normalmente não são especialistas em lidar com síndrome de estresse pós-traumático. Esses médicos são treinados para tratar a dor crônica, e muitos opióides são receitados porque querem aliviar o sofrimento de seus pacientes de uma maneira mais rápida. De acordo com o estudo, isso pode resultar em prescrições inapropriadas.

Importância

O novo estudo é considerado significativo por causa do tamanho de sua amostra: mais de 141 mil veteranos que receberam tratamento para dor para outros problemas além do câncer entre 2005 e 2010.

Seal disse que o estudo foi estimulado em parte por um artigo que saiu no New York Times que falava sobre soldados e veteranos que morreram aparentemente devido a uma mistura tóxica de medicamentos de prescrição.

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Seal disse que os pesquisadores descobriram que mais de quatro entre 10 veteranos com Síndrome de Estresse Pós-Traumático estavam recebendo opiáceos, ao mesmo tempo em que tomavam benzodiazepinas - uma família de medicamentos, que inclui o Xanax, que é receitado para distúrbios de ansiedade como a síndrome de estresse pós-traumático. Seal disse que a descoberta foi "perturbadora", porque a mistura de opiáceos, benzodiazepínicos e álcool pode levar à parada respiratória e à morte.

*Por James Dao

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