Americanos ignoram riscos apresentados por celular ao volante

OKLAHOMA CITY - Em seu 15º aniversário, Christopher Hill ganhou seu primeiro celular. No 16º, ele ganhou um um Ford Ranger vermelho usado, um orgulho que ele lavava todas as semanas.

The New York Times |

NYT
Estudo de 2003 mostrou que distrações com celulares causam 2.600 mortes por ano nos EUA

Estudo de 2003 mostrou que distração com
celular causa 2.600 mortes por ano nos EUA

Hill, um estudante diligente com reputação em ajudar os vizinhos, também se orgulhava de seu histórico limpo. "Nenhuma multa por excesso de velocidade, nada", ele disse.

Até o último dia 3 de setembro. Hill, então com 20, partiu do estacionamento de uma loja beneficente onde tinha visto uma cômoda que poderia interessar a uma vizinha. Ele ligou para ela para contar a novidade.

Hill estava tão envolvido na ligação que ultrapassou o farol vermelho e não percebeu a pequena caminhonete de Linda Doyle até o último segundo. Ele bateu a 73km/h e ela foi pronunciada morta pouco depois. Um policial perguntou a Hill que cor estava o semáforo. "Eu nem cheguei a ver", ele respondeu.

Extensas pesquisas mostram os perigos da condução distraída. Estudos dizem que motoristas que usam celulares estão quatro vezes mais propensos a causar um acidente do que os outros, e a probabilidade de colisão é igual a de alguém com um nível de 0.08% de álcool no sangue, quantidade na qual os motoristas são considerados embriagados. Pesquisas também mostram que dispositivos que permitem o uso do celular sem as mãos não eliminam os riscos e podem até piorá-los ao sugerir segurança.

Um estudo de Harvard de 2003 calculou que as distrações com celulares causam 2.600 mortes no trânsito todos os anos e 330 mil acidentes que resultam em danos moderados ou graves.

Ainda assim, os americanos ignoram a pesquisa e cada vez mais usam celulares, dispositivos de navegação e até mesmo laptops para transformar seus carros em escritórios móveis, salas de bate-papo e centros de entretenimento, tornando as ruas mais perigosas.

A falta de conexão entre percepção e realidade piora o problema. Novos estudos mostram que os motoristas superestimam a própria habilidade em realizar inúmeras tarefas ao mesmo tempo, mesmo enquanto se preocupam com os perigos de outros motoristas que fazem o mesmo.

Os fabricantes de dispositivos e companhias automobilísticas reconhecem os riscos da realização de tarefas múltiplas atrás do volante, mas desenvolvem e comercializam agressivamente dispositivos que causam distrações.

A polícia de quase a metade dos Estados americanos não fez nenhuma tentativa de reunir dados sobre o problema. Eles não precisam perguntar aos motoristas envolvidos em acidentes se estavam distraídos com um aparelho celular ou outro dispositivo. Mesmo quando perguntam, alguns motoristas não fornecem as informações necessárias.

O governo federal adverte contra falar ao celular enquanto se dirige, mas nenhuma lei estatal proibiu isto. Este ano, legisladores estatais apresentaram aproximadamente 170 projetos para lidar com a distração no volante, mas aprovaram menos de 10.

Cinco Estados e o distrito de Colúmbia exigem que os motoristas que falam ao celular usem dispositivos de viva-voz, mas as pesquisas mostram que o uso pode ser tão perigoso quanto segurar o celular na mão pois a conversa distrai a concentração dos motoristas da estrada.

Quatorze Estados aprovaram medidas para proibir o envio de mensagens de texto ao volante e a assembleia do Estado de Nova York enviou a medida ao governador na sexta-feira. Entre os Estados que rejeitaram qualquer esforço para limitar a condução distraída este ano está Oklahoma.

"Eu fico ao telefone do momento que deixo o Capitólio até quando chego em casa, e isso significa duas horas na estrada", disse Tad Jones, líder da maioria na Câmara de Oklahoma que ajudou obstruir a lei. "Muitas pessoas que viajem estão acostumadas a usar o telefone."

Cientistas que estudam a distração ao volante dizem que entendem a frustração de colegas que anunciavam os perigos do tabaco. Como os cigarros, eles dizem, os dispositivos são considerados bacanas mas podem ser mortais. Até mesmo as grandes fabricantes de aparelhos emitem alertas que lembram os antigos rótulos em pacotes de cigarro.

Por exemplo, a Verizon Wireless publica informações em seus websites para que as pessoas não falem ao celular enquanto dirigem ou sem fone de ouvido. Mas nem a Verizon nem qualquer outra operadora apoia leis que proíbem os motoristas de falar ao telefone. Indústrias do setor também não realizam estudos sobre os perigos, dizendo que isso não é sua responsabilidade.

Alguns pesquisadores dizem que existe evidência suficiente para justificar leis que proíbam o uso de celulares por motoristas (e sugerem o uso de tecnologias que garantam que os celulares de pessoas dirigindo sejam desabilitados).

"Somente proibir o comportamento não fará com que as pessoas mudem", disse Robert D. Foss, cientista de pesquisa do Centro de Pesquisa  de Segurança no Trânsito da Universidade da Carolina do Norte. "O comportamento já está enraizado e é quase compulsivo".

De sua parte, Hill agora raramente fala enquanto dirige. Sua mãe lhe deu um fone de ouvido dois meses depois do acidente. Ela achou que causaria menor distração. Ele usou o acessório uma vez e percebeu que sua mente vagava no telefonema e "quase passei o farol", ele conta.

Hill se declarou culpado por homicídio negligente, uma pequena contravenção, pela morte de Doyle. Agora, quando ele é passageiro em um carro, fica nervoso se o motorista começa a falar ao telefone. Mas Hill, que é cortês e deferente, diz que não quer pregar sobre os riscos de se falar ao telefone ao volante.

"Eu espero que eles não tenham que passar pelo que eu passei para entender o problema", ele acrescentou.

Leia mais sobre trânsito

    Leia tudo sobre: acidenteeuanew york times

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG