Americano condenado à prisão relembra quatro décadas de fuga

Detido por assassinato, George Wright fugiu da cadeia; em 1972, sequestrou uma aeronave e hoje se diz um 'modelo de reabilitação'

The New York Times |

George Wright, o assassino fugitivo que foi capturado em Portugal 39 anos após o sequestro de um avião e da exigência de um resgate de US$ 1 milhão, disse que acreditava que as autoridades dos Estados Unidos haviam desistido da perseguição há muito tempo. Mas ele nunca parou de se preocupar com a possível captura.

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NYT
George Wright, assassino condenado, concede entrevista na cozinha de sua moradia em Casas Novas, Portugal

"Conhecendo os americanos, eu sempre temia que eles estavam com as antenas ligadas", disse em uma entrevista de duas horas concedida na vila de Casas Novas perto de Lisboa, Portugal, onde foi preso no mês passado.

Sentado à sua mesa na cozinha, ele usava calças, sandálias de plástico e uma tornozeleira eletrônica ordenada por um juiz português que o mudou de uma prisão de Lisboa para a prisão domiciliar, enquanto ele luta contra a extradição para os Estados Unidos.

Wright, 68, foi condenado por um assassinato cometido em 1962 em Nova Jersey – durante um assalto à mão armada que lhe rendeu US$ 70, mas tirou a vida de Walter Patterson, pai de duas filhas, dono de um posto de gasolina e condecorado veterano da Segunda Guerra. Ele escapou de uma prisão estadual em 1970 e em 1972, vestido como padre, ele e outros quatro homens sequestraram um avião com destino a Miami e exigiram transporte até a Argélia. Ele tirou uma arma de uma Bíblia oca que tinha levado a bordo e a apontou para a cabeça de um comissário de bordo.

A entrevista ofereceu um relato de sua odisseia desde o sequestro. Wright – que está lutando contra a extradição sob a identidade portuguesa que assumiu no país, José Luis Jorge dos Santos – falou sobre como se casou com uma mulher portuguesa que conheceu em uma boate mais de 30 anos atrás e fez bicos trabalhando como professor na África Ocidental e, mais recentemente, na decoração de casas, bem como na venda de frango e de artesanato em Portugal. Wright disse que levantava pesos e usava uma bicicleta ergométrica antes do café da manhã todos os dias, e lia a Bíblia. "Eu fui rebatizado em 2002", disse.

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George Wright em foto de 1963
Mas ele permanece desafiador dos agentes da lei americanos que o localizaram no banco de dados de impressões digitais de Portugal. Observando que ele tinha renovado sua carteira de identidade portuguesa em 2004, Wright perguntou por que havia demorado tanto para as autoridades o prenderem. "É um pouco absurdo que os americanos me cacem e me façam parecer o pior homem do mundo, como alguém de um filme de terror", disse. "Eu realmente deveria ser um modelo de reabilitação."

Ele descreveu como os sequestradores haviam escolhido a Argélia como destino porque "Eldridge Cleaver estava lá, representando o movimento da libertação negra". Ele também falou de sua frustração quando as autoridades argelinas os fizeram devolver o dinheiro do resgate e se revelaram menos comprometidas com a promoção dos direitos dos negros do que ele havia pensado.

Wright contou sobre um almirante português que o aconselhou e o ajudou a mudar para Guiné-Bissau, uma ex-colônia portuguesa na África Ocidental que, eventualmente, lhe concedeu asilo político. Além disso, ele negou seu papel no tiroteio que o colocou na prisão em primeiro lugar, dizendo que ele nunca puxou o gatilho. "Foi um assalto que deu errado", disse, insistindo que foi o primeiro crime que cometeu.

Ele disse que conheceu os outros assaltantes um ano antes, quando trabalharam juntos em um restaurante. "Eu não sabia que eles estavam envolvidos neste tipo de coisa naquele momento em particular."

Mas Wright precisava de dinheiro, porque, segundo ele, sua carteira e outros pertences haviam sido roubados de um quarto de hotel em que estavam hospedados. Ann Patterson, a filha do homem baleado em 1962, se recusou a discutir a versão de Wright do incidente.

Wright foi preso poucos dias depois e acabou por ser condenado de 15 a 30 anos de prisão. Mas após sete anos de transferências de prisão ele foi parar no que é hoje a Prisão Estadual de Bayside, em Leesburg, Nova Jersey, onde ele e três outros detentos escaparam. "Nós apenas atravessamos a rua até onde o diretor vivia", disse. "Um dos caras era um mecânico muito bom. Nós fizemos ligação direta no seu veículo e fomos embora."

Ele disse que se mudou para Detroit, onde assumiu o nome de Larry Burgess e gerenciou um restaurante fast-food por um tempo. Mas foi demitido e não conseguia encontrar trabalho após isso. "Em um trabalho decente", disse ele, "você tinha que ter suas impressões digitais verificadas, de modo que eu não podia fazer isso”.

Tampouco ele podia candidatar-se a benefícios sociais. Wright disse que decidiu "se envolver com a luta" fazendo parte do Partido dos Panteras Negras, e ele e alguns amigos concluíram que o sequestro seria tanto "mostrar nossa sinceridade" quanto para "obter dinheiro para o Exército da Libertação Negra".

Wright embarcou no voo 841 da companhia Delta Airlines em Detroit vestido como um sacerdote "para não atrair a atenção". Ele não quis falar sobre a arma escondida na Bíblia.

O avião pousou primeiro em Miami e Wright pediu o dinheiro, dizendo no rádio do cockpit: "Se esse dinheiro não estiver aqui em duas horas eu vou começar a jogar um corpo pela porta por minuto."

Os passageiros foram trocados por US$ 1 milhão, entregues por agentes federais em trajes de banho – roupas exigidas pelos sequestradores, segundo ele porque na roupa convencional "alguma arma poderia ser escondida e eles poderiam fazer alguma tentativa de tomar o avião”. O avião então voou para Boston antes de ir para Argel.

"Ele é um fugitivo e o processo ainda está pendente, em andamento", disse Neil Welch, que era o agente encarregado do escritório do FBI em Detroit no momento do sequestro e agora está aposentado. "Ele tem que enfrentar a Justiça aqui e tem algumas explicações a dar. Os tribunais e todos nós estamos ansiosos para saber a sua história e tudo tem que ser feito aqui mesmo nos Estados Unidos da América."

Por Raphael Minder e James Barron

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