Alvo de ataque em Mumbai, hotel é reaberto após reforma

Restauração do Taj Mahal Palace Hotel inclui obras de arte que também foram danificadas no atentado terrorista de 2008

The New York Times |

Quando terroristas atacaram Mumbai, na Índia, há quase dois anos, matando pelo menos 163 pessoas, eles também atingiram o hotel Taj Mahal Palace, um marco arquitetônico que tem desempenhado um papel fundamental no fomento e exposição da arte indiana.

O hotel, um palácio mouro-florentino que abriu em 1903, foi devastado por incêndios, tiros e explosões de granadas. O teto desabou e trabalhos detalhados em madeira foram queimados. Pinturas de mestres indianos modernos como Vasudeo S. Gaitonde e Jehangir Sabavala foram cobertas por fuligem e fungos, que prosperaram no ar úmido depois que o ar-condicionado deixou de funcionar e pulverizadores e caminhões de bombeiros usaram água para apagar incêndios no edifício.

Nos últimos 21 meses, uma equipe que por vezes chegou a ter mais de dois mil membros, reformou o hotel. Um pequeno grupo de cinco especialistas passou 10 meses restaurando cerca de 300 peças de arte, trabalhando no Crystal Ballroom, onde hóspedes e funcionários procuraram refúgio durante o ataque.

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A fachada restaurada do Taj Mahal Palace, em Mumbai, alvo de ataque terrorista em 2008

Na quinta-feira os seus trabalhos foram colocados em exposição, alguns dias antes da reabertura da ala Palace no domingo, Dia da Independência indiana. Algumas das áreas comuns do hotel e uma ala da torre que não foi danificada extensivamente foram reabertas há mais de um ano.

Ao contrário de antes do ataque, quando as obras de arte mais importantes do hotel estavam espalhadas por corredores e quartos, o Taj irá expor suas principais peças em três locais de destaque: uma sala de banquetes, um lounge e um bar de frente para o mar.

Embora muitas galerias tenham sido inauguradas nos últimos anos em Mumbai e Nova Délhi, houve um momento em que o Taj Mahal Palace era o grande centralizador da arte indiana. Até o início de 1990 sua Galeria Taj era um dos poucos lugares onde admiradores e colecionadores podiam ir para ver e comprar arte contemporânea em Mumbai, anteriormente conhecida como Bombaim.

“Muitos dos artistas de renome nos anos 1970 e 1980 – pessoas como B. Prabha – realizavam exposições ali”, disse Abhay Sardesai, editor da Art India, uma revista de Mumbai. “Esse foi um espaço muito importante”.

Outras divisões do Grupo Tata, que começou e ainda possui o Taj Mahal Palace, também contribuíram significativamente para a cena de arte moderna da Índia através da compra de obras, especialmente na década de 1950 e 1960, disse Gayatri Sinha, crítico de arte e curador de Nova Délhi. A maioria das corporações indianas “tem sido amplamente indiferentes” à arte, ela disse. “Nesse sentido, a Tata realmente se destaca por ter feito os investimentos certos na hora certa”.

Fechada para uma reforma há quase 10 anos, a Galeria Taj nunca reabriu, mas nos últimos anos o hotel tem dedicado mais atenção à sua própria coleção, que foi iniciada pela esposa do gerente do hotel nos anos 1960. Alguns anos atrás, ela contratou um especialista em arte, Mortimer Chatterjee, para ajudar a catalogar e preservar o acervo.

Várias obras notáveis, incluindo uma peça grande do abstracionista S.H. Raza, escaparam de danos porque estavam no depósito para limpeza e restauração quando o hotel foi atacado, disse Chatterjee, que com sua sócia Tara Lal também coordena sua própria galeria, a Chatterjee & Lal, na rua do Taj Mahal Palace.

Mas outras peças que estavam em exposição na época precisaram de grande restauração porque fungos e partículas de fuligem impregnaram suas tintas e telas. Um trabalho que se revelou particularmente difícil foi o azul claro de Laxman Pai, embelezado com sulcos e rugas que tiveram que ser limpos com cuidado, disse Chatterjee.

Priya Khanna, cuja empresa Art-Life Studio de Restauração, de Nova Délhi, foi contratada pelo Taj para fazer o trabalho, disse que algumas peças sofreram vários tipos de danos – mofo, rasgos, branqueamento – que desaceleraram o trabalho. Ela enviou cinco de seus restauradores mais experientes para viver e trabalhar no Taj por 10 meses e visitava Mumbai a cada 10 dias. “Cada processo leva tempo e após cada etapa nós precisamos deixar a pintura descansar”, disse ela.

Funcionários do Taj dizem ter gasto US$ 50 milhões na restauração do hotel e de sua arte. Além da empresa de Khanna, o hotel contratou cinco designers de interior e dois escritórios de arquitetura para refazer os quartos e áreas públicas. Um telhado novo foi instalado e os pisos foram refeitos no segundo e sexto andares, que sofreram maiores danos.

Grande parte das instalações do hotel foi trocada, incluindo seu encanamento, fiação e móveis, mas Raymond Bickson, chefe-executivo da Indian Hotels Company Limited, a unidade da Tata que possui o Taj Mahal Palace, disse que a empresa tentou replicar os detalhes do seu período, como grades e molduras – algumas feitas por artesãos do Estado de Rajasthan – para preservar o estilo original do hotel. “Fomos capazes de retornar o Palace ao que era – talvez com um toque de frescor”, disse ele.

Localizado no porto em frente ao monumento Porta da Índia, encomendado sob o domínio britânico, o Taj Mahal Palace há muito é um símbolo de Mumbai. Construído numa época em que muitos hotéis proibiam a entrada dos indianos, o Taj foi idealizado por seu fundador, Jamsetji N. Tata, como um lugar onde os indianos seriam bem-vindos e poderiam se misturar com os britânicos em igualdade de condições.

Para muitos o seu status como um emblema da cidade só tem crescido desde o ataque, que é muitas vezes mencionado pelo dia em que aconteceu, “26/11” (26 de novembro de 2008). Muito mais do que o Hotel Oberoi, um centro judaico e outros lugares visados pelos terroristas, o Taj Mahal Palace, com fumaça saindo de suas janelas e cúpulas, se tornou a imagem associada à tragédia.

“Após o 26/11 o Taj, mais do que qualquer outro edifício da cidade, chamou a atenção da cidade e de outros lugares”, disse Sardesai da Art India, acrescentando que o hotel passou a “representar a cidade e o país”.

Ele disse esperar que o hotel aceite este papel e, novamente, o papel de patrono das artes, expondo e comprando obras de artistas contemporâneos, não apenas dos mestres estabelecidos que compõem a maior parte de sua coleção.

O hotel encomendou um novo trabalho para a sua reabertura – uma grande peça de mídia mista criada por Rajesh Pullarwar que emula a ilha de Mumbai –, mas poucas obras foram adquiridas nos últimos anos além desta. “Ele deve também permitir a entrada da cidade”, disse Sardesai. “A arte é um veículo maravilhoso para fazer isso”.

Por Vikas Bajaj

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