Alemães sentem peso da história em dia de escuridão e luz

Menos rígidos com memórias sobre passado nazista, alemães priorizam celebração sobre fim da divisão que marcou Guerra Fria

The New York Times |

Nesta semana, os alemães sentiram o peso de sua história. A terça-feira do dia 9 de novembro teve importância dupla. No mesmo dia do ano de 1938 as tropas de Hitler atacaram propriedades judaicas em um prelúdio do que seria o Holocausto. Cinquenta e um anos depois, o muro que dividia Oriente e Ocidente foi derrubado sinalizando o fim da Guerra Fria.

Os alemães levam o ato de recordar muito a sério e, por isso, o 9 de novembro sempre representou um desafio – como comemorar a alegria da queda do muro e, ao mesmo tempo, marcar a noite de terror conhecida como Kristallnacht - ou a Noite dos Cristais.

Inicialmente, a lembrança triste venceu a celebração. Mas isso parece estar mudando.

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Em Berlim, abertura da exposição de fotos na fronteira da passagem da Bornholmer Strass (9/11/2010)
"Eu acho que é o início de uma mudança na narrativa e isso é preocupante", disse Deidre Berger, diretora do Comitê Judaico Americano de Berlim. "É uma preocupação pois os jovens precisam conhecer este dia".

A mídia local provou seu ponto de vista sobre a mudança na narrativa. O primeiro relato foi sobre a Alemanha comemorar a queda do muro, seguido de um relato sobre a "comunidade judaica" ter marcado a Kristallnacht. "Um ciclo está se concluindo", disse Cilly Kugelmann, vice-diretora do Museu Judaico de Berlim, que percebeu a mudança na forma como os acontecimentos foram relatados. "Pela primeira vez em 20 ou 30 anos, as congregações judaicas lembraram a Kristallnacht sozinhas".

Esquecimento

Os alemães não estão se esquecendo do Holocausto. Essa parte de sua história ainda marca demais a sua vida cotidiana, incorporada não apenas na memória coletiva, mas também no sistema descentralizado de governo que foi projetado especificamente para prevenir o surgimento de um outro Hitler.

Mesmo agora, o passado nazista muitas vezes aparece dentre as mais lidas notícias, conforme alemães descobrem segredos sobre seus pais e avós. Um relato recente, por exemplo, mostrou o profundo envolvimento do Ministério das Relações Exteriores no Terceiro Reich, algo que havia sido acobertado por décadas.

E mesmo os melhores esforços de preservação podem ser desgastados pelos efeitos do tempo e pela sombra de um evento que, como a queda do muro, é relevante para muitas pessoas que estão vivas hoje. As prioridades mudaram.

"É uma mudança que indica que o período de aceitação dos atos criminosos de um antigo governo da Alemanha está virando história", disse Kugelmann. "Não vai ser esquecido, mas já não é uma questão de grande importância emocional para a população".

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Na antiga Berlim oriental, berlinenses relembraram abertura ocorrida em 1989 (9/11/2010)
O prefeito de Berlim, Klaus Wowereit, como muitos de seus colegas eleitos, tentou controlar o desafio de comemorar e recordar. À tarde, ele foi a uma tenda onde champanhe e bolo foram servidos para comemorar a abertura de uma exposição de fotos na fronteira da passagem da Bornholmer Strasse, onde os primeiros alemães orientais cruzaram a fronteira com o Ocidente.

"Aqui é o lugar onde todas as barragens quebraram, onde a ordem pós-guerra ruiu e Berlim viveu seu momento mais feliz", disse Wowereit a um grupo reunido em torno dele, encolhido de frio. "As pessoas comuns fizeram história aqui e não os poderosos".

Pouco antes do champanhe ser servido em taças, o prefeito fez questão de dizer à multidão que iria participar de eventos para comemorar a Noite Pogrom (de destruição).

Anos atrás, a Alemanha decidiu contornar a estranha coincidência histórica destacando o 3 de outubro de 1990 como o dia da unificação e minimizando o papel do 9 de novembro de 1989. Mas esse esforço parece ter perdido a força. "A memória tem relação com o autointeresse", disse Maxim Billinger, um proeminente escritor e comentarista judeu. "Os alemães queriam se reconciliar com sua história, ter uma identidade corporativa de certa forma melhor para a sociedade".

Interesses

Na verdade, o desejo da Alemanha de se arrepender coincidiu com os interesses judaicos de lembrar. Então, o que começou como uma celebração judaica da Kristallnacht cresceu ao longo dos anos e se tornou uma data de grande respeito nacional com auge em 1988, seu 50 º aniversário, com a abertura do Museu Judaico em Frankfurt, disse Kugelmann. Mas, como a mídia local relatou na segunda-feira, "ela voltou à comunidade judaica".

Na verdade, houve eventos que marcaram a Noite dos Cristais em todo o país, e os políticos estiveram presentes. "No entanto, existe o perigo de que, com o passar do tempo, a memória mais recente (a queda do muro) irá substituir a memória do Holocausto", ela disse.

Se há algo em que o 9 de novembro une estas duas narrativas, é o medo de que o tempo esteja diminuindo lentamente as memórias de ambos os eventos.

No encontro organizado pelo prefeito para comemorar a queda do muro, várias pessoas que viviam em Berlim quando ela era dividida disseram temer que a próxima geração esqueça o que viveram.

"Qual foi o preço da liberdade da RDA?", disse Tatjana Sterneberg, ex-moradora da República Democrática Alemã, ou Alemanha Oriental, que participou da abertura da exposição ao ar livre. "Quantas pessoas morreram? Quantos presos políticos sofreram? Estas são as coisas que estão sendo esquecidas. Este é o problema". Ela passou três anos em uma prisão da Alemanha Oriental por tentar fugir e quer que seus compatriotas se lembrem.

"Se você esquecer o seu passado, ele voltará rapidamente", disse Thierry Noir, um pintor que viveu perto do muro em Berlim Ocidental e definiu sua própria vida com pinturas que fez ao longo de um trecho dele. "Há jovens que nem sequer sabem que havia um muro".

Um amigo de Noir, Erich Stahnke, parou por um minuto, coçou a cabeça e disse: "Esta data marcava outros acontecimentos históricos", mas pareceu esquecer o quê especificamente. E ele estava certo: no dia 9 de novembro de 1918, o Kaiser Wilhelm II abdicou do trono, colocando a Alemanha em sua turbulenta trajetória democrática. E no dia 9 de novembro de 1923, Hitler foi preso depois de ensaiar um golpe em sua primeira tentativa de tomar o poder.

*Por Michael Slackman

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