Aldeia da Síria é berço da língua falada por Jesus

MALULA, Síria ¿ Elias Khoury ainda pode se lembrar das velhas pessoas de sua aldeia síria falando apenas o aramaico, a língua de Jesus. Naquela época, o vilarejo, ligado à capital Damasco apenas através de uma longa e cansativa viagem de ônibus pelas montanhas, era quase que inteiramente cristão, um vestígio de um antigo e diversificado Oriente Médio que existia antes da chegada o Islamismo.

The New York Times |

Agora Khoury, de 65 anos, com cabelo grisalho e acamado, reconhece com tristeza que esqueceu a língua que falava com sua própria mãe.

Está desaparecendo, disse ele em árabe, sentado em uma cama com sua esposa na casa onde cresceu. Muito do vocabulário aramaico eu não uso mais, perdi tudo.

Malula, juntamente com duas aldeias vizinhas ainda menores, onde o aramaico também é falado, é celebrada na Síria como uma ilha lingüística única. No Convento de São Sério e Baco, localizada em um moro acima da vila, jovens garotas recitam o Pai Nosso em aramaico para turistas, e folhetos sobre a língua são vendidos em lojas do centro da cidade.

Mas a ilha diminuiu ao longo dos anos, e alguns cidadãos locais afirmam temer que ela saia totalmente de cena. No passado, uma grande população da Síria, Turquia e Iraque falava o aramaico, mas no decorrer nos anos os cristãos lentamente desapareceram, alguns fugindo para o ocidente, e outros se convertendo ao Islamismo. Nas últimas décadas, o processo acelerou devido ao grande número de cristãos iraquianos que tentam escapar da violência e do caos de seu país.

Yona Sabar, professor de línguas semíticas da Universidade da Califórnia, Los Angeles, disse que Malula e os vilarejos vizinhos Jabadeen e Bakhaa representam os últimos dos moicanos do aramaico ocidental, que era provavelmente a língua falada por Jesus há dois milênios.

Com suas casas antigas localizadas em uma fenda drástica das montanhas, Malula era distante de Damasco, capital da Síria, e habitantes locais geralmente ficavam nos arredores da região. Contudo, segundo Khoury, essa tendência agora é diferente, pelo fato da região oferecer poucas propostas de emprego, e os jovens buscarem oportunidade em cidades maiores.

Mesmo se eles retornam para a vila, eles não costumam falar o aramaico. Ônibus para Damasco costumavam sair uma ou duas vezes ao dia; atualmente, a saída se dá a cada 15 minutos, e com as estradas restauradas, a viagem costuma durar cerca de uma hora. Trocas constantes com os grandes centros urbanos, sem contar o advento da televisão e da internet, foram fatores cruciais para que o separatismo lingüístico de Malula fosse corrompido.

A nova geração perdeu o interesse, reiterou Khoury em aramaico.

-Robert F. Worth

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