Ajuda humanitária no Afeganistão traz debate sobre militarização

Ao menos 100 agentes foram mortos neste ano; baixas colocam estratégia de combate em xeque

The New York Times |

Ao menos 100 trabalhadores humanitários foram mortos no Afeganistão este ano, muito mais do que em qualquer ano anterior, gerando um debate entre as organizações humanitárias sobre a estratégia militar dos Estados Unidos ter colocado eles e os afegãos a que servem em risco desnecessário.

A maioria das vítimas trabalhava para empresas empregadas por países da Otan, com menos vítimas entre os tradicionais grupos de ajuda humanitária sem fins lucrativos. A diferença de vítimas nos dois grupos está no cerne de uma questão inquietante na comunidade de ajuda humanitária: será que a estratégia de contrainsurgência dos Estados Unidos militarizou a entrega de ajuda?

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Abrigo da ONG Aschiana Children, em Cabul, que oferece educação para crianças afegãs
Essa doutrina pede que a ajuda ao desenvolvimento civil seja um complemento importante dos esforços militares. Para isso existem Equipes de Reconstrução Provinciais (PRT na sigla em inglês) em 33 das 34 províncias, compostas por civis de países da coalizão para fazer cumprir os projetos de ajuda humanitária. O esforço é enorme e dominado pelos americanos - a Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos está investindo US$ 4 bilhões este ano nas equipes.

As PRTs trabalham a partir de compostos militares fortemente vigiados e geralmente são escoltadas por tropas da Força de Segurança de Assistência Internacional da Otan, conhecida pela sigla Isaf.

Trabalhadores humanitários tradicionais temem que as PRTs e as empresas de ajuda humanitária que trabalham para elas comprometam sua neutralidade. A Oxfam e outros 28 grupos de caridade assinaram no mês passado o relatório Nowhere to Run, que afirma que a prática coloca os civis em risco maior.

Em muitos casos, onde os projetos PRT foram implementadas em áreas inseguras em um esforço para conquistar os afegãos, “eles colocam indivíduos e comunidades em situação de risco'', disse o relatório da Oxfam.

Posição

Michiel Hofman, chefe da organização Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão, disse: "Essa assistência força os beneficiários a escolher um lado, e muitas pessoas nas áreas em litígio não querem escolher lados".

Oficiais da Otan afirmam que os insurgentes não fazem distinção entre os trabalhadores humanitários. "Os insurgentes deixaram claro, tanto em sua retórica quanto em suas ações que visam as ONGs e os trabalhadores humanitários", disse Mark Jacobson, o alto representante civil adjunto da Otan no Afeganistão.

Mas os oficiais humanitários relatam que a grande diferença no número de baixas entre as empresas privadas e as entidades beneficentes mostra que os talibãs fazem uma distinção. "É muito fácil", disse Hofman. "Nós não usamos guardas armados, não temos arame farpado em nossas portas, há um logotipo claro estampado em nossos carros, e não estamos associados a qualquer programa de fortalecimento do governo. O governo é apenas uma das muitas partes em conflito".

*Por Rod Nordland

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