Ainda tumultuada, Praça Tahrir reflete divisão política no Egito

No epicentro dos protestos anti-Mubarak, manifestantes têm debates acirrados sobre quem deve governar e como governo deve ser

The News York Times |

Ao lado de um Fiat velho usado para vender camisetas com a frase "Eu sou livre" e de um vendedor que entrega pedaços de batata doce assada envoltas em folhetos do antigo Partido Democrático Nacional, uma placa colocada acima de uma barraca na Praça Tahrir, centro do Cairo, resume o sentimento de orgulho, esperança e arrependimento da revolta no Egito: "Nosso erro foi ter deixado a praça".

Dezoito dias de protestos neste local atingiram o clímax em 11 de fevereiro, um dia de celebração em todo o mundo árabe, quando o governo do então presidente Hosni Mubarak finalmente caiu. Agora, meses depois, milhares de manifestantes voltaram à praça para deixar claro que uma verdadeira mobilização popular não pode ser apenas um momento.

AP
Manifestante mostra cartaz que diz "Justiça ou balas" durante protesto na praça Tahrir na noite de terça-feira (12/07)

O Egito de hoje é um lugar turbulento como o mundo árabe. Cenas festivas, desafiadoras e confusas aconteceram na noite de terça-feira na Praça Tahrir, que é ao mesmo tempo um lugar e uma ideia. Mobilizações populares acontecem por causa de expectativas, e no Egito, ao que parece, as expectativas – sobre quem deve governar, como se deve governar e quem deve decidir a forma de governo – não foram cumpridas.

"Protesto! Protesto!", gritavam os jovens. "Protesto até que o regime seja julgado”.

"Sentimos que o antigo regime ainda está no poder de alguma forma", disse Tarek Geddawy, um músico de 25 anos que voltou para a praça na sexta-feira e está no local desde então, quase sem dormir. "Eles sacrificaram os ícones do regime, mas seus fundamentos ainda estão lá”.

Em um aglomerado de barracas atrás dele, uma canção de um ícone egípcio de outra era, Abdel-Halim Hafez, tocava em um altofalante. "Se o mundo cair no sono, vou manter minha defesa", diz a canção. "Minha arma na mão, dia e noite acordado, dizendo aos revolucionários que não podemos confiar no inimigo."

A Praça Tahrir manteve a efervescência dos últimos meses. Nour Ramadan pintou bandeiras egípcias em rostos cansados, cobrando um dólar ou menos. Músicos como Cairo Kee subiram ao palco, dando lugar a apresentações curtas de poesia de improviso, recitais, corais de crianças e de um rap árabe que atacava os Estados Unidos e as políticas de Israel no mesmo riff em que pedia o julgamento rápido de Mubarak e de seus homens.

Mas um propósito único deu lugar a uma multiplicidade de exigências, refletindo as divisões da vida política do Egito nos dias de hoje. Os debates variam sobre o momento das eleições, o poder dos islâmicos, a fraqueza dos governantes civis e a falta de responsabilidade dos militares, que sugeriram, em uma aparente concessão aos manifestantes, que iriam ajudar a proteger as liberdades civis na elaboração de uma nova Constituição.

O slogan icônico – "As pessoas querem derrubar o regime" – deu origem a intermináveis trocadilhos, mesmo entre a multidão de maioria secular. Em todo grupo de jovens, "o regime" foi substituído pelo primeiro-ministro Essam Sharaf, pelo conselho militar e pela corrupção, que parecem um sinônimo de todas as décadas de mau governo.

No fervor popular de fevereiro, a Praça Tahrir era um enclave liberal em um país autoritário, uma espécie de comunidade imaginária. Agora ela é o próprio Egito, um retrato de todas as lutas, debates e medos que vão decidir o seu futuro.

"A revolta ensinou às pessoas o significado da política", disse Abdel-Aziz Moussa, um dentista de 25 anos. "Agora, todos sabemos quando estamos sendo usados”.

Com essa afirmação, ele capturou um microcosmo da praça que permanece como o legado mais notável da mobilização popular.

Por muito tempo, líderes árabes permaneceram no poder apesar de sua repressão implacável, má gestão e subserviência ao Ocidente, porque conseguiram despolitizar suas populações, muitas vezes através da força. Mas hoje, seja o gerente de um hotel em um oásis no deserto ocidental ou um estudante de uma aldeia do sul de Qena, todos na praça pareciam falar de política, com ceticismo e críticas.

"Nós mudamos e eles não", disse Ayman Abu Zeid, um médico de 25 anos, sobre o antigo regime. Em fevereiro ele dormiu sob as esteiras de tanques estacionados na praça Tahrir, bloqueando o caminho caso eles tentassem atacar os manifestantes. Agora ele voltou à praça. "Ninguém vai voltar para casa", ele acrescentou. "Ninguém."

A expressão "Primavera Árabe" pode nunca ter capturado o que aconteceu este ano: a Líbia vive uma guerra civil, a Síria passa por um momento sangrento, o Bahrein foi manipulado a adotar uma fórmula sectária e o Iêmen lutou contra seu líder. Mas a expressão sugere o que os eventos significaram para a política em quase todos esses lugares: o rejuvenescimento das sociedades.

Um ativista calculou que, sob uma mesma grande tenda instalada na praça, estão reunidos 42 grupos diferentes. Há o Partido do Amanhã, a Juventude da Praça Tahrir, o Partido Socialista Egípcio, a Aliança das Forças Revolucionárias, o Partido da Frente Democrática e, poeticamente, o Movimento do Princípio.

Às 4h de terça-feira, eles debatiam se os manifestantes deveriam cercar o Mugama, edifício que reúne a burocracia do país, ou marchar até outro prédio do governo. Jovens alertavam uns aos outros para as intenções dos Estados Unidos e da Arábia Saudita em minar a mobilização popular. Outros estavam mais preocupados com o poder da Irmandade Muçulmana, o maior grupo islâmico do Egito. Um insistiu que o conselho militar deveria ser dissolvido. "Se isso acontecer”, outro retrucou com raiva, "não grite mais: ‘Ajude-nos! Ajude-nos!’"

Julia Milad, uma corretora de imóveis de 33 anos, percorreu as tendas passando por muito lixo, em uma praça que já não é mantida limpa como em fevereiro. A Tahrir se tornou tão desarrumada como a política, e em uma arena repleta de intenções incertas – dos militares, da Irmandade Muçulmana – Milad insistiu que a legitimidade que por tanto tempo foi de ocupantes e ditadores agora está nas mãos dos manifestantes. É um ponto que até mesmo o conselho militar parece reconhecer.

"Nós somos a revolução e a legitimidade revolucionária é mais forte que o poder do governo, o poder do exército e o poder de qualquer outra instituição da sociedade", disse ela. "A legitimidade revolucionária existe em cada quadra do Egito”.

Muito tempo depois da chamada para a oração da manhã de terça-feira, quando a luz era desligada dos postes e as nuvens se movimentavam rapidamente sobre a praça, um casal vestindo roupas de gala se juntou à multidão para celebrar seu casamento. Nour Ramadan pintou seus rostos, desta vez sem cobrar. Manifestantes tiraram fotos com seus celulares, outros saudaram o casal com cânticos barulhentos. "Vamos todos para Tahrir", gritaram. "Amanhã é a revolução da mudança".

Eles passaram por bancas exibindo jornais que pareciam concordar com a ideia de Milad: páginas anunciando a ira dos manifestantes contra um primeiro-ministro que já chamaram de seu.

"Tahrir pede a demissão de Sharaf", dizia uma capa. "A Praça Tahrir rejeita o discurso de Sharaf", declarou outro. Um celebrava "a juventude da revolução", uma frase que pode, como a Praça Tahrir, sugerir principalmente uma ideia.

Por Anthony Shadid

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