Agressões sexuais aumentam desespero em meio às ruínas do Haiti

Violência contra as mulheres aumenta depois do terremoto de 12 de janeiro, dizem autoridades e ONGs

The New York Times |

A mulher de 22 anos, usando um vestido azul transparente que colocou depois que foi libertada, falava com uma voz sussurrante. Talvez a pior parte de todo o calvário, disse, foi o lugar que seus sequestradores escolheram para mantê-la prisioneira.

O fato de eles a terem raptado foi aterrorizante. Assim como os estupros repetidos foram algo demasiado terrível para que ela pudesse absorver. Mas mantê-la presa nas ruínas de uma casa? Fazendo com que rastejasse por baixo de uma laje até uma casa destruída, onde a esconderam em um bolsão de entulho? Isso foi tortura, disse.

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Haitiana de 22 anos - que foi raptada, aprisionada, estuprada e libertada apenas após pagamento de resgate - é vista em sua casa em Porto Príncipe
"Uma vez que não havia dormido sob qualquer telhado desde o terremoto, estava tão assustada que não conseguia respirar", disse a mulher, Rose, que pediu que seu nome completo não fosse divulgado.

Os sequestradores de Rose contataram seu cunhado, que entregou o resgate de cerca de US$ 2 mil, dizendo que a matariam se ela falasse. Ela não tinha nenhuma intenção de fazê-lo.

Mas investigadores da polícia apareceram na casa da família no bairro de Delmas 33 logo após sua libertação, e um repórter do The New York Times entrou em cena, mais tarde acompanhando Rose a uma clínica de saúde da mulher, a pedido da família.

Estar presente quando Rose e sua família lutavam com o horror de seu calvário ofereceu um vislumbre sobre a vulnerabilidade que muitos haitianos, especialmente as mulheres, sentem agora.

Obrigados a dormir em acampamentos, ruas e jardins, muitos se sentem à mercê não apenas da situação, mas daqueles que se aproveitam da miséria dos outros.

Assim, tantos casos de estupro passam sem registro aqui que as estatísticas contam apenas uma parte da história. Mas os números existentes, seja aqueles que são mantidos pela polícia ou por grupos de defesa das mulheres, indicam que a violência contra as mulheres aumentou nos meses após o terremoto de 12 de janeiro.

Os sequestros são raros, mas eles também têm aumentado, e "a ameaça é constante", disse Antoine Lerbours, um porta-voz da polícia nacional haitiana.

Malya Villard, diretor da Kofaviv, uma organização de base que apoia as vítimas de estupro, disse que a presença de milhares de prisioneiros que fugiram durante o terremoto agrava um ambiente onde a insegurança e desespero alimentam um ao outro. "É um clima ideal para o estupro", disse ela.

Desde o terremoto, os grupos de ajuda internacional manifestaram preocupação sobre a violência contra as mulheres, especialmente em acampamentos sob seus cuidados.

Iluminação deficiente ou inexistente, latrinas sem fechadura, chuveiros de homens e mulheres adjacentes e proteção policial inadequada causaram problemas.

Recentemente, a segurança em oito grandes acampamentos melhorou com a colocação de postos da polícia da ONU no Haiti. Cerca de 100 policiais de Bangladesh chegaram no mês passado para lidar com a violência contra mulheres em três deles.

Mas há cerca de 1,2 mil assentamentos em todo o Haiti, e os bairros da capital Porto Príncipe são amplamente deixados à sua própria defesa.

* Por Deborah Sontag

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