África do Sul luta para não fazer feio na Copa do Mundo de 2010

JOHANESBURGO - Por trás da dúvida a respeito da África do Sul estar ou não preparada para sediar a Copa do Mundo de 2010 está outra ainda pior: a seleção do país está preparada para jogar?

The New York Times |

O primeiro ensaio foi decepcionante. A Bafana Bafana, ou os Boys, como o seleção é conhecida, dominou o jogo contra o Iraque mas conseguiu apenas um empate de 0 a 0 no domingo durante a Copa das Confederações, com apenas oito equipes.

A África do Sul enfrentará ainda nesta rodada a Nova Zelândia e a Espanha, atual campeã europeia. O otimismo nacional, perceptível antes de domingo, já parece se retrair.


Seleção sul-africana deixou a desejar na primeira rodada / AFP

"Se conseguirmos chegar às semi-finais da Copa da Confederação, isso ajudaria a chegarmos à Copa do Mundo", disse Lucas Radebe, ex-jogador aposentado que foi capitão da seleção em 1998 e 2002. "A essa altura, eu não acho que nossa seleção esteja pronta para o desafio que tem adiante".

Os desafios logísticos e de segurança para lidar com os 450 mil visitantes esperados para Copa do Mundo agora são preocupações mais urgentes (e divulgadas) do que aquelas com a própria seleção. Mas a África do Sul tem outro fardo: nenhum país sede deixou de passar da primeira rodada deste que é considerado um dos maiores eventos esportivos do mundo.

Em duas aparições anteriores, a Bafana Bafana não chegou à fase eliminatória. Isso é o mínimo que se espera da equipe em 2010, quando as conquistas da seleção irão influenciar o triunfo geral da Copa do Mundo, disse Danny Jordaan, chefe executivo do comitê de organização da África do Sul.

"Neste preceito está a memória de uma Copa do Mundo bem sucedida", disse Jordaan.

Entre 1961 e 1992, exceto por um breve período, a África do Sul foi proibida de participar de competições internacionais de futebol por causa das políticas de segregação racial do país.

Isolada, uma geração de jogadores (e a chance de construção de uma potência esportiva) foi perdida. Mesmo agora, uma década e meia depois de acabar com o apartheid, a África do Sul ainda necessita de um sistema melhor para desenvolver seus jogadores desde a infância. "Não se pode construir uma casa a partir do telhado", disse Radebe. "É preciso construir a fundação e seguir para cima".

A seleção, no entanto, conseguiu algum sucesso. A África do Sul sediou e venceu a Copa das Nações Africanas em 1996. Além disso, o time teve duas participações em Copas do Mundo. Mas a seleção esmoreceu nos últimos anos, deixando de se qualificar para a Copa Africana de 2010. Além de ser parte da Copa do Mundo do mesmo ano apenas por ser o país sede do evento.

Carlos Alberto Parreira, que comandou o Brasil ao título na Copa do Mundo de 1994, se tornou o técnico da África do Sul em 2007, apenas para desistir no ano passado, dizendo que queria passar mais tempo com sua mulher que estava doente. Muitos suspeitam que a relação de Parreira com a federação sul-africana também não estava bem.

Santana, como Parreira, é brasileiro, mas tem sido criticado por seu estilo extremamente defensivo. Recentemente, Rob Moore, agente de inúmeros jogadores do país disse ao The Observer de Londres que Santana é uma espécie de "trapalhão ao estilo Fred Flintstone".

A partida de domingo era vista como "uma oportunidade de reconquistar os fãs, silenciar os críticos e mostrar a nós mesmos que somos capazes de competir em alto nível", afirmou o meio de campo Steven Pienaar, que joga com Everton na Liga Premier Inglesa.

Mas a partida contra o Iraque irá apenas aumentar a pressão sobre Santana. Nenhuma quantidade de bandeiras patrióticas e cornetões entre os cerca de 48.837 presentes no Estádio Ellis Park pode impulsionar um gol contra a fraca defesa iraquiana.

A África do Sul jogou de maneira nervosa no primeiro tempo, depois perdeu uma oportunidade de gol quase no final do jogo, quando o meio campo Kagisho Dikgacoi cabeceou mas foi bloqueado por seu colega de equipe Bernard Parker.

"É decepcionante", disse Pienaar, que jogou apenas nos cinco últimos minutos do jogo depois de ter sofrido uma intoxicação alimentar nos últimos dias. "Nós esperávamos vencer".

O esporte há muito é visto na África do Sul como um potente símbolo de identidade nacional e política racial. O futebol chegou através dos ingleses nos anos 1860 e 70, e foi jogado principalmente pelos brancos.

Mas, durante o período de segregação, o rugby se desenvolveu como símbolo de masculinidade e de uma certa superioridade branca. O futebol, enquanto isso, se tornou o esporte dos negros.

Para os nacionalistas brancos, o futebol "era um jogo mais 'natural', enquanto o rugby era mais sofisticado e por isso mais educado", John Nauright escreveu em seu livro "Sport, Cultures and Identities in South Africa" (Esporte, Cultura e Identidade na África do Sul, de 1997).

O futebol se tornou entretenimento e alívio da opressão da vida diária para os trabalhadores de minas e moradores de regiões urbanas. "Esta preocupação com os jogos de futebol fazem com que a vida tenha valor apesar das frustrações", disse o estudioso sul-africano Bernard Magubane em 1963.

Um grande momento conciliador aconteceu em 1995, quando a África do Sul ganhou o campeonato mundial de rugby e Nelson Mandela vestiu a camisa verde do Springboks, time para o qual ele torceu contra durante seus 27 anos na cadeia. Naquele instante, a África do Sul passou a ser uma nação realmente mais ampla.

Mesmo assim, poucos brancos assistem jogos de futebol da liga local (apesar de alguns grupos marcarem presença em jogos da seleção). A atual seleção Bafana Bafana tem apenas um jogador branco no campo e dois na reserva.

"A situação é muito complicada", disse o defesa Matthew Booth, único branco em campo. "Nem todas as escolas oferecem aulas de futebol. Elas roubam muitos atletas, brancos e negros, para o cricket e rugby".

No sábado, Jacob Zuma, presidente da África do Sul, visitou o Bafana Bafana e cantou com os jogadores, prevendo vitória. Santana, o técnico, prometeu: "Ninguém vai vir aqui e tirar nosso sangue no nosso próprio quintal".

Nenhum sangue foi derramado no domingo, mas também não houve vitória. Se a África do Sul não conseguir chegar à semi-final da Copa das Confederações espera-se uma mudança na equipe técnica e na escalação. Há muito em jogo este ano. "Cabeças vão rolar", disse Radebe.

- JERE LONGMAN

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