Afegãs superam ataques cruéis para continuar estudos

KANDAHAR, Afeganistão - Em uma manhã comum dois meses atrás, Shamsia Husseini e sua irmã caminhavam pelas ruas lamacentas a caminho da escola de meninas local quando um homem parou uma motocicleta ao seu lado e fez uma pergunta aparentemente comum. Vocês estão indo para a escola?

The New York Times |

Ao ouvir a resposta, o homem arrancou a burca de Shamsia e jogou ácido em seu rosto. Cicatrizes, irregulares e sem cor, se espalham pelos olhos e grande parte de sua bochecha esquerda. Além disso, sua visão fica turva, dificultando a  leitura.

Mas se o ataque com ácido contra Shamsia e outras 14 (estudantes e professoras)  buscava assustar as meninas para que ficassem em casa, parece que falhou.

Hoje, quase todas as feridas estão de volta à escola Mirwais, inclusive Shamsia, cujo rosto foi tão gravemente queimado que ela teve que ir a outro país para receber tratamento. Talvez o mais marcante, quase todas as estudantes nesta comunidade amplamente conservadora também voltaram (cerca de 1.300 no total).


Muitas meninas caminham três quilômetros para chegar à escola / NYT

"Meus pais me disseram para continuar na escola nem que eu seja morta", disse Shamsia, 17, depois das aulas. A mãe de Shamsia, como quase todas as mulheres adultas da região, não sabe ler nem escrever. "As pessoas que fizeram isso não querem que as mulheres se eduquem. Eles querem que nós sejamos coisas burras".

Nos cinco anos depois que a escola Mirwais foi construída na região pelo governo japonês, ela parece ter gerado uma revolução social. Mesmo conforme o Taleban acirra seu domínio sobre Kandahar, as meninas seguem para a escola todas as manhãs. Muitas delas caminham mais de três quilômetros de suas casas de barro nas montanhas.

As meninas entram correndo pelos portões, muitas delas em indumentárias que vão da cabeça aos pés, conversando, rindo e fazendo amizades de forma impossível de se fazer do lado de fora (para mulheres e meninas de qualquer idade). Mirwais não tem eletricidade, água corrente ou ruas pavimentadas. As mulheres raramente são vistas e quando o são estão cobertas por burcas que tiram os contornos de seus corpos e escondem seus rostos.

Por isso, foi especialmente assustador na noite de 12 de novembro quando três homens em motocicletas começaram a circundar a escola. Um deles usou um spray, outro uma arma de tinta, outro um jarro cheios de ácido. Eles atingiram 11 meninas e quatro professoras no total, seis tiveram que ir ao hospital. Shamsia foi a que mais sofreu.

Os ataques pareceram ser obra do Taleban, o movimento fundamentalista que combate o governo e a coalizão liderada pelos Estados Unidos. Proibir que meninas frequentassem escolas foi um dos símbolos do controle Taleban antes do grupo ser removido do poder em novembro de 2001.

Reconstrução

A construção de novas escolas e a garantia de que as crianças (especialmente as meninas) as frequentassem tem sido um dos principais objetivos do governo e das nações que têm contribuído com a reconstrução do país. Algumas das alunas da escola Mirwais estão no final da adolescência e começo dos 20 anos, mas frequentam a escola pela primeira vez.  Mas ao mesmo tempo, a guerrilha de resistência que montada pelo Taleban na região sul e leste do Afeganistão tem as instituições de ensino como seu alvo principal.

Quem exatamente esteve por trás do ataque com ácido é um mistério. O Taleban nega qualquer envolvimento. A polícia prendeu oito homens e, pouco depois, o Ministro do Interior veiculou um vídeo mostrando dois homens confessando os ataques. Um deles disse que foi pago por um oficial do Serviço de Inteligência do Paquistão para fazer isso.

Mas em uma coletiva de imprensa na semana passada, Hamid Karzai, presidente afegão, disse que não houve envolvimento do Paquistão.

Uma coisa é certa: nos meses antes do ataque, o Taleban assumiu a área de Mirwais e outras regiões do interior de Kandahar. Ao fazer isso, pôsteres apareceram nas mesquitas locais.

"Não deixem suas meninas irem à escola", um deles dizia.

Nos dias que se seguiram ao ataque, a escola Mirwais ficou vazia. Nenhum dos pais permitia que suas filhas saíssem de casa. Foi aí que o diretor, Mahmood Qadari, começou a trabalhar.


Apesar de ameaças e ataques, centenas de meninas ainda frequentam a escola / NYT

Depois de quatro dias de classes vazias, Qadari convocou uma reunião com os pais. Centenas vieram à escola (pais e mães) e Qadari implorou para que deixassem suas filhas voltarem a estudar. Depois de duas semanas, algumas voltaram.

Então, Qadari, cujas três filhas vivem no exterior, uma delas na Virgínia, pediu apoio ao governo local. O governador prometeu mais policiais, uma ponte sobre uma estrada local e, mais importante, um ônibus. Qadari convocou outra reunião e disse aos pais que não havia mais motivos para que suas filhas não voltassem à escola.

"Eu disse a eles, se suas filhas não forem à escola o inimigo vence", disse Qadari. "Eu disse que não deveriam desistir em nome da escuridão. A educação é o caminho para melhorar nossa sociedade".

Os adultos de Mirwais não precisaram de muita persuasão. Nem o ônibus, nem a polícia, nem a ponte se concretizaram, mas as meninas voltaram à escola mesmo assim. Apenas uma dúzia delas perde as aulas agora, três das quais se feriram nos ataques.

"Eu não quero que as meninas se sentem por aí jogando suas vidas fora", disse Ghulam Sekhi, tia de Shamsia e sua irmã, Atifa, de 14 anos, que também foi ferida.

Apesar de toda a incerteza do lado de fora de seus muros, a escola Mirwais transborda vida. Suas 40 salas de aula estão tão cheias que  acontecem em quatro tendas, doadas pela Unicef, no quintal. O Ministério da Educação está construindo um prédio permanente maior no local.

Nos últimos dias a escola tem realizado provas. Em uma sala, um teste de geografia no qual a professora dita as perguntas.

"Qual é a capital do Brasil?", pergunta a professora, Arja.

"Agora, qual são suas principais cidades?"

"Quantas vezes a América é maior que o Afeganistão?"

Na primeira fila, Shamsia, a menina do rosto queimado, pensava sobre as perguntas enquanto toca a maior de suas cicatrizes. Ela olhou o papel, esfregou os olhos e escreveu algo.

Os médicos disseram que seu rosto precisará de cirurgia plástica para que as cicatrizes desapareçam. O sonho é distante: a vila de Shamsia não tem nem mesmo eletricidade e seu pai é deficiente físico.

Depois da aula, Shamsia se misturou com outras meninas, brincando e conversando por ali. Ela não parecia preocupada com a desfiguração de seu rosto, até que começou a recontar seu drama.

"As pessoas que fizeram isso", ela disse. "Não sentem as dores dos outros".

Por DEXTER FILKINS

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