Afeganistão esconde governo paralelo do Taleban

Com apoio de moradores de zonas rurais e logística, insurgentes mantêm regime paralelo, apesar das operações para miná-los

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Em meados de dezembro, agentes da polícia afegã prenderam um homem que tinha escondido uma bomba falsa perto de um escritório do governo em Miri, um vilarejo no leste do Afeganistão. O homem, que deu o nome de Muhammad Mir, confessou, dizendo que queria medir a reação das forças de segurança a um ataque do Taleban, segundo autoridades de inteligência dos Estados Unidos.

Um papel encontrado no seu bolso, no entanto, mostrou-se mais significativo do que a evidência da tática de reconhecimento do Taleban. Escrito em pashtu, quando traduzido o papel se revelou uma nota de cobrança de impostos do Emirado Islâmico do Afeganistão – o Taleban.

Muhammad Alnabi tinha pago 1,6 mil afeganis (cerca de US$ 37) ao Taleban. O sargento Akbar havia pago 700 afeganis e Abdulla Kaka, 6,5 mil afeganis, formando os fundos para um governo paralelo continuar a sua luta.

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Soldados do Exército americano fazem inspeções no vilarejo de Alu Khel, na província de Ghazni, no início da manhã
O papel no bolso de Mir, insinuando tanto arrojo quanto organização, tornou-se parte de um retrato de como a expansão gradual do Taleban tem organizado e lutado a sua guerra de guerrilha em uma região rural do Afeganistão.

A imagem é de um governo paralelo comandado por combatentes locais, organizados sob a bandeira do Taleban, que estabeleceu os rudimentos de uma administração civil para complementar a sua força de combate sombria. Eles têm escolas, cobram impostos e julgam litígios civis em tribunais islâmicos. E quando entram em combate, seus homens armados e fabricantes de bombas são auxiliados por uma rede de inteligência e de apoio que inclui moradores que fornecem abrigo e túneis pelos quais eles podem fugir ou procurar cuidados médicos.

Como parte da campanha do governo Obama em subjugar uma insurgência cada vez maior e criar um governo afegão durável, os militares enviaram milhares de soldados a zonas rurais do Afeganistão no ano passado, que vive sob a influência, se não o controle total, do regime Taleban. Uma dessas forças-tarefa, o 3º Batalhão do 187º Regimento de Infantaria, chegou a Miri em setembro para ajudar a estabelecer uma presença do governo em um lugar que, embora seja a sede oficial do Distrito de Andar da província de Ghazni, representantes oficiais visitaram de maneira esporádica na última década.

Quase cinco meses depois – por meio de interrogatórios de prisioneiro, relatos de informantes, conversas de rádio interceptadas, fiscalizações de funerais de combatentes, documentos do Taleban, cerca de 200 tiroteios e a captura de fotografias, equipamentos e bombas – os americanos já começaram a entender como os talebans atuais operam.

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Soldados americanos utilizam fogos para iluminação durante treinamento no vilarejo de Salamanzi
O conhecimento que o batalhão tem de seus inimigos está longe de completo. Os oficiais dizem que não têm perfis detalhados da maioria das células de combate. Questões importantes, como se há financiamento externo para os insurgentes da região, continuam sem resposta. Mas a sua análise, construída quase a partir do zero e revelada por meio de entrevistas com os comandantes, soldados e analistas, no entanto, esboça um mapa tático, social e visual de uma organização que é ao mesmo tempo ampla, mas raramente vista por estranhos. Além disso, ela apresenta um lembrete implícito das dificuldades enfrentadas pelo Pentágono para entregar áreas como esta, com sua insurgência determinada e profundamente enraizada, às forças de segurança afegãs em 2014.

Poder oculto

A análise destaca dois elementos distintos de estrutura Taleban: um quase governo e o braço militar que lhe dá poder. Por um lado, o Taleban restabeleceu firmemente o seu domínio sobre a vida dos civis na região rural de Ghazni. Mesmo com um batalhão americano patrulhando Andar e o distrito vizinho de Deh Yak diariamente, o Taleban tem 28 escolas conhecidas, circula panfletos com declarações públicas à noite, decide disputas de propriedade através de tribunais religiosos, além de cobrar impostos dos moradores e castigar os afegãos rotulados como colaboradores.

"Há indicadores concretos de que um governo paralelo existe e tem sido forte nos últimos dois ou três anos", disse o primeiro tenente Michael D. Marietta, oficial de inteligência da força-tarefa.

Os oficiais americanos disseram que a influência do Taleban cresceu no vácuo deixado pelo governo: houve uma quase completa ausência do governo para prestar serviços aqui desde que o Taleban foi deposto na invasão americana de 2001. "A queixa mais comum que ouvimos dos afegãos é que eles não veem o governo há anos", disse o tenente-coronel David G. Fivecoat, comandante do batalhão.

Mas além disso, o Taleban trava combates. Os analistas estimam que o Taleban pode ter cerca de 400 combatentes nos distritos de Andar e Deh Yak, que têm uma população total de cerca de 150 mil.

Os combatentes assediam as forças afegãs e americanas e mantêm uma campanha de intimidação contra os moradores que colaboram com, ou mesmo reconhecem, o governo central. Vestindo-se como civis, eles combatem forças ocidentais com um roteiro familiar: emboscadas e bombas improvisadas com um risco mínimo e o ocasional ataque com foguete ou morteiro.

Eles também têm uma rede de apoio, os oficiais disseram, de pelo menos 4 mil civis. Os adeptos fornecem comida, abrigo e ajuda por tempo parcial, como passar informações falsas para os americanos e sinalizar os movimentos do batalhão de patrulha, com espelhos e fumaça. A ajuda muitas vezes permite que os combatentes desapareçam por ruas das vilas.

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Militares detêm suspeitos de colaborar com o Taleban no Afeganistão
No dia 20 de janeiro, um esquadrão da Companhia C estava observando rotas de fuga da aldeia de Maumud, onde soldados e policiais foram em busca de armas.

Uma inspeção na entrada de um karez, o sistema de aquedutos subterrâneos tradicionais afegã, levou à descoberta de uma estação de apoio subterrânea do Taleban. Dentro do túnel principal do aqueduto, que continuava por vários metros, os soldados encontraram lençóis sujos, bandagens ensanguentadas, seringas e penicilina – sinais de que combatentes feridos haviam sido tratados ali recentemente.

Espiões

Ao contrário de outras áreas do Afeganistão, oficiais da força-tarefa disseram, os combatentes do Taleban da região de Ghazni parecem ser apenas homens locais.

O batalhão não ouviu línguas típicas dos combatentes estrangeiros no Afeganistão – árabe, urdu e uzbeque, por exemplo – em mensagens de rádio interceptadas. A fiscalização de enterros de combatentes talebans tem consistentemente apontado raízes locais. "Nós não vimos combatentes estrangeiros", disse Fivecoat. "Sabemos disso porque matamos combatentes e acompanhamos seus funerais. Todos eles estão sendo enterrados nas vilas locais pelos mais velhos”.

Mas as influências externas são evidentes no comando e controle dos combatentes. A grande maioria dos insurgentes de Andar e Deh Yak respondem à Quetta Shura – a organização liderada pelo mulá Mohammad Omar que outrora governou o Afeganistão.

Os oficiais de inteligência também disseram que há uma pequena presença na região oriental de Ghazni de combatentes leais à rede Haqqani, uma organização internacionalmente designada como terrorista, com base em Miramshah, Paquistão, que é alinhada com os talebans.

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Moradores de vilarejo e membros do Exército afegão se aquecem em fogueira improvisada
Algumas bombas improvisadas apresentam sinais de que foram montadas pela Haqqanis ou por pessoas que tenham sido treinadas por eles, disse Marietta. Com as suas origens e ligações locais, o Taleban de Ghazni foi capaz de intimidar o governo e exercer influência sobre a população.

Vários oficiais americanos disseram que combatentes do Taleban operam sem interferência do pequeno contingente da força policial afegã dos dois distritos, com quem, em alguns casos, têm negociado.

Quando o batalhão chegou a Deh Yak, descobriu que um posto policial com vista para a aldeia de Salamanzi havia sido vendido em julho pelo seu comandante ao Taleban, que saqueou a munição do local, incluindo lançadores de granadas.

O posto já foi Restabelecido como uma posição do governo, mas as suspeitas persistem. "Temos postos policiais com seis homens lá que nunca foram atacados, e quase todas as vezes que nós chegamos somos atacados", disse Fivecoat. "Então, alguma coisa está acontecendo".

Da mesma forma, no ano passado, quando o Taleban ordenou que os moradores não votassem nas eleições parlamentares, oficiais disseram, a ordem foi obedecida. "Há 110 mil pessoas em Andar", disse o sargento de 1 ª Classe Jason S. Werts, do batalhão de inteligência. "Três pessoas votaram".

Inteligência

A inteligência da organização também tem sido eficaz. Uma inspeção da vila de Bashi pelos americanos encontrou um modelo do terreno da Base de Operações Avançada Andar, onde a sede do batalhão americano está localizada. O modelo, segundo oficiais, era preciso – o que indica que o Taleban tem informantes na base.

Outro sinal dos efeitos da rede de inteligência surgiu em declarações de policiais afegãos que trabalham no posto em Salamanzi. Em entrevistas, três agentes disseram que apesar de viverem perto do posto, eles têm medo de ir para casa. “Os talebans têm espiões por toda a parte”, disse o oficial da polícia Abdul Wasay.

A sua rede de espionagem identificou civis que ajudaram as tropas americanas e do Afeganistão. “O cara que tínhamos que estava disposto a nos dar informações sobre o Taleban é o cara que encontramos morto na semana passada”, disse o Capitão Edward T. Peskie, que comanda uma das companhias do batalhão.

O informante, Abdul Hamid, foi parado em uma estrada de terra, tirado de seu veículo e baleado. Uma patrulha americana na aldeia vizinha de Janabad não resultou em nenhuma informação. Vários moradores agiram como se não tivessem ouvido falar do homem.

Táticas

O uso de táticas de bater e correr pelo Taleban muitas vezes dificulta que os soldados vejam claramente os seus inimigos. Mas no final de dezembro, na aldeia de Alu Khel, um pelotão encontrou dezenas de fotografias dos talebans em um prédio.

As fotos revelaram os rostos dos combatentes, a maioria deles muito jovem. Entre elas também estavam imagens de meninos pequenos, alguns dos quais pareciam ter cinco anos ou menos, empunhando fuzis, foguetes, lançadores de granadas e rádios.

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Soldados buscam vestígios da presença taleban, em casa do vilarejo de Alu Khel
Essas fotos incluíam sinais das fontes do Taleban. Várias imagens, por exemplo, mostravam combatentes com o conhecido rifle da polícia afegã – o AMD-65.

A Otan começou a entregar o AMD-65 para policiais afegãos em 2006. Sua presença nas mãos do Taleban indica que as armas compradas pelos Estados Unidos escaparam da custódia do governo. Mas o sucesso do Taleban em obter munições e armas não tem sido acompanhado da capacidade de usá-las bem. “Eles muitas vezes não sabem nem o básico”, disse Werts.

Em cerca de 200 ataques de armas leves contra os americanos nos últimos meses, as balas dos insurgentes atingiram apenas seis soldados americanos, de acordo com os dados médicos do batalhão.

No início do outono passado, para citar outro exemplo, o Taleban disparou quatro tiros de morteiro contra a Base Andar. Todos os quatro pousaram dentro das paredes do perímetro, incluindo um que caiu no telhado de uma tenda lotada de soldados americanos. Mas nenhum deles explodiu: quem os disparou, soldados disseram, esqueceu de inserir os fusíveis.

As bombas escondidas do Taleban também incluíam várias cápsulas vazias. Os oficiais disseram que o sinal de incompetência dos combatentes é um pequeno conforto.

Ambos os lados passaram meses avaliando um ao outro. Quando a primavera (no Hemisfério Norte) chegar, os oficiais disseram, os talebans em Ghazni continuarão o trabalho de seu governo paralelo, incluindo a coleta de impostos. Mas os combatentes, segundo eles, podem seguir os padrões observados em outros lugares, quando as forças dos Estados Unidos se instalaram e passaram a usar mais bombas improvisadas.

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Soldado faz buscas na província afegã de Ghazni
*Por C. J. Chivers

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