Afeganistão diz precisar de ajuda por pelo menos mais uma década

Em conferência na Alemanha, presidente pede apoio político e militar por ao menos dez anos e assistência financeira até 2030

The New York Times |

À medida que dezenas de nações e organizações se reuniam em Bonn , Alemanha, na segunda-feira para planejar a retirada dos EUA e de outras forças internacionais do Afeganistão até 2014, o governo local tinha um novo prazo em mente: 2024.

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Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, reúne-se com presidente afegão, Hamid Karzai, durante conferência sobre o futuro do Afeganistão em Bonn, Alemanha
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O presidente Hamid Karzai e outras autoridades afegãs pediram apoio político e militar por pelo menos mais uma década - e assistência financeira até 2030. Com isso, completariam-se quase três décadas desde os ataques terroristas do 11 de Setembro que levaram à intervenção internacional no Afeganistão .

Enquanto Karzai e outros comemoraram os avanços feitos no Afeganistão desde a queda da milícia islâmica do Taleban, em 2001 - 60% dos afegãos agora têm telefones celulares, disse ele, quando antes nenhum tinha -, a conferência ressaltou os múltiplos desafios enfrentados por um governo frágil minado pela corrupção e ameaçado por uma insurgência resistente.

"Precisaremos de seu apoio firme por pelo menos mais uma década", disse Karzai, abordando líderes que se reuniram em uma conferência realizada no décimo aniversário do dia em que a base política para um novo governo foi estabelecida em Bonn.

A conferência, que foi planejada por meses, ficou consideravelmente aquém dos objetivos das autoridades locais. Ela era vista como um marco que cimentaria o progresso para acabar com a guerra política e militarmente e criaria as bases para um governo afegão autossustentável.

Em vez disso, conforme os meses se passaram, o ritmo da guerra tem mostrado poucos sinais de desaceleração, apesar de uma avaliação otimista da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) que tinha invertido o ímpeto dos insurgentes taleban.

Os esforços pelos EUA para negociar um acordo estratégico sobre as relações com o Afeganistão depois de 2014, como aquele que agora rege as relações com o Iraque, também foram complicados por questões espinhosas. Entre elas estão incursões noturnas pelas forças especiais e a transferência de prisioneiros para os afegãos, apesar de seus maus antecedentes em relação ao tratamento dos detidos. Os dois países não podem sequer concordar sobre como chamar o acordo.

A secretária de Estado americano, Hillary Clinton, tem promovido a criação de uma Nova Rota da Seda para unir as nações da Ásia Central e do Sul, aliviando as barreiras comerciais e criando oportunidades econômicas entre os países vizinhos do Afeganistão. E, embora a conferência de Bonn tenha sido concebida para mostrar essa estratégia, o vizinho mais importante do país - o Paquistão - se recusou a participar em protesto contra os ataques aéreos realizados pelos EUA em seu território em 26 de novembro, que mataram 24 soldados paquistaneses no que as autoridades americanas disseram ter sido um trágico acidente.

O presidente Barack Obama e Hillary pressionaram seus correspondentes no Paquistão em telefonemas no fim de semana para que reconsiderassem o boicote à conferência.

"Toda a região tem uma participação no futuro do Afeganistão e muito a perder se o país voltar a ser uma fonte de terrorismo e instabilidade", disse Hillary aos delegados presentes, que incluíam dezenas de ministros das Relações Exteriores, incluindo do Irã. "E é por isso que poderíamos, é claro, nos beneficiar da contribuição do Paquistão para essa conferência."

Oficialmente, a conferência foi organizada pelo governo de Karzai, embora tenha acontecido longe do Afeganistão. Ela foi realizada no antigo Parlamento da ex-Alemanha Ocidental. Do outro lado do Reno, manifestantes erguiam faixas com os dizeres: "Acabem com a Guerra no Afeganistão."

Hillary, repetindo vários outros ministros, reiterou a visão do governo Obama de que não haverá solução militar para o conflito. Ainda assim, os esforços nascentes em incentivar a reconciliação com o Taleban - que também contam com a cooperação paquistanesa - parecem moribundos, especialmente desde o assassinato de Burhanuddin Rabbani em setembro por um homem-bomba disfarçado de emissário da paz do Taleban.

Antes havia esperanças de que a conferência de Bonn traria, pelo menos, figuras insurgentes periféricas para as negociações de paz, com representantes participando da delegação afegã. Esses seriam ex-ministros do Taleban como Mullah Zaeef e Wakil Ahmad Mutawakil, a quem foi concedida a anistia e permissão para viver abertamente em Cabul. Embora oficialmente sejam agora rejeitados pelo Taleban, os dois ainda defendem a linha de pensamento do grupo em muitas questões.

Ambos visitaram Berlim no mês passado a convite da Fundação Stiftung Hans Seidel, grupo político próximo do Partido Cristão Democrata dominante na Alemanha e, de acordo com diplomatas ocidentais, realizaram inúmeras reuniões e discussões com autoridades do governo alemão, incluindo as do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão.

Na conferência, diplomatas disseram que representantes do Taleban tinham sido convidados há meses, antes de o assassinato de Rabbani paralisar qualquer processo de reconciliação, e as autoridades afegãs disseram que agora completamente descartam qualquer possibilidade de participação de representantes do grupo em sua delegação. Antes, a sua posição era a de que representantes do Taleban tinham sido convidados a participar caso viessem como parte da delegação do governo afegão.

Mesmo que Obama e outros líderes da Otan tenham estabelecido um calendário para a retirada em 2014, poucos oficiais esperam que as negociações de reconciliação tenham sido retomadas até lá. Isso levantou dúvidas sobre a segurança e a estabilidade do governo de Karzai, uma vez que as tropas internacionais começarem a se retirar.

O governo de Karzai apresentou um documento à conferência delineando planos do Afeganistão para o desenvolvimento de uma economia agora quase totalmente dependente das forças militares internacionais e gastos para o desenvolvimento. O documento alertou que a retirada depois de 2014 poderia reduzir pela metade o crescimento econômico do país.

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Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, posa para fotos com delegação de afegãs da sociedade civil em conferência sobre o futuro do Afeganistão em Bonn, Alemanha
Ele disse que o governo precisaria de US$ 10 bilhões em 2015 para cobrir o déficit. Apenas a cobertura do custo das forças militares no Afeganistão - que em 2014 devem totalizar 400 mil soldados - está orçada entre US$ 3,5 bilhões e US$ 6 bilhões por ano. Até essa data, o Afeganistão, o décimo maior país do mundo, teria a 12ª maior força militar do mundo.

"O problema fiscal do Afeganistão é significativo", afirma o documento, que equivale a um pedido de assistência financeira contínua, "e se não for abordado todo o bom trabalho dos últimos dez anos será desfeito."

A conferência não se destinava a solicitar compromissos financeiros das nações presentes e nenhuma foi oferecida. "Eles devem fornecer uma ajuda financeira, o suficiente para cobrir as despesas de segurança e defesa, já que a nossa renda nacional não pode cobrir isso", disse Jawad Ludin, o vice-ministro para assuntos estrangeiros do Afeganistão.

*Por Steven Lee Myers e Rod Nordland

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