Aeróbica erótica vira mania na China

PEQUIM - Com botas de couro até os joelhos, shorts de spandex e top esportivo, Xiao Yan faz uma pose, meio metro acima do chão, com o rosto coberto de suor e os braços esticados para mantê-la suspensa num poste vertical.

The New York Times |

"O mais difícil é se segurar", ela afirma. "Escorregar é muito fácil".

Xiao, 26 anos, que trabalha como gerente num supermercado, está entre o crescente número de mulheres que experimentam a atividade física mais recente e controversa da China: a dança do poste.

"Eu fazia aulas de aeróbica normal, mas era muito chato e monótono", disse Xiao. "Então tentei a dança do poste e descobri que é uma atividade realmente social. Eu conheci muitas garotas na aula que hoje são minhas amigas. Alem disso eu me sinto mais sexy".

Sucesso

Uma atividade geralmente realizada por dançarinas em boates de strip-tease dos Estados Unidos, a dança do poste (com roupas) vem conquistando espaço no mercado de exercícios chinês, com cada vez mais academias e escolas de dança oferecendo a aula.

A mulher que alega ter trazido a dança para a China, Luo Lan, 39, é de Yichun, uma pequena cidade na província de Jiangxi. Seus pais são professores universitários de física. "Eu não sou boa em ciência como meus pais; sou a ovelha negra da família, de certa forma", ela diz.

Luo disse que tentou 20 ocupações diferentes (entre elas a de secretária, vendedora, garçonete e tradutora) antes de decidir dar um tempo. Ela viajou a Paris em 2006 e foi ali que viu a dança do poste pela primeira vez. "Eu entrei num bar e uma mulher estava dançando no palco", ela conta. "Eu achei lindo".

Luo, que rapidamente descobriu que a dança do poste para manter a forma é algo popular nos Estados Unidos, percebeu que poderia remover as partes mais eróticas da dança e torná-la uma atividade aceitável para as mulheres chinesas e revolucionar o setor da boa-forma do país. Ali estava um exercício que permitiria que a mulher mantivesse a forma e expressasse a sensualidade.

Desafio

Mas Luo sabia dos desafios em uma sociedade onde os valores tradicionais ditam que a mulher deve ser leal, fiel e modesta.

Ao voltar para Pequim, Luo investiu pouco menos de US$ 3 mil de sua poupança para abrir a Lolan Escola de Dança do Poste. Ela colocou um anúncio num jornal de estilo de vida e avisou as amigas. Aos poucos as mulheres vieram dar uma olhada.

Divulgação

"Quero ser uma estrela,"
diz Luo Lan

"As pessoas aqui nunca viram uma dança do poste e por isso não associam a prática com mulheres de má reputação ou com o strip-tease", disse Luo. "Eu sabia que se pudesse causar uma boa primeira impressão dessa atividade como sendo limpa, divertida, social, as pessoas iriam adotá-la".

Rapidamente Luo foi procurada por diversas revistas. Em março de 2008, a Televisão Hunan, uma emissora nacional, convidou ela e um grupo de alunas para se apresentar durante um programa.

"A maioria das pessoas na platéia não sabia do que se tratava", disse Hu Jing, 24, instrutor da escola. "As pessoas acharam divertido e aplaudiram".

Desde a apresentação, a dança do poste se espalhou pelo país. A escola agora tem cinco filiais e planos de abrir outras seis no próximo ano. Uma escola rival conhecida como Hua Ling abriu as portas seis meses depois que a escola Lolan.

Desagrado

No entanto, a chegada da dança do poste no mundo dos exercícios tem sido cheia de conflitos. Muitos chineses, que desaprovam seus movimentos sexuais, consideram a prática indisciplinada e amoral.

"Há cinco anos isso não teria sido permitido", disse Zhang Jian, 30, gerente de uma empresa de decoração. "Eu acho que é apenas uma moda e não é apropriada para mulheres".

Luo disse que já recebeu trotes e muitas críticas. "Eu fui contactada por muitas pessoas que não gostam do que eu faço", ela disse.

Mas quem adota a dança do poste como exercício são pessoas que retratam os jovens urbanos cujos valores são muito diferentes dos de seus pais.

Tradição

Apesar da China não ter uma religião oficial, o estudo do Confucionismo e Taoísmo, duas filosofias opostas que refletem muito do pensamento moderno chinês, é obrigatório no sistema educacional do país. Enquanto o Confucionismo enfatiza a propriedade e as conquistas, o Taoísmo ressalta as forças invisíveis na pratica da humildade e, em alguns casos, em se aceitar mediano.

Apesar de Jiang Li, 23, uma aluna da dança do poste, estudar ambas as filosofias na escola, ela diz que não poderia adotar nenhuma delas.

"Muitas pessoas esperam que a mulher chinesa seja  subserviente e fiel, que deveríamos casar e cuidar dos filhos ainda jovens", ela disse. "Mas eu não penso assim (eu quero ser independente). Eu estudei dança tradicional chinesa por muitos anos, mas a dança do poste é totalmente diferente. Eu sinto controle no que faço. Sinto que se aprender isso direito posso me tornar uma estrela. Eu quero ser uma estrela".

Por JIMMY WANG

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