Adolescentes trocam senhas usadas na internet como ato de amor

Para expressar afeto, jovens dos EUA permitem que namorados e amigos acessem seu email e redes sociais

The New York Times |

Há muito tempo jovens casais demonstram sua devoção de várias maneiras, como por meio de presentes ou troca de anéis ou pulseiras. Melhores amigos compartilham a combinação dos cadeados de seus armários.

A era digital tem dado origem a um costume mais íntimo. Virou moda entre os jovens expressar seu afeto um pelo outro compartilhando suas senhas de contas de email, Facebook e outros serviços. Namorados muitas vezes chegam a criar senhas idênticas e deixam o outro ler seus emails particulares e mensagens de textos.

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Alexandra Radford, estudante de San Francisco, que diz ajudar amigas a estudar mudando suas senhas no Facebook

Eles dizem que reconhecem que esse tipo de envolvimento digital é arriscado, pois pode fazer com que uma relação que não está indo bem piore quando um dos lados usar emails e senhas para justificar sua postura. Mas isso, segundo eles, é parte do que faz o simbolismo de compartilhar sua senha com o outro algo tão poderoso.

"É um sinal de confiança", Tiffany Carandang, uma estudante do colegial em São Francisco, disse à respeito da decisão que ela e seu namorado tomaram há alguns meses de compartilhar suas senhas de email e Facebook. "Não tenho nada a esconder dele e ele não tem nada a esconder de mim."

"Isso é tão fofo", disse Cherry Ng, 16, ao ouvir o depoimento de sua amiga. "Eles realmente confiam um no outro."

"Nós realmente confiamos um no outro", disse Tiffany, 17.

"Eu sei que ele nunca faria nada para manchar a minha reputação", acrescentou.

Relacionamentos nem sempre têm um final feliz. Mudar a senha é algo simples e rápido, mas os estudantes, conselheiros e pais dizem que muitas vezes o problema ocorre antes de uma senha ser alterada, ou que o próprio compartilhamento da vida digital se torne a razão do fim de um relacionamento.

As histórias sem final feliz incluem a de um namorado que foi rejeitado no colegial e tentou humilhar sua ex-namorada ao espalhar seus segredos por email. Outro problema comum é a procura constante por emails ou mensagens de texto que possam indicar algum tipo de deslealdade ou infidelidade, ou pegar um celular de um ex-melhor amigo cuja senha era compartilhada e ameaçar enviar mensagens a seus contatos.

Rosalind Wiseman, que estuda como os adolescentes usam a tecnologia e é autora do livro "Queen Bees e Wannabes", um livro para os pais que querem saber como ajudar as meninas a sobreviver à adolescência, disse que o compartilhamento de senhas, e a pressão para fazê-lo, é algo semelhante ao que acontece com o sexo entre os jovens atualmente.

Compartilhar senhas, observou ela, parece algo proibido, porque é geralmente desencorajado pelos adultos e nos deixa vulnerável. E há essa pressão em muitos relacionamentos adolescentes para compartilhar suas senhas, assim como há para que pratiquem sexo.

"A reação é a mesma: Se estamos em um relacionamento, isso quer dizer que você tem que me dar alguma coisa em troca", disse Wiseman.

Em uma pesquisa realizada em 2011, o grupo Pew Internet revelou que 30% dos jovens que estão regularmente online já compartilharam uma senha com um amigo, namorado ou namorada. A pesquisa, que foi realizada com 770 pessoas de idades entre 12 a 17, descobriu que as meninas eram quase duas vezes mais propensas que os meninos a compartilhar suas senhas. E em mais de duas dezenas de entrevistas, pais, estudantes e conselheiros disseram que esta prática se tornou comum.

Em uma coluna publicada recentemente no site de tecnologia Gizmodo, Sam Biddle chamou o ato de compartlhar senhas de um eixo de intimidade do século 21 e ofereceu conselhos para casais e amigos sobre como evitar que errem na sua decisão.

"Conheço muitos casais que compartilharam suas senhas, não sei de nenhum que não tenha se arrependido", disse Biddle em uma entrevista, acrescentando que a prática inclui a noção explícita de que alguém irá acabar com o relacionamento caso se comporte de uma maneira considerada errada. "É o tipo de simbolismo que dá sempre errado."

Os estudantes dizem que há motivos para a troca de senhas que vão além de uma demonstração de confiança. Por exemplo, estudantes universitários disseram que compartilham regularmente suas senhas do Facebook - não para espionar ou monitorar uns aos outros, mas para se forçar a estudar para as provas finais. Um estudante fornece a senha a um amigo para que ele a modifique - e não divulgue a nova - com isso, bloqueando temporariamente o titular da conta do Facebook e tirando dele uma grande distração na hora de estudar.

Alexandra Radford, 20, que cursa o primeiro ano na Universidade Estadual de São Francisco, disse que tinha feito isso várias vezes para amigos durante os exames. Uma amiga queria saber a nova senha antes das provas finais terem terminado, mas ela não cedeu.

"Quando as provas finais acabaram, passei a nova senha", disse. "Ela disse, 'Oh, meu Deus, obrigada.' Ela acabou reconhecendo que foi algo positivo."

Mas Radford tem certas lembranças sobre as senhas que ela compartilhou alguns anos atrás no colégio com seu namorado. Eles chegaram a mudar suas senhas para refletir seu relacionamento. A dela: ILoveKevin. A dele: ILoveAly.

"Fizemos isso para que eu pudesse verificar suas mensagens, porque não confiava nele, o que não era nada saudável", ela admitiu.

Conselheiros escolares não recomendam essa prática e os pais muitas vezes pregam a necessidade de manter sua senha em segredo. Winifred Lender, um psicólogo infantil em Santa Barbara, fez seus três filhos assinarem um "contrato digital" que coloca limites sobre a quantidade de mídia que podem consumir e como eles irão se comportar na internet. Uma das regras é que eles não irão compartilhar suas senhas.

Ainda assim, disse Lender, seu filho de 14 anos foi recentemente convidado a trocar senhas com seu amigo. Seu filho foi pego de surpresa, mas depois pensou em uma desculpa para dizer não. "Ele culpou os pais", disse Lender.

Emily Cole, 16, que cursa o primeiro colegial, em Glastonbury, Connecticut, sentiu a dor da traição por ter compartilhado sua senha na sétima série, quando informou sua senha de email ao primeiro namorado.

Emily começou a gostar de outro estudante e enviou um email para ele. Seu namorado leu e começou a espalhar a fofoca pela escola inteira, chamando-a de "pervertida".

A jovem disse que foi algo profundamente doloroso. Mesmo assim, ela disse que não teria problemas em compartilhar sua senha com seu novo namorado.

"Sei que isto pode soar estranho , mas temos uma relação diferente", disse ela. "Não estamos mais na sétima série. Confio nele de uma maneira diferente, acredito. "

A mãe de Emily, Patti, 48, uma psicóloga infantil, disse acreditar que sua filha seria mais prudente hoje em dia antes de compartilhar sua senha. Mas ela acredita que a motivação é a mesma que os jovens sentem quanto a ter relações sexuais: seus pais não querem que o façam.

"O que me preocupa é que não fizemos um trabalho muito bom em fazer com que as crianças não tenham relações sexuais", disse Patti. "Então, não tenho muita certeza sobre quanto podemos mudar este comportamento."

Por Matt Richtel

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