MOSCOU ¿ O acordo entre a Rússia e a Ucrânia, intermediado pela União Européia, para retomar o envio de gás para o continente pareceu ter ido por água abaixo na noite deste domingo, 11, menos de um dia depois de ter sido assinado, porque Moscou teve objeções ao fato de que a Ucrânia se comprometeu ao acordo depois que a Rússia já o havia assinado.

No que parecia ser o primeiro passo em direção a uma solução pela disputa que acabou por cortar cerca de um quinto do gás natural usado na Europa, no pico da temporada de inverno, os governos da Rússia e da Ucrânia e a União Européia concordaram em estabelecer monitores independentes para os oleodutos que carregam o gás russo para o ocidente.

O protocolo era uma pré-condição colocada pelos oficiais de energia da Rússia para retomar a transferência de gás novamente. A Rússia fechou as válvulas na terça-feira, 6, depois do aumento da tensão em uma disputa com a Ucrânia pelo preço do gás e por acusações de roubo de gás de oleodutos de exportação.

Em uma confusão diplomática de idas e vindas, durante o fim de semana, o primeiro-ministro da República Tcheca, Mirek Topolanek, conseguiu a assinatura do primeiro-ministro da Rússia, Vladimir V. Putin, em Moscou e então voou para Kiev, onde a primeira-ministra da Ucrânia, Iúlia V. Timochenko, também assinou o acordo.

Desacordo

Ainda na noite deste domingo, 11, o acordo, ora feito, ora desfeito, pareceu ter sido cancelado novamente. O presidente russo, Dmitry A. Medvedev, foi mencionado pelas agências de notícias russas dizendo que ele não honraria o pacto.

O debate era sobre uma frase escrita à mão por Timochenko ao lado de sua assinatura na manhã deste domingo, depois que o documento já havia sido assinado por Putin. Em inglês, ela escreveu, com declaração atada.

A declaração de Timochenko, uma cópia do que foi obtido pelo The New York Times, disse que a Ucrânia não é culpada por roubar gás dos oleodutos de exportação, um relato que pedia essencialmente a Moscou para que recuasse na alegação que servia de base para sua justificativa em ter interrompido a exportação de gás para a Europa.

Declaração polêmica

No começo desta segunda-feira, as possibilidades de acordo foram marcadas por confusão e incerteza.

A Bloomberg News informou que um oficial da União Européia disse que a Ucrânia concordou em assinar uma nova versão do acordo para autorizar o monitoramento dos oleodutos, pavimentando o caminho para retomar o carregamento de gás. A notícia dizia que o novo acordo veio após um telefonema entre Putin e o presidente a Comissão Européia, Manuel Barroso, e que seria separado da declaração de Timochenko.

Barroso falou com Timochenko, e eles concordaram em separar os dois documentos, disse Ferran Tarradellas Espuny, porta-voz da comissão, em Brussels, de acordo com a informação. De um lado a declaração e do outro os termos de referência.

A declaração de da primeira-ministra também pedia que a Rússia, se quisesse exportar gás para a Europa via Ucrânia, providenciasse combustível para operar as estações de bombeamento ao longo da rota do oleoduto. A Rússia se recusou a fazê-lo, dizendo que é obrigação da Ucrânia uma vez que o país é responsável pelo trânsito.

Rússia

As autoridades russas rapidamente disseram que isso acabou com a validade do acordo.

Medvedev culpou a Ucrânia por quebrar o acordo e criticou com severidade o anexo colocado pela Ucrânia.

Eu instruo o governo a não usar o documento que foi assinado ontem, disse.

Essas cláusulas e anexos são gozações de senso comum e uma ofensa contra os acordos que foram alcançados antes, disse Medvedev em comentários publicados pela agência de notícias Interfax. Essas ações estão procurando destruir a existência de acordos no controle sobre o trânsito de gás, eles têm uma natureza provocativa e destrutiva.

Em um telefonema com Barroso, neste domingo, 11, Putin disse que a Rússia não iria aceitar condições acrescentadas após sua assinatura, informou a Interfax.

Acalmando as tensões

Tentando acalmar as preocupações da Rússia, Topolanek chamou Putin para dizer que a declaração de Timochenko não era obrigatória. Mais tarde no domingo, Barroso disse que a primeira-ministra concordou em dirigir à Rússia os problemas sobre seu relato com o objetivo de retomar o carregamento de gás para a Europa, informou a Reuters.

Um porta-voz da Gazprom, monopólio do gás russo, disse que o executivo-chefe da companhia, Alexei B. Miller, voaria até Brussels nesta segunda-feira para continuar as negociações.

Pelo menos por uma vez, o acordo está feito, talvez seja dias antes de um alívio para os países europeus abaixo da linha da Ucrânia, especialmente a Polônia e da Bulgária, que tem sofrido muito sem combustível de aquecimento no clima de inverno rigoroso.

Problema europeu

Se a Rússia retomasse imediatamente a corrente de gás, demoraria três dias para pressurizar novamente o sistema de oleoduto de gás natural europeu e retomar o serviço completo, disseram especialistas. E a disputa por causa dos preços ainda não foi solucionada.

As autoridades russas mantiveram que o relato de que a Ucrânia retira quantidades de gás natural russo que deveria ser exportado para a Europa para usar em sua demanda interna desde que a Rússia interrompeu a entrega de suprimento pra Ucrânia em 1º de janeiro, por causa de uma disputa de preços.


Por ANDREW E. KRAMER

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