Aconselhamento financeiro cresce nos Estados Unidos

A estrela da música country Wynonna Judd ¿ganhou na loteria¿ aos 17 anos, contou ela. Mas depois de juntar uma fortuna durante a carreira, ela gastou boa parte da quantia, dando dinheiro aos filhos por se sentir culpada por perder partidas de hockey, e comprando mais carros do que poderia dirigir. Wynonna Judd teve uma infância pobre em Appalachia e depois se encontrou com ¿tudo e nada¿ ao mesmo tempo, segundo ela mesma diz.

The New York Times |

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Amy Sprague Champeau foi destituída depois de um de divórcio, e sem educação universitária ou oportunidades de emprego, foi morar dentro de seu carro. Quando ela finalmente alugou um quarto, sua única mobília era um pedaço de espuma para colocar sobre a cama. Logo depois de começar a ganhar algum dinheiro, ela rapidamente começou a usar os cartões de crédito e ficou cheia de preocupações.

As duas mulheres, uma celebridade global e uma divorciada de Wisconsin tentando escalar pilhas de contas a pagar, procuraram ajuda no próspero campo da terapia financeira, onde o planejamento orçamentário encontra o aconselhamento psicológico. Elas até foram para uma espécie de um centro de reabilitação financeira, onde durante seis dias de terapia em grupo chegaram à raiz do que os psicólogos chamam de distúrbios financeiros, o excesso de hábitos prejudiciais à saúde e autodestrutivos que não são tão extremos como o vício em apostas, cleptomania ou consumo compulsivo, mas que aflige um grande número de pessoas.     

Apesar da dificuldade em detalhar o número de pacientes e médicos, especialistas em psicologia e planejamento financeiro dizem que o número de profissionais oferecendo tratamento para distúrbios financeiros multiplicou nos últimos anos.

Dinheiro e emoção

Ainda que existam diversos livros de autoajuda sobre como ficar rico, os campos da psicologia e do planejamento financeiro tem sido vagaroso em relacionar dinheiro à emoção. E dinheiro ainda é um grande tabu cultural que raramente é discutido abertamente nos Estados Unidos, dizem especialistas.  

Eu ainda estou trabalhando nos meus assuntos financeiros e isso vai levar um bom tempo, disse Champeau, 57, que frequentou a escola no período da noite e se tornou psicoterapeuta, o que permitiu que ela ganhasse a vida. Mas seu medo das dívidas ainda é um problema. Eu sempre me senti sozinha e tinha muita vergonha do dinheiro, disse.

Entre as pessoas com problemas financeiros, os psicólogos identificaram nos últimos anos alguns comportamentos típicos: gastar demais, gastar de menos, empréstimos seqüenciais, infidelidade financeira (traindo o companheiro ao mentir sobre seus gastos), trabalhar demais, incesto financeiro (controlando o dinheiro de parentes para controlá-los), doações (ao doar grande quantidade de dinheiro, dizem os especialistas, elas se comportam como crianças adultas que não estão motivadas a se sustentarem), acumulação e sentimento de culpa ou vergonha diante da pobreza ou da riqueza.

Crise em Waal Street

A tempestade turbulenta em Wall Street provavelmente irá forçar muitas pessoas a examinar suas relações com o dinheiro muito além das conquistas e das contas no banco, dizem alguns psicólogos. Mesmo antes das notícias horríveis desse mês, uma pesquisa online feita em junho pela Associação Americana de Psicologia descobriu que 75% dos mais de 2.500 adultos disseram que o dinheiro era a preocupação nº1 de suas vidas.

Esse é um período perigoso, disse Brad Klontz, psicólogo financeiro que é um dos autores de um estudo publicado esse mês no jornal Psychological Services que examina o estado e o tratamento de distúrbios financeiros. E quando as pessoas vêm em busca de ajuda com o dinheiro, o problema é muito mais profundo que contas bancárias. É um portal de problemas familiares não resolvidos e padrões históricos de gerações.

O estudo de Klontz analisou vários distúrbios financeiros e um centro de tratamento, o Onsite, em Nashville, que até recentemente era propriedade de seu pai, Ted Klontz, psicólogo e guru que ainda lidera o programa de cura de problemas financeiros do centro, juntamente com um conselheiro financeiro.

Segundo o código de ética profissional da Associação Americana de Psicologia, o terapeuta não deve se relacionar com o cliente fora do consultório, e isso inclui arranjos financeiros como planejamento orçamentário. Como o campo da terapia financeira é muito novo, Brad Klontz e outros especialistas dizem que quando o conselheiro financeiro é também terapeuta, então o código ético é preservado.

Onsite é um dos inúmeros programas e workshops empenhados em resolver comportamentos financeiros que não são classificados como distúrbios psiquiátricos como vício em apostas e consumo compulsivo (que são tratados com técnicas tradicionais de reabilitação). O programa custa US$2.650 e inclui seis dias de terapia em grupo e aconselhamento financeiro.

Tanto Judd, que participou do programa quando ele foi inaugurado em 2004, quanto Champeau, que esteve na clínica em julho, disseram que conseguiram transformar seus comportamentos destrutivos. Se eu consegui, todo mundo consegue, disse Judd em entrevista. Eu estou em absoluta recuperação econômica. Eu só vivo de dinheiro, mas dinheiro planejado. Eu vou às compras com o dinheiro no envelope.

Eu vendi todos os carros e só fiquei com os que realmente usamos, adicionou. Ao invés de cinco Harleys, eu tenho duas.

Champeau, que vive em Racina, disse que desde que participou do programa contratou um conselheiro financeiro que tem mestrado em aconselhamento. Ela está se especializando em problemas financeiros em seu próprio consultório de psicoterapia e está conversando com especialistas para se associarem.

Dinheiro e felicidade

Em tempos de economia estagnada e com os consumidores temendo o desemprego e as aposentadorias, é fácil imaginar que se tornar rico ou receber uma aposentadoria inesperada é o remédio para todos os males, e que todas as pessoas que têm dinheiro estão se sentindo seguras e calmas. Mas pessoas preocupadas com problemas financeiros não são pessoas pobres. Pesquisas mostram um nível significativo de depressão entre ganhadores da loteria, por exemplo. Outra pesquisa mostrou que em lares com rendimento de US$ 50 mil, há uma pequena ou nenhuma correlação entre dinheiro e felicidade.

Uma mulher de 35 anos em Los Angeles disse que depois de herdar quase US$500 mil há cinco anos, ela frequentemente entra em pânico e sofre de insônia. Ela contou que tinha vergonha de ter tanto dinheiro. Com a herança, ela abriu uma empresa, mas sentia que estava comprando - e não conquistando - uma carreira. Ela gastou três quartos do dinheiro e percebeu mais tarde que essa era uma tentativa de se livrar dele porque sentia que não merecia aquela quantidade.

Eu sentia vergonha que as pessoas ao meu redor pensassem que eu tinha sucesso sem ter conquistá-lo, contou a mulher, que pediu que seu nome não fosse revelado para que sua família não soubesse que ela estava falando sobre seus problemas financeiros. Todo mundo quer uma herança inesperada e eu passei por essa experiência. O que tenho a dizer: você paga por isso. Eu não paguei com dinheiro, mas paguei com muitos anos da minha vida.

Ela disse que contratou um conselheiro financeiro que foi treinado para ser terapeuta ¿ mas os serviços são apenas de aconselhamento financeiro.

Conselheiros financeiros, incluindo Rick Kahler, que se associou a Ted Klontz para oferecer serviços de aconselhamento e terapia a seus clientes, disse que a combinação das duas áreas é altamente eficaz. Eu nunca vi clientes progredirem de maneira tão rápida do que quando um cliente trabalha comigo e com um psicólogo, de preferência nos mesmos encontros, disse.

Mas muitos conselheiros entrevistados disseram que não necessitam de um terapeuta trabalhando com eles. Contaram que em seus encontros com clientes geralmente escutam problemas com contas, família e casamento, e depois de anos de relacionamento profissional, eles oferecem conselhos pessoais de maneira informal. Eu realmente acredito que você pode encaminhar um cliente para outros profissionais caso haja necessidade, disse Morris Armstrong, conselheiro financeiro em Danburry, Connecticut.

Por SARAH KERSHAW

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