Aceno de Khamenei à presidência revela disputa interna no Irã

Líder supremo do Irã fala sobre eliminação do cargo de presidente, na mais recente alfinetada em Ahmadinejad

The New York Times |

Uma proposta inusitada do líder supremo do Irã para eliminar o cargo de presidente ressalta uma luta cada vez mais acirrada dentro da elite política do país, conforme ele e seus aliados continuam a tentar minar os poderes do ambicioso presidente Mahmoud Ahmadinejad.

O líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, disse em um encontro acadêmico na semana passada que não seria um problema "transformar o Irã em um sistema parlamentar" no qual os eleitores não elegeriam um presidente. Suas palavras foram amplamente vistas como o mais recente golpe em uma batalha que começou em abril, quando Ahmadinejad passou dos limites brigando abertamente com Khamenei – que tem a palavra final nos assuntos de Estado – sobre as nomeações do gabinete.

AFP
O líder supremo do Irã, aiatolá Khamenei (18/08)

Alguns analistas veem a luta pelo poder como um legado da eleição presidencial disputada em 2009, quando acusações de fraude – e meses de protestos nas ruas – aprofundaram disputas e reduziram o apoio do líder supremo entre o público e a elite política. Ahmadinejad teve o apoio do líder supremo tanto nas eleições de 2009 quanto de 2005, e os dois homens são vistos há muito tempo como almas gêmeas ideológicas. Mas o presidente tem tentado construir uma base de poder independente e muitos conservadores se sentem ameaçados por sua visão de um Irã menos dominado por clérigos.

O ataque velado de Khamenei à presidência atraiu respostas polarizadas. Ali Larijani, o presidente do Parlamento e rival de Ahmadinejad, endossou os comentários e apelou por um sistema parlamentar. O ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, que já entrou em brigas com o líder supremo, advertiu na terça-feira que eliminar a presidência seria "contrário à Constituição e enfraqueceria o poder de escolha do povo", de acordo com o jornal centrista Aftab.

Outros partidários foram mais longe. O jornal diário Irã, que é pró-Ahmadinejad, pareceu zombar dos comentários do líder supremo em um artigo que logo foi retirado do site do jornal.

"As disputas no Irã são muito mais graves agora", disse Seyed Mojtaba Vahedi, ex-editor do Aftab-e Yazd, um influente jornal reformista. "O líder supremo há muito tempo quer mais controle sobre a presidência, mas nunca esperava ter esses problemas com Ahmadinejad.”

Eliminar a presidência aumentaria o poder de Khamenei (que chegou ao poder de maneira vitalícia em 1989), deixando-o com uma instituição para controlar em vez de duas, disse Vahedi. Sob o sistema parlamentar que Khamenei esboçou, os legisladores elegeriam um primeiro-ministro entre si.

O líder supremo pode não querer arriscar mais tumulto e confronto ao eliminar a presidência enquanto Ahmadinejad está no poder, disseram alguns analistas, e é até possível que seus comentários tenham sido apenas uma troca de farpas retórica que visa domesticar o presidente, e não uma proposta séria.

Mas outros analistas disseram ver a eliminação da presidência como uma possibilidade para 2013, quando deveria acontecer a próxima eleição presidencial, ou logo depois.

"Uma das razões pelas quais eles podem decidir eliminar o sistema presidencialista é precisamente para evitar uma nova eleição presidencial e todas as incertezas políticas e oportunidades para agitação popular que vêm com ela", disse Karim Sadjadpour, analista do Carnegie Endowment for International Peace em Washington.

De qualquer maneira, disse Sadjadpour, parece claro que Khamenei vai tentar garantir que o próximo presidente ou primeiro-ministro seja um subordinado fraco e confiável, que ele possa controlar facilmente. Todos os três presidentes eleitos no Irã desde 1989 – Rafsanjani, Mohammad Khatami e Ahmadinejad – tiveram suas próprias agendas e ambições, e todos se tornaram espinhos para o líder supremo em graus variados.

Em certo sentido, as tensões atuais podem ser atribuídas a 1989, quando a Constituição do Irã foi modificada para criar uma presidência forte como um contrapeso para o líder supremo. O último presidente antes dessas mudanças foi Khamenei, e o primeiro-ministro, cuja posição foi abolida na época, era Mir Hussein Mousavi – o líder da oposição, que alegou que a presidência foi roubada dele em 2009.

Uma medida da luta entre Ahmadinejad e Khamenei é o escândalo bancário que acontece no Irã. As autoridades detiveram dezenas de pessoas no que chamaram de um amplo esquema de desvio de US$ 2,6 bilhões e os adversários de Ahmadinejad têm repetidamente acusado seus colaboradores mais próximos – incluindo seu chefe de gabinete, Esfandiar Rahim Mashaei – de estarem ligados ao principal suspeito.

A corrupção é desenfreada no Irã e, segundo analistas, o líder supremo e sua equipe provavelmente sabiam há muito tempo (e possivelmente lucraram) com tal movimentação. "Estão revelando isso agora simplesmente para atacar Ahmadinejad e seus aliados", disse Vahedi.

O escândalo bancário parece pelo menos em parte um esforço para minar a campanha de Ahmadinejad e seus aliados, que esperam manter o seu poder para eleger candidatos nas eleições de 2012 e parlamentares na corrida presidencial de 2013, disseram analistas.

O maior conflito é em grande parte sobre o poder, mas também há um componente ideológico. Apesar de intensamente devoto, Ahmadinejad é cético quanto ao clero tradicional do Irã e disse que os muçulmanos não precisam da intercessão de clérigos para entrar em contato com o Imã Oculto, uma figura messiânica no islamismo xiita. Conservadores têm desprezado o círculo de influência do presidente – muitas vezes destacando Mashaei – como uma "corrente desviada".

O atrito tem polarizado a elite política e parece minar o papel tradicional do líder supremo como distribuidor do poder, dizem analistas. Embora Khamenei tenha esmagado os reformistas e o movimento de oposição que levou a protestos de rua maciços em 2009, aquela crise rompeu seu relacionamento com os membros da velha guarda dos fundadores da República Islâmica, principalmente Rafsanjani.

"A máquina do governo está cada vez mais destruída", disse Ray Takeyh, um membro sênior do Conselho de Relações Exteriores. "Khamenei perdeu a velha guarda, a economia está em colapso e agora ele está cada vez mais isolado internacionalmente. Será que ele pode sobreviver? Isso nós ainda veremos".

Por Robert F. Worth

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