Ação de clérigo radical pode determinar futuro do Iraque

Influente entre militantes, Moktada al-Sadr pode optar por apoio a movimento que amplia papel do Islã na sociedade

The New York Times |

Em uma sala de aula em Sadr City, o movimentado bairro pobre xiita de Bagdá, dezenas de homens de camisa branca e calça preta recebiam a mais básica instrução religiosa islâmica: como se lavar antes das orações.

"Depois de lavar a mão esquerda, você deve evitar que qualquer gota d’água caia sobre a mão direita", declarou o instrutor.

Os homens, ex-membros do Exército Mahdi, a milícia do clérigo radical xiita Muqtada al-Sadr, lutaram contra os americanos nos primeiros anos da ocupação e dizem que fariam isso novamente caso Al-Sadr desse a ordem. Mas, por enquanto, eles passaram a travar uma batalha diferente no Mumahidoon, o sucessor do Exército Mahdi, que, além de oferecer aulas sobre o Alcorão a seus membros, organiza times de futebol, faz a circuncisão em bebês de famílias pobres, coleta o lixo após as peregrinações religiosas e ensina conhecimentos de informática.

Às vésperas da provável retirada completa das forças americanas do Iraque, uma das grandes dúvidas é o que Al-Sadr vai fazer. O Mumahidoon é um caminho possível.

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Integrantes do Mumahidoon assistem aula sobre o Alcorão em Sadr City, bairro de Bagdá, no Iraque (06/07)

Criado depois que Al-Sadr dissolveu o Exército Mahdi, em 2008, o Mumahidoon é um movimento islâmico menos conhecido. Como o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza e na Cisjordânia, usou seus braços político, militar e social – com o apoio financeiro do Irã – para reunir uma subclasse xiita e criar para si mesmo um papel proeminente na vida pública.

Mas Al-Sadr também parece estar experimentando vários outros papéis, incluindo o de provocador e de resistente à influência dos Estados Unidos. A direção que ele tomar irá determinar em grande parte o futuro imediato do país, conforme a presença militar americana diminui.

Al-Sadr talvez seja a figura pública mais importante que surgiu no país após a guerra dos Estados Unidos, e sua influência tem evoluído: de lutador de rua a figura religiosa exilada a político em retorno triunfal após as eleições parlamentares do ano passado.

"Há uma crença geral de que Al-Sadr está tentando descobrir qual será seu próximo passo e onde sua organização se encaixa no futuro do Iraque", disse o coronel Douglas Crissman, comandante do Exército dos Estados Unidos, que acompanha de perto as atividades de Al-Sadr e tem notado menos mensagens antiamericanas dos postos Sadristas no sul do país.

A maioria acredita que o objetivo maior de Al-Sadr é criar um Estado dentro do Estado – como o Hezbollah – até que possa tomar o poder no Iraque.

"Há definitivamente o desejo de ser a versão iraquiana e direcionar seu movimento a atuar da mesma maneira que o Hezbollah faz no Líbano", disse Marisa Cochrane Sullivan, vice-diretora do Instituto para o Estudo da Guerra, que tem sede em Washington.

Líderes Sadristas reconhecem a comparação com o Hezbollah, mas enfatizam as raízes locais de seu movimento.

"Há semelhanças porque somos xiitas e resistimos", disse Munhaned al-Gharawi, um oficial sadrista em Bagdá. Mas "nós sempre dizemos que o Hezbollah é diferente. Muqtada al-Sadr é um homem iraquiano que assume a fatwa de seu pai e todos sabem disso". O pai de Al-Sadr foi o grande aiatolá Muhammad Sadiq al-Sadr, líder xiita religioso assassinado por homens de Saddam Hussein em 1999.

As atividades do Mumahidoon na capital foram recentemente suspensas depois que uma disputa de propriedade entre facções rivais resultou na queima de casas em Bagdá.

Esse episódio, combinado com vários recentes comunicados contraditórios de Al-Sadr, sugerem um grau considerável de conflitos internos. Mas ninguém duvida da influência potencial do grupo ou mesmo do próprio Al-Sadr.

Embora seja imprevisível, Al-Sadr exerce um poder significativo através do governador da província de Maysan e seu bloco político no Parlamento, que faz parte da coalizão governista. Menos de um ano atrás, Al-Sadr ajudou a estabelecer o atual governo quando decidiu apoiar um segundo mandato do primeiro-ministro Nouri al-Maliki. Esse apoio ajudou a acabar com mais de oito meses de impasse após as eleições parlamentares do ano passado, e deu o controle de alguns ministérios-chave a sadristas.

A oposição de Al-Sadr à presença de tropas americanas e suas ameaças de violência caso permaneçam no país além deste ano têm mantido essa questão instável, faltando pouco mais de três meses até que todas as forças dos Estados Unidos deixem o país. Mas ele passa uma mensagem dúbia.

Comunicando-se principalmente por éditos emitidos de Qom, no Irã, onde passa a maior parte do tempo estudando religião, Al-Sadr havia passado ordens permanentes para sua milícia, a Brigada do Dia Prometido, para que resistisse violentamente à ocupação americana. Eles fizeram isso matando vários soldados americanos no sul do Iraque até que ele pediu a suspensão de tais ataques. Ele disse que irá retomar o Exército Mahdi caso tropas americanas permaneçam no Iraque, depois disse que não.

E em um país onde poucos políticos atuam na base da população, Al-Sadr ainda tem uma influência significativa sobre os iraquianos. Sua decisão em fevereiro de impedir que seus seguidores participassem de protestos contra o governo neutralizou a raiva crescente contra a corrupção, os serviços de má qualidade e a falta de oportunidades de emprego, protegendo Al-Maliki de uma revolta da Primavera Árabe.

Mas nas últimas semanas Al-Sadr também exigiu empregos, melhores serviços e uma maior fatia da riqueza do petróleo do governo de Al-Maliki.

Depois das orações na sexta-feira em vários locais dominados por Al-Sadr em Bagdá e nas cidades de Najaf e Basra, seus seguidores se uniram contra o governo carregando eletrodomésticos quebrados para simbolizar a falta de eletricidade.

A perspectiva de Al-Sadr encorajar seus seguidores a tomarem as ruas é profundamente preocupante para Al-Maliki, segundo um diplomata ocidental.

Os homens do Mumahidoon - uma palavra árabe que significa "preparar o caminho" - dizem que são pacíficos e estão tentando combater o que descrevem como crescente sentimento anti-islâmico no Ocidente.

Um integrante, Abdella Amir, disse que o objetivo era "dar uma visão diferente daquela segundo a qual o Islã é apenas a violência." Mas alguns membros também disseram a repórteres que pegariam em armas novamente contra os americanos caso Al-Sadr dê a ordem.

"Com todo respeito ao povo da América, eles são apenas pessoas", disse outro membro, Sheik Farhan al-Husayni, um engenheiro. "Seus líderes, seu governo e suas tropas são contra os países, especialmente no mundo islâmico."

A invasão dos Estados Unidos inverteu a velha ordem de dominação sunita e permitiu a emancipação política da maioria xiita e os movimento de Al-Sadr. Mas nunca os sadristas viram os americanos como os seus benfeitores e eles dizem que vão se opor a qualquer presença de americanas para além deste ano, não importa quão pequena.

"Nós nunca confiamos na América", disse Al-Husayni. "Enquanto a América tratar as pessoas desta maneira e tentar controlar os destinos dos países, não poderemos viver com eles em amizade."

Por Tim Arango

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