Abusos de policiais americanos caem na rede e refletem preconceito

No Facebook, grupo de pessoas que se identificavam como agentes de Nova York foi ofensivo contra evento indiano

The New York Times |

Eles chamaram as pessoas de "animais" e "selvagens". Um chegou a comentar: "jogue uma bomba para acabar com todos eles". Ver agentes da polícia de Nova York falar mal das pessoas as quais deveriam proteger aberta e publicamente é algo raro, especialmente quando seus nomes estão visíveis. Mas durante alguns dias em setembro, uma conversa entre policiais foi postada no Facebook para o mundo ver - até que ela desapareceu por razões desconhecidas.

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Policiais de Nova York trabalham durante West Indian American Day Parade

Tratava-se de um retrato bem íntimo dos policiais, exibindo explicitamente pensamentos que muitas vezes são escondidos do público, segundo uma cópia deste conteúdo obtida pelo The New York Times . Algumas das observações pareciam ir contra as regras do Departamento de Polícia, que impedem os policiais de serem "descorteses ou de fazer comentários desrespeitosos" sobre a raça ou a etnia das pessoas.

O tema era a aversão dos oficiais a trabalhar na Parada do Dia da Índia Ocidental no Brooklyn, um evento anual que acontece no fim de semana do Dia do Trabalho e que tem uma longa história de violência, inclusive mortes entre os frequentadores. Aqueles que postaram os comentários pareciam seguir a política do Facebook que exige a criação de contas com o uso de nomes reais e que alguns se identificaram como policiais.

Paul J. Browne, o vice-comissário do Departamento de Polícia, disse que ficou sabendo do grupo do Facebook a partir de uma dica de um repórter e que iria levar a questão para a ouvidoria da polícia.

Os comentários, no grupo online que em poucos dias chegou a quase 1,2 mil membros, foram, por vezes, tão ofensivos na maneira com qual se referiam a indianos e afro-americanos que alguns participantes advertiram os demais para terem cuidado pois as suas palavras proferidas em um ambiente público poderiam chegar à ouvidoria.

Mas alguns daqueles que postaram comentários pareciam encorajadoas pela atmosfera do Facebook. "Deixem-os matar uns aos outros", escreveu um dos membros que postou comentários com o nome de um dos policiais.

"Escória", escreveu outro, identificado como Nick Virgilio, cujo nome também corresponde ao de um policial. "Não é racista se é verdade", escreveu outro.

Os policiais foram muitas vezes estimulados por civis que apoiavam tal atitude e outros servidores públicos da cidade, incluindo membros do Corpo de Bombeiros, conforme indicou uma análise.

É impossível dizer com certeza se os citados são as pessoas que afirmam ser. Mas uma comparação feita pelo jornal The New York Times dos nomes dos alguns dos mais de 150 individuos que postaram comentários na página com listagens de servidores públicos da cidade mostrou que mais de 60% corresponderam aos nomes de policiais e Browne não negou que eles eram mesmo policiais.

Não é possível determinar a composição étnica dos oficiais que postaram os comentários, mas pelo menos um dos participantes disse que a maioria deles não parecia fazer parte das minorias.

Esforços foram feitos para contatar alguns dos individuos que participaram, através do promotor que entrou com um caso judicial que revelou a existência do grupo, através de mensagens no Facebook e através de outros métodos. Um deles, Nick Virgílio, disse ser membro do departamento, mas respondeu: "Eu não desejo comentar."

Os comentários feitos no grupo incluíam a demonstração de raiva de oficiais da polícia e servidores públicos da cidade e expressões de ansiedade sobre o policiamento de um evento perigoso. "Por que todo mundo está chamando isso de um desfile", questionou um dos participantes. "Isso mais parece com um motim programado."

Outro disse: "Nós estávamos em desvantagem. Era uma sensação estranha de saber que poderíamos ser atropelados pela multidão a qualquer momento."

"Bem-vindos à Nova York liberal", disse outro, "onde se a polícia espirrar muito alto nos investigam por exercer muita força, mas os ‘civis’ podem correr como selvagens que não há repercussão."

"Eles podem continuar com as horas extras forçadas", disse um dos comentaristas, acrescentando que a segurança dos policiais vem "antes da dos animais". Outro escreveu: "É uma chacina! "

"Eu opino para que façam o desfile mais um ano", escreveu um comentarista, que se identificou como Dan Rodney, "e quando todos se reunirem joguem uma bomba e acabem com todos eles".

Na segunda-feira, Rodney confirmou que ele é policial e que usa o Facebook, embora raramente, mas negou ter feito o comentário. "Não fui eu", disse ele antes de sugerir que alguém possa ter sido responsável. "Deixo meu telefone por aí algumas vezes. Mas fora isso, não posso dar nenhum comentário."

A página - embora visível a qualquer usuário do Facebook antes de ter desaparecido - parece não ter atraído nenhum público até a aparição de um processo criminal na Suprema Corte estadual do Brooklyn no mês passado, o julgamento por posse de arma de um trabalhador desempregado chamado Tyrone Johnson, que vive no local.

Seus advogados de defesa apresentaram muitos dos comentários controversos ao júri. Mas, quando isso também pareceu atrair pouca atenção mesmo fora do tribunal, os advogados, Benjamin Moore e Paul Lieberman da firma Brooklyn Defender Services, conseguiram fazer uma cópia digital da conversa e entregá-la ao The New York Times , dizendo que o papo provoca questões sobre as atitudes da polícia.

Enquanto se preparava para o julgamento, Moore verificou se o oficial que prendeu o seu cliente, o sargento Dustin Edwards, estava no Facebook. E de fato estava. Moore observou que o perfil de Edwards mostrou que ele pertencia a um grupo do Facebook para policiais "que foram ameaçados por superiores e forçados a serem vítimas da violência do massacre do desfile".

O grupo batizado de “No More West Indian Day Detail” (Pelo fim da escalação para o Dia da Índia Ocidental, em tradução literal), chamou a atenção de Moore porque Edwards havia prendido Johnson na madrugada das comemorações antes do desfile em 2010.

Moore disse que quando clicou no link - a página estava aberta ao público - e começou a ler uma conversa de 70 páginas, ficou chocado com a forma explícita forma com a qual os os integrantes se manifestavam. "Achei surpreendente", disse. Ele fez uma cópia digital. Quando voltou a acessar o grupo dois dias depois, ele havia desaparecido.

No julgamento, os advogados de defesa argumentaram que a arma que Edwards disse que havia encontrado perto de seu cliente não pertencia a Johnson. Johnson é negro e mora na região do desfile. A defesa sugeriu que Edwards poderia ter plantado a arma.

Edwards declarou que nunca publicou nenhum comentário no grupo sobre ser contra o desfile. Ele disse que sua participação no grupo não passava de uma tentativa de se relacionar com "um monte de gente da polícia que eu conheço."

Mas Moore questionou se Edwards havia concordado com os comentarios sobre "limpeza étnica". E sobre aquele que disse que o desfile deveria "mudar de local, para o zoológico?" E com o comentário sarcástico que disse que o desfile era um ótimo treinamento para operações no "gueto"?

"Eu não estou ciente de tais comentários", declarou o sargento. Ele concordou que os comentários foram ofensivos.

A promotora Lindsay Zuflacht argumentou que, sem os comentários de Edwards, não há "nada que indique que ele concorde com os comentários feitos no grupo." O sargento, no entanto, concordou com a declaração de que os policiais são forçados todo ano a tornar-se vítimas da violência do desfile.

Na segunda-feira, Jerry Schmetterer, um porta-voz do advogado do distrito de Brooklyn , disse que o escritório iria investigar quaisquer questões decorrentes do julgamento que se referem a ele pelo Departamento de Polícia.

No julgamento, o promotor leu ao júri um dos comentários que foram feitos no grupo do Facebook. "Por favor, vamos manter o foco", o comentário afirmava. "Esse não é um discurso retórico racista. Trata-se de nós, policiais".

No dia 21 de novembro, o júri absolveu Johnson.

Por William Glaberson

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