Abuso de meninas aumenta debate sobre aborto no Brasil

SÃO PAULO, Brasil - A sala de espera do Hospital Pérola Byington muitas vezes parece uma pequena creche. Jovens meninas brincam no gelado chão de azulejos ou balançam hiperativamente em cadeiras de plástico, enquanto suas mães observam atentamente o painel digital vermelho a espera de seu número na fila.

The New York Times |

Mas esta é uma clínica de saúde feminina especializada no tratamento de vítimas da violência sexual. Dos cerca de 15 destes casos que o hospital atende por dia, metade envolve crianças com menos de 12 anos.

Enquanto grande parte do Brasil se envolveu no caso de uma menina de nove anos que abortou gêmeos este mês depois de alegar ter sido estuprada por seu padrasto, sua história parece comum nesta clínica.

A história da menina de estupro e gravidez em idade tão precoce pegou o país despreparado, reavivando um intenso debate sobre os direitos reprodutivos em uma nação extremamente católica. Mas médicos, funcionários da saúde e outros especialistas dizem que seu caso é sintomático de um amplo problema de abuso sexual entre meninas novas (que há muito tem sido negligenciado e pode estar piorando).

"Infelizmente, isso se tornou mais e mais comum", disse Daniela Pedroso, psicóloga que trabalha aqui há 11 anos.

Aqui no hospital Pérola Byington, médicos disseram que os abortos são necessários para proteger a vida das vítimas de abuso sexual. Dos 47 abortos realizados no hospital no ano passado, 13 foram em meninas com menos de 18 anos, todas vítimas de estupro.

Em mais de 80% destes casos, pais ou padrastos são os responsáveis pelo abuso, dizem os médicos da clínica.

"Uma parte da sociedade brasileira ainda não quer parar de tratar a mulher como uma propriedade", disse Jefferson Drezett, ginecologista e coordenador do setor de vítimas de abuso sexual do hospital.  "Isso tem que mudar".

No começo deste mês uma mãe de 21 anos chegou ao hospital com sua filha de seis, que ela disse ter sido violentada pelo seu padrasto, que buscava colocar na prisão.

A mulher, que pediu anonimato, se sentou para uma entrevista em uma sala com pequenas cadeiras e bonecas que são usadas na avaliação psicológica das vítimas. Ela disse que viveu com ele até completar 14 anos, quando passou a se sentir desconfortável com seus avanços e pediu que sua mãe o deixasse.

Lutando com as lágrimas, ela disse ter medo que ele abuse de outras crianças que ainda moram lá, incluindo as filhas do filho dele que têm a mesma idade da filha dela.

"Nós não queremos acreditar no que aconteceu", ela disse. "Achamos que isso só acontece na televisão, que é conto de fadas. Mas a realidade é que pode acontecer em qualquer família e é muito difícil lidar com isso quando acontece".

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- ALEXEI BARRIONUEVO

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