Abu Ghraib revela sentimentos controversos sobre retirada americana

Apesar dos escândalos de tortura na prisão da cidade iraquiana, moradores se dividem ao falar sobre a saída das tropas dos EUA

The New York Times |

Recentemente, em seu dia de folga, Hussam Saad permaneceu em pé ao lado de uma barraca de venda de vegetais em frente à prisão onde diz que trabalha. "Ainda me lembro de guardar a prisão à noite e ouvir as vozes e os gritos, enquanto os prisioneiros estavam sendo torturadas", disse Saad, lembrando o momento em que os americanos estavam no comando em Abu Ghraib.

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Crianças passam pela prisão de Abu Ghraib, na cidade de mesmo nome, no Iraque

Mesmo assim, ele afirma, agora a situação por lá é pior. "Seria melhor se os americanos estivessem no comando da prisão."

É difícil verificar as alegações de Saad. O governo nega ter causado qualquer prejuízo aos detentos, embora o Departamento de Estado americano diga que os casos de tortura têm sido documentados em todo o país por investigadores do próprio governo iraquiano.

Mas como uma indicação do tipo de país que os EUA estão deixando para trás, os comentários de Saad foram marcantes. Dado o legado do escândalo da tortura na prisão, esse parece um lugar tão provável quanto qualquer outro para que a partida iminente das tropas dos EUA seja vista com alegria descarada.

A contradição reflete o quanto resta a ser feito para reinventar esse país etnicamente fraccionado em uma democracia em funcionamento. Esforços para trazer os sunitas para o governo liderado pelos xiitas têm sido em vão. Leis para a divisão dos preciosos dólares advindos do petróleo do país entre os grupos étnicos e tribos regionais não foram criadas até o momento. E quase dois anos após uma eleição nacional, os blocos políticos amargamente divididos do país não conseguem concordar sobre quem deve se responsabilizar pela Defesa e pelos ministérios do Interior.

A cidade de Abu Ghraib foi certa vez mais famosa por seu iogurte e queijo do que por sua prisão. Sob o regime de Saddam Hussein, ela era uma orgulhosa região tribal sunita. Hoje, seu povo parece temer tanto a Brigada do Exército local quanto os insurgentes.

Em relação à partida dos americanos, cujo escândalo manchou a comunidade, os moradores expressam a mesma ambivalência sentida por todo o Iraque – uma combinação de alegria pelo fim da ocupação após oito anos e medo do que pode vir a seguir. Em todo o país, o anúncio no mês passado de que as forças americanas irão se retirar no final do ano não levou a uma celebração generalizada – embora isso tenha acontecido em certa medida –, mas a uma introspecção silenciosa.

"É verdade, eles vão realmente partir?", perguntou Ali Sattar, dono de uma loja de material elétrico atrás da prisão que se queixou do assédio das forças de segurança locais. "O que o Exército iraquiano vai fazer quando eles deixarem o Iraque?", ele acrescentou. "É disso que estamos com medo."

Mesmo na casa de um ancião da aldeia, onde muitos dos homens da casa passaram os últimos anos trabalhando em instalações de detenção americanas em Abu Ghraib e em outras cidades, o fim iminente da guerra tem trazido os mesmos sentimentos ambíguos.

Um dos homens, Ahmed Ali Dawood, saudou o fim do papel militar dos EUA no Iraque, mas se preocupa com a capacidade dos iraquianos de superar sua própria raiva. Seus amigos e familiares, como em tantas outras comunidades, foram divididos entre aqueles que se juntaram à insurgência e aqueles que receberam e ajudaram os americanos. "Criou-se um ódio entre as pessoas", disse ele. "Você não pode dizer que as pessoas estão curadas disso ainda. Elas ainda não confiam no governo."

Dawood passou três meses na prisão de Abu Ghraib quando os americanos ainda eram responsáveis por ela, em 2006, por falsas acusações de terrorismo, segundo ele. "Eles me trataram como um animal", disse. Mais tarde, ele passou "três anos e um mês e 12 dias" em Camp Bucca, uma prisão americana no sul do Iraque, antes de ser libertado.

Para os EUA, o fim de seu papel militar é visto como o cumprimento de uma promessa que o presidente Barack Obama fez como candidato e a virada da página de um capítulo doloroso e caro na história recente – que muitos americanos já abandonaram de qualquer maneira.

Em Abu Ghraib, é diferente. A invasão dos EUA e suas consequências são apenas uma camada de um trauma muito mais profundo que começou décadas atrás e foi marcado pelo terror do Partido Baath e suas valas comuns, a devastadora guerra contra o Irã e as sanções internacionais da década de 1990, após a invasão do Kuwait. Tudo isso ainda ressoa. Em uma parede na casa de um ancião da aldeia está pendurado um retrato emoldurado de um parente em um uniforme militar. Ele era oficial do exército de Saddam, que desapareceu em 1985.

A história do país faz com que os iraquianos estejam ainda mais cautelosos sobre o que pode estar por vir. Sheik Ali Hamad, entre os homens que se reuniram na casa de um ancião da aldeia recentemente para discutir a partida das tropas dos EUA, quer que as forças americanas partam, mas está com raiva que os EUA não vão deixar um Estado mais estável para trás.

"Eles estão deixando o país nas mãos de políticos que são como adolescentes", disse. "Pode haver uma guerra sectária. Deixar as coisas inacabadas nas mãos desses políticos é um escândalo maior do que o de Abu Ghraib."

Na barraca de vegetais em frente à prisão, crianças se reuniram ao redor, felizes com a chance de conversar com um estrangeiro e mostrar livros didáticos em inglês impressos em Londres. Um comboio de veículos blindados dos EUA havia passado recentemente na estrada que conduz ao oeste, para a Jordânia e Síria, misturados no tráfego, um sinal de como muita coisa mudou.

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Torre de vigilância da prisão Abu Ghraib prison, que esteve sob o controle do governo iraquiano por anos, em Abu Ghraib, Iraque

As crianças, que conhecem apenas a guerra, riram enquanto seguravam seus rifles invisíveis e imitavam o som de tiros. Quando perguntadas sobre o que vão lembrar dos americanos, elas disseram palavras como "doce" e "tanques". Então, fugiram.

Saad, que estava por perto, se identificou como um funcionário da prisão por 11 anos, tendo começado no governo de Saddam. Hoje em dia, segundo ele, os funcionários da prisão separam os detentos de Anbar e Mosul – sunitas – e as maltratam, uma reversão das circunstâncias no antigo governo sunita.

Um oficial encarregado das prisões no Ministério da Justiça, o general Hamed al-Mousawi Hamadi, disse que não havia "nenhuma tortura, nenhuma opressão e nenhum sectarismo" dentro das instalações de detenção do Iraque. Ele disse que os prisioneiros recebem até mesmo cigarros e cobertores.

"Nós tentamos satisfazê-los com alimentos, roupas, médicos, água, eletricidade", disse. "Eles têm mais eletricidade do que o povo. Ela não acaba. Fazemos isso por várias razões. Por exemplo, para que eles não pensem em escapar".

Por Tim Arango

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