Abrigos nos Alpes suíços são reformados para proteger informação

Em Gstaad, bunker militar ganha nova função e passa a atuar como centro de computação e armazenamento de dados

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A montanha parecia estranha. De perto, sua fachada de pedra coberta por uma pintura de camuflagem desgastada, que não parecia ter sido retocada desde a Guerra Fria, revelava parte do segredo. O guarda também parecia fora do lugar: em pé de sentinela em seu uniforme preto sobre uma clareira calma, perto desta estação de esqui da Suíça mais conhecida por seus visitantes bilionários.

A estranheza apenas começava. O guarda apertou alguns botões e uma escotilha se abriu no meio da montanha. Dentro dela, no final de uma caverna estreita, havia uma segunda porta espessa que levava a outra porta, de aproximadamente três toneladas.

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Antigo bunker militar que funciona agora como centro de computação e armazenamento de dados, em Gstaad, na Suíça
"Se você colocar sua mão aqui poderá sentir uma corrente de ar", disse Christoph Oschwald, colocando a mão sobre uma fresta na escotilha fechada. “Por isso qualquer ataque com gás não é possível".

Oschwald fazia um tour do que chamou de Fort Knox suíço, um dos dois antigos abrigos militares nas entranhas dos Alpes que empresas geridas por ele e seu parceiro de negócios, Hanspeter Baumann, têm alugado do Exército local. Onde antes os militares se preparavam para defender seu país, Oschwald e Baumann hoje reivindicam operar alguns dos servidores mais seguros do mundo, protegendo os terabytes de indivíduos e corporações multinacionais.

Custo

Os militares bem que gostariam de encontrar mais inquilinos como Oschwald. A um custo de milhões de dólares por ano, essas instalações são formadas por um sistema de cerca de 26 mil abrigos e fortificações ao longo dos Alpes suíços que buscavam impedir qualquer ataque. Mas hoje, como um país neutro e sem ameaças imediatas às suas fronteiras, a Suíça está passando por uma prolongada análise de consciência sobre o papel dos seus militares, incluindo a necessidade do sistema de abrigos. No outono passado, o ministro da Defesa Ueli Maurer causou tumulto ao sugerir que era tempo de um "debate honesto" sobre o fechamento da maioria dos abrigos ou sua conversão para outros usos.

"Nossa posição é que, enquanto a Suíça estiver envolvida com o que acontece fora do país, está fora de questão enfraquecer nosso sistema de defesa", disse Ulrich Schluer, membro da comissão de segurança do Parlamento.

Isso pode parecer excêntrico, mas os abrigos e fortalezas ocupam um lugar especial na história da Suíça. O primeiro foi inaugurado em 1885 na estratégica Passagem St. Gotthard para desencorajar os exércitos invasores de utilizar a nova via ferroviária dos Alpes, afirmou Jürg Stussi-Lauterburg, um historiador suíço.

Na Segunda Guerra Mundial, com medo de uma invasão da Alemanha nazista, a Suíça desenvolveu a estratégia Reduit, ou reduto: forças suíças se fortaleciam nas montanhas e se reuniam sobre as duas ligações ferroviárias para o sul, que eram cruciais para os nazistas levarem carvão e aço aos seus aliados italianos. A mensagem era simples, disse Stussi-Lauterburg: "O dia em que nos atacarem, as linhas serão cortadas, então vocês terão de lutar por elas, e nós vamos defendê-las e, no final, destruí-los".

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Christoph Oschwald, cofundador do Fort Knox suíço, caminha pelo ex-bunker militar
O plano ajudou, ele acrescentou. Apesar de os nazistas terem elaborado planos de invasão da Suíça em 1940 e 1943, eles nunca agiram sobre eles.

Durante a Guerra Fria, os abrigos, que contêm de canhões antiaéreos a postos de comando, foram mantidos e modernizados, e ainda mais foram construídos, muitas vezes com um esforço extraordinário de dissimulação.

Hoje, um visitante mal pode fazer uma caminhada sem passar por uma porta curiosa em uma montanha, que se parece com a entrada de uma Batcaverna, ou um chalé falso. Mas os tempos mudaram.

"Eles são inúteis", disse Christian Catrina, chefe da política de segurança do Departamento de Defesa, Proteção Civil e Desporto. "Eles são inúteis e precisam de muito dinheiro para manutenção”.

Usos

Na verdade, o governo local tem analisado possíveis usos pra esses espaços. Hoje, antigos abrigos são usados para muitos fins, como casas, museus e até um hotel zero estrelas . "Nós preferíamos nos livrar deles", disse Catrina. "Mas isso é impossível devido à regulamentação ambiental. Você não pode simplesmente fechar a porta e jogar a chave fora".

Fechá-los é caro – cerca de US$ 1 bilhão, estima Catrina – o que ultrapassa de longe os milhões necessários anualmente para mantê-los.

Para muitos conservadores e muitos suíços mais velhos, os abrigos são um símbolo da determinação de seu país em permanecer neutro e independente. "As fortificações são psicologicamente muito importantes", disse Kurt Spillmann, especialista em política de segurança suíça no Instituto Federal Suíço de Tecnologia, em Zurique.

Nas montanhas de Gstaad, Oschwald, um garboso homem de 54 anos, ex-oficial da Força Aérea, mostrou o tipo de reciclagem do local que o ministro da Defesa poderia abraçar: um abrigo nuclear subterrâneo resistente a explosões no qual sua empresa investiu milhões para servir como uma fazenda de servidores. Tudo isso foi inaugurado em 1996.

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Militares suíços consideram dar novas funções a antigas instalações militares, como o bunker que hoje abriga o Fort Knox suíço
Sua empresa também aluga parte de um abrigo que, segundo ele, é completamente protegido de impulsos eletromagnéticos que podem destruir os servidores. Em outra sala, atrás de uma porta trancada, está o "genoma digital", uma espécie de pedra de Rosetta criada por vários acadêmicos europeus para que as gerações futuras sejam capazes de ler dados armazenados em formatos obsoletos, como disquetes.

E, claro, atrás de outras portas estão os servidores, piscando silenciosamente.

Um monte de zeros e uns merece a proteção de um abrigo? "A informação – os dados – é tudo hoje", respondeu Oschwald, e não apenas para as empresas.

Um bilionário casado mantém sua agenda eletrônica "negra" nos servidores do Fort Knox da Suíça, disse Oschwald. Se alguém viesse a colocar as mãos nessa informação, ele ressaltou, isso poderia custar-lhe milhões.

*Por Christopher Solomon

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