Abalados, afegãos relatam mortes de civis por americanos

Soldados americanos suspeitos de montar 'grupo sádico' amedrontam moradores de Kandahar

The New York Times |

Tudo é bastante difícil para o povo da província de Kandahar. Eles são cercados tanto pelo Talibã, que controla as estradas, cobra impostos e executa qualquer pessoa suspeita de deslealdade, quanto pelos militares dos Estados Unidos, que muitas vezes mostram pouca consideração com as pessoas e cujas exigências de que os moradores enfrentem os insurgentes parecem impossíveis.

Mas, mesmo com isso tudo, algo muito pior ainda estava por vir: soldados americanos suspeitos de montar um 'grupo sádico' liderado pelo sargento Calvin Gibbs.

Para Allah Dad, agricultor de papoula e mulá de uma aldeia de apenas 15 casas na província de Kandahar, o fim veio rapidamente. Ele estava tomando chá quando ouviu gritos e vários de seus filhos chegaram correndo para dizer que soldados dos Estados Unidos estavam chegando em tanques. Momentos depois, dois jovens soldados entraram e agarraram ele e sua esposa Mora.

"Em um minuto, ouvi tiros", ela disse. "Eu vi meu marido com a face para baixo e um negro americano ao lado dele. Outro soldado me empurrou. Eles me empurraram para dentro de casa e o intérprete me fez entrar em um dos quartos. Minutos depois ouvi uma explosão", lembrou Mora. "Corri para fora daquele quarto e da casa e o tradutor foi me dizendo para parar, mas eu não prestei atenção, e então eu vi que o meu estava queimando".

De acordo com documentos judiciais apresentados pelos militares, o mulá Dad, 45 anos, da aldeia Kalagi, foi a terceira vítima de soldados que mataram civis afegãos por nenhuma razão aparente.

Cinco dos soldados do pelotão foram indiciados em pelo menos três assassinatos, entre eles o do mulá Dad, e sete outros soldados foram acusados de crimes como assalto, uso de haxixe e tentativa impedir uma investigação.

Matança

Mora Dad descreveu como os soldados revistaram a casa da família, aparentemente tentando justificar a matança. "Eles rasgaram e quebraram tudo", ela disse. "Mas não encontraram uma única bala na minha casa".

Mais tarde, o pai de Mora, Abdullah Jan, e dois chefes tribais ouviram, incrédulos quando um agente de inteligência afegão do gabinete do governador relatou sua conversa com soldados dos Estados Unidos, ao entregar o corpo do mulá Dad.

"Ele me disse que os americanos alegaram que Allah Dad tinha uma granada e iria atacá-los e, em seguida, a granada explodiu e ele morreu", disse Jan. "Eu tentei explicar seu passado, que ele era um mulá na mesquita da aldeia, que não tinha ligação com o Talibã e nunca quis se envolver na guerra. Eles colocaram a granada debaixo do corpo dele", disse.

Uma hora depois, Jan disse, ele pegou o corpo do genro e ficou chocado ao descobrir que ele estava envolto em um saco plástico preto. "Ele foi tratado como lixo", disse.

Próximo dali, perto da aldeia de Karez, outro homem morreu da mesma maneira.

*Por Shah Taimoor e Alissa J. Rubin

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