A solidão do governador Schwarzenegger

Com baixa popularidade e sem apoio de republicanos ou democratas, governado da Califórnia deixa o cargo em janeiro de 2011

The New York Times |

Seu índice de aprovação não passou de 30% desde maio de 2009. A Califórnia mantém-se em profunda angústia fiscal. Ele é desprezado pelos trabalhadores do Estado (cujo salário cortou), pelos democratas (que detestam sua aversão aos novos impostos e seu desejo de cortar direitos) e pelos republicanos (que gostariam que essas respectivas aversões e desejos fossem mais fortes), bem como por estudantes universitários, pais da escola pública e pessoas que odeiam o cheiro de charutos.

Conforme o governador Schwarzenegger se prepara para deixar o cargo, em janeiro de 2011, a lição de seu esforço de sete anos pode ser esta: ser independente pode lhe conquistar muitas coisas - uma eleição, mesmo a reeleição e novas políticas. Mas isso não significa que as pessoas irão gostar de você.

Reuters
O governador da California Arnold Schwarzenegger participa de mesa redonda sobre a fronteira dos EUA com o México

Dito de outra forma, os independentes são para a política o que as dietas são para o ato de comer. Todo mundo ama o que prometem, mas depois odeiam com intensidade ter que viver com elas.

Suas inclinações de esquerda em questões como o meio ambiente e a saúde nunca foram suficientes para acalmar os liberais do Estado. Entre os conservadores, seus pontos de vista inclinados à direita sobre a reforma das pensões e o crime não compensaram os impostos que ele aumentou uma vez e os acordos que fez com os democratas.

Essa é uma experiência que outros que reivindicam a independência conhecem bem: o candidato Barack Obama, que ganhou elogios por ter prometido trabalhar com um espírito de compromisso, agora está tomando uma surra de ambos os partidos, o prefeito Michael R. Bloomberg de Nova York, que ganhou três eleições e inspirou raiva de todos os lados, John McCain, que fez seu nome como um político independente, mas nunca encontrou amor entre republicanos de seu próprio Estado e agora, diante de um desafio da extrema-direita, abandonou muitos de seus ideais.

Você realmente não tem como agradar a qualquer pessoa a maior parte do tempo. "Ao longo do caminho houve muitas pessoas desapontadas", disse Schwarzenegger ao tirar um charuto durante uma entrevista recente em seu gabinete em Santa Mônica. Algumas "que achavam que eu deveria ser mais conservador, algumas que achavam que eu deveria ser mais liberal. Algumas pessoas achavam que eu deveria ser mais divergente".

"Tudo o que você consegue, tudo que você faz, você acha que isso irá torná-lo mais popular", disse ele, mas descobre que não é assim. "Você dirige por Sacramento e as pessoas gritam com você da janela".

As realizações de Schwarzenegger - particularmente como um republicano num Estado cada vez mais democrata - têm sido significativas, amplamente bipartidárias e podem ter um impacto duradouro sobre o Estado.

Seu ataque mais notável é sobre o que ele vê como o mal central da política americana - a própria política. No mês passado, Schwarzenegger convenceu os eleitores da Califórnia a aprovarem primárias partidárias, na qual os dois candidatos mais votados, independentemente da sua filiação, se enfrentam em uma eleição geral. E em 2008, ele levou a cabo uma iniciativa que tira a criação de distritos legislativos das mãos dos legisladores. "Ele claramente deixará o cargo como o maior reformador político na história moderna da Califórnia", disse Jim Brulte, um republicano e ex-parlamentar, que nem sempre concordou com o governador.

Schwarzenegger abordou questões que têm atormentado os legisladores ao longo de décadas, como a conservação e o armazenamento do llimitado abastecimento de água do Estado, o controle dos custos da compensação dos trabalhadores e a correção do disfuncional sistema de prisões do Estado. Ele não corrigiu completamente estas questões, mas cada uma progrediu durante seu mandato.

Sistema carcerário

A mais interessante - embora menos sexy - das articulações políticas de Schwarzenegger foi a reforma da prisão.

Quando ele foi eleito pela primeira vez, o governador prometeu corrigir o sistema carcerário do Estado, que estava superlotado e caro, além de ter sistema de saúde tão ruim que foi colocado sob administração federal. O governador prometeu anular os contratos com os poderosos sindicatos dos agentes carcerários, reduzir custos e enfatizar os programas de reabilitação. Depois de batalhar com os sindicatos nos seus dois primeiros anos de mandato, ele conseguiu pouco.

Mas até o final de seu mandato, sob feroz oposição do sindicato dos agentes carcerários e a ameaça de um veto por republicanos e democratas, ele passou um grande plano de construção de prisões e duas alterações que reduzem a superlotação: movendo jovens infratores para instalações locais e colocando infratores não-violentos em liberdade condicional.

"Para a esquerda, ele foi capaz de manter jovens e infratores não-violentos fora das prisões", disse Joan Petersilia, professora de Direito na Universidade de Stanford, que presidiu vários painéis sobre as prisões, e para a direita ele nunca cedeu a três greves ou libertou delinquentes sexuais ou criminosos violentos. "Mas a maioria de suas realizações foi alcançada através de alguns compromissos - antiquados e não-partidários - e por alinhar-se de maneira inteligente com os mais fortes defensores de uma política, seja comprando seus oponente com um tratado político ou usando a força bruta política, muitas vezes deixando o tribunal julgar suas ações.

Trânsito entre os partidos

"Uma coisa interessante sobre Arnold como independente é que ele raramente se colocou entre os dois partidos", disse Bruce E. Cain, professor de ciência política na Universidade da Califórnia, em Berkeley. "Ele se colocou ao lado dos democratas, como na lei AB32" - iniciativa de gases causadores do efeito estufa que foi posteriormente imitada pela legislação federal - "ou dos republicanos sobre não criar novos impostos ou atacar os sindicatos do setor público, mas raramente ficou entre eles".

Esse estilo de governo nasceu amplamente de reações ao fracasso e à crise. Em 2005, o governador, ansioso e recém-chegado ao cargo, atacou os sindicatos de funcionários públicos com iniciativas que teriam limitado os gastos, dado amplos poderes orçamentários para o Executivo e tomado o poder de criação de distritos do Legislativo. Depois de uma dura campanha, os eleitores rejeitaram todas as suas medidas.

Depois, em 2006, tempo de reeleição, o governador rapidamente se alinhou com os democratas, impondo os controles mais rigorosos do país em matéria de emissões de dióxido de carbono, aumentando o salário mínimo em US$ 1 a hora e exigindo que Washington permitisse que os californianos importem medicamentos mais baratos do Canadá - ideias do partido da oposição.

No entanto, uma vez que foi reeleito, ele e os democratas voltaram a divergir em relação ao Orçamento e ele se viu sozinho novamente sobre os assuntos fiscais. Os republicanos zombavam dele por concordar com aumentos de impostos para fechar um rombo no déficit orçamentário. Agora, ele está lutando com os democratas a respeito do corte de salários e benefícios dos funcionários públicos.

Este governador sempre será relacionado a um dos ciclos de pior orçamento do Estado, incluindo o ano em que o Estado emitiu títulos de dívida para os credores pela segunda vez desde a Grande Depressão.

"Ele piorou o problema em alguns aspectos importantes", disse Jean M. Ross, diretora-executivo do Projeto do Orçamento da Califórnia. Ela citou o seu apoio para as restrições de capacidade dos governos locais em movimentar dinheiro e um grande pacote de dívidas que foi passado aos eleitores em um momento de angústia fiscal.

O que a vida pós-Sacramento significará para o Schwarzenegger ele não revela. Tampouco ele se comprometeu a tentar eleger um republicano para a Casa Branca ou Sacramento. "Eu não estou pensando em nada político neste momento", disse, "como faço para me unir aos republicanos contra Obama, como faço para ir contra Jerry Brown, ou coisa parecida. Eu quero trabalhar com ambas as partes".

Ainda assim, ele disse, o seu passado atlético o ensinou a buscar a próxima vitória. "Você olha para o meu bíceps e vê um bíceps de 20 polegadas e diz: 'Uau, olha o que o exercício fez'- e isso é o óbvio", disse. Mas é o que o treinamento faz dentro de você é mais significativo, ele explicou - "quanto mais duro você trabalha, mais você ganha, não há atalho, e cada vez que você fracassar, você só tem que se levantar e tentar novamente".

* Por Jennifer Steinhauer

    Leia tudo sobre: CalifórniaArnold Schwarzeneggerpolítica

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG