A quem pertence a estátua David de Michelangelo?

Disputa travada entre prefeitura de Florença e governo italiano diz respeito também a turismo, cultura, história e lucro

The New York Times |

Por 500 anos, o David de Michelangelo foi símbolo da independência e da virtude de Florença. Assim, quando um relatório encomendado pelo governo federal este mês afirmou que a Itália – e não a cidade – é dona da estátua, os ânimos locais esquentaram. A escultura, o prefeito Matteo Renzi retrucou, “sempre pertenceu e sempre pertencerá a Florença”.

“O David não é um guarda-chuva”, pelo qual podemos brigar, ele disse. “É um monumento no qual a cidade de Florença ainda vê a sua identidade”.

Orgulho cívico orgulho de lado, a disputa sobre o David também trouxe à tona uma questão cada vez mais levantada por muitos governos locais: Quem deve se beneficiar do patrimônio cultural da Itália? Em 2009, mais de 1 milhão de pessoas visitaram o David, que está em exposição na Galeria Accademia, o quarto local cultural mais visitado do país. As vendas de ingressos ultrapassaram US$ 7 milhões. O lucro foi para os cofres federais do Ministério da Cultura.

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Restauradora limpa estátua de David, finalizada por Michelangelo em 1504
A questão da propriedade – e outros pedidos de participação nos lucros do David – datam de administrações anteriores. Mas a virada veio no início deste ano, quando o Ministério da Cultura contratou advogados para examinar os documentos existentes e determinar o seu legítimo proprietário.

Histórico

Em um documento de nove páginas, os advogados concluíram que o David pertence ao país, o sucessor legal da República de Florença, que encomendou a estátua em 1501.

Finalizado em 1504, ele foi imediatamente saudado como uma obra-prima (Giorgio Vasari, pintor e arquiteto italiano do século 16, escreveu que “quem quer que tenha visto este trabalho não precisa ver outra obra executada em escultura, quer seja no nosso tempo ou em outros”) e colocado na frente do Palazzo della Signoria, o então – como agora – coração cívico da cidade.

A estátua permaneceu lá até 1873, quando foi transportada para a Accademia, que pertencia ao recém-criado Reino da Itália, antecessor da Itália moderna. (Uma cópia da estátua foi colocada na frente do Palazzo della Signoria, também conhecido como Palazzo Vecchio, no início do século 20.)

Uma base foi construída para o imenso trabalho e, em 1877, a cidade emprestou dinheiro do governo nacional para completar a estrutura. Na época, a cidade poderia ter avançado os seus direitos de propriedade, mas não o fez, lembraram os advogados no relatório. Portanto, eles disseram, a cidade não tem argumentos para uma reclamação agora.

Prefeito

Mas o prefeito tem seus próprios documentos na manga. Florença foi a capital do Reino da Itália entre 1865 e 1870, e o David, ele disse, foi parte de um pacote que o reino deu à cidade após a transferência da capital para Roma. A prova de propriedade, segundo ele, está em um documento do dia 09 de junho de 1871, que autoriza a transferência para a cidade de vários edifícios, incluindo o Palazzo Vecchio.

O relatório dos advogados, diz que não há nenhuma menção específica ao David em tais documentos, “embora nessa altura ele já tivesse assumido um valor enorme e simbólico”.

Em uma reviravolta estranha, as agências de notícias italianas também informaram que Simone Caffaz, presidente da Academia de Belas Artes de Carrara, de onde o mármore usado para o David foi extraído, disse acreditar que Carrara tem direito sobre o trabalho de Michelangelo.

“Se o Estado e a cidade levarem essa questão para o tribunal, será uma publicidade terrível para Florença”, disse Gabriele Toccafondi, membro do Parlamento e líder local do partido de centro-direita Liberdade do Povo. “As pessoas vão ver isso como uma espécie de commedia all'italiana”.

Turismo

Renzi, o prefeito insiste que seu pedido de propriedade do “David” não tem como objetivo apenas a propriedade. Ainda assim, 8 milhões de turistas por ano têm um impacto sobre a cidade, ele disse em uma entrevista em seu escritório no Palazzo Vecchio. Inúmeros turistas “vêm à cidade a cada dia e nós lhes oferecemos serviços”, ele disse. Mas os milhões gastos em museus da cidade vão direto para o governo federal, acrescentou. "Essa é uma nova instância de David versus Golias”, ele disse. “Nossa batalha é por uma forma diferente de gerir o patrimônio cultural de uma cidade que vive da cultura”.

Oficiais do Ministério da Cultura rebateram dizendo que a receita dos ingressos é enganosa. Apenas dois locais de interesse cultural na Itália realmente ganham dinheiro – o Coliseu e o local que hospeda o quadro A Última Ceia, de Leonardo, em Milão – enquanto o resto está no vermelho, disseram.

O que a cidade deixa de mencionar, aliás, são as atividades ligadas ao turismo e negócios, disse Roberto Cecchi, diretor-geral do Ministério da Cultura. Citando um estudo recente do Ministério realizado no Coliseu, Cecchi disse que para cada euro feito no país com a vendas de ingressos em 2009, as empresas locais obtiveram muito mais em vendas. “Esse é o setor que devemos desenvolver”, disse.

Em Florença, acrescentou Cecchi, um acordo está sendo criado para um único bilhete que daria acesso a todos os museus da cidade e do país. “É um modelo integrado”, que poderia ser um passo em direção a uma maior cooperação, disse.

Mas para críticos como Renzi, que aos 35 é uma estrela em ascensão da centro-esquerda italiana, o Ministério da Cultura está cercado por uma burocracia gigante e uma visão ultrapassada do seu mandato, que efetivamente resiste a qualquer tentativa de modernização.

“A cultura na Itália está nas mãos de pessoas que podem saber tudo sobre Vasari”, mas têm medo de se abrir para a mudança, ele disse. Sua administração, por outro lado, “quer ver a cultura como desenvolvimento economic”, oferecendo serviços melhores, como horários de funcionamento maiores nos museus, de modo que a cidade possa ser mais competitiva pelos dólares dos turistas, disse.

Patrimônio

No ano passado, o ministério criou uma nova divisão – a diretoria de museus – para fazer uma melhor utilização do potencial comercial do seu patrimônio cultural. Mas a resistência tem sido muito grande, tanto dentro do ministério, quanto de membros da intelligentsia cultural que temem o excesso da comercialização da arte.

Em uma semana recente, dezenas de turistas estavam boquiabertos diante do David, imenso sobre sua tribuna na Accademia.

Ver o David tinha sido definitivamente “o ponto alto desta viagem”, disse O'Keefe Sorcha, professora de escola primária de Cork, na Irlanda. Mas a disputa sobre o “David” faz pouco sentido para ela. “Eu não vejo como seria importante quem é o dono oficial, desde que ele esteja lá para que todos possam desfrutar”, ela disse.

*Por Elisabetta Povoledo

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