A psiquê do Iraque pelo prisma da Zona Verde

Nesta terça, soldados dos EUA se retiraram de nove postos da região, que demarcou a derrota de Saddam Hussein, em 2003

The New York Times |

O termo foi cunhado pelas forças militares americanas, mas ao contrário de alguns outros foi mantido pela população. Zona Verde sempre pareceu dizer muito, aqui e no exterior. Esse foi o posto imperial de uma ocupação e o centro de um governo nunca totalmente soberano.

Muwafaq Al-Taei, arquiteto e morador da região, pensou no nome como "um estado de espírito". Nesta terça-feira, os militares americanos formalmente se retirarão de nove postos da região que demarcou a derrota de Saddam Hussein em abril de 2003.

Essa é mais uma medida amplamente simbólica em um ano cheio delas, conforme os Estados Unidos deixam para trás apenas 50 mil tropas e batem retirada do país até o final do verão local.

Mas a mudança na Zona Verde também diz algo sobre o Iraque atualmente. Quase três meses depois que os eleitores foram às urnas, o país ainda não tem um governo. As pessoas reclamam e os políticos prometem, enquanto a Zona Verde se torna mais um símbolo de um país que não é um Estado.

Esse trecho ao longo do Rio Tigre tem sediado a autoridade local desde que o Rei Ghazi pediu apoio ao falar a seus súbditos da estação de rádio do Palácio Al Zuhour, construído ali em 1936. Mas quase todos conhecem a área pelo nome dado pelos americanos. "Bem-vindo à Zona Verde", dizem as placas, em inglês e árabe.

A Zona Verde se tornou um marco da ocupação americana, mas ainda hoje ostenta sinais de Hussein. Suas iniciais em árabe continuam presentes sobre muros de pedra, azulejos e majestosos arcos de ferro sobre as portas. As monumentais espadas do Arco da Vitória, seguradas por mãos que foram moldadas em gesso nas do próprio ditador, apenas agora serão removidas.

Nisso, a Zona Verde talvez seja outra metáfora, além da herança do poder americano. Os Estados Unidos conseguiram acabar com o governo de Hussein. Mas o que ajudou a colocar em seu lugar permanece incerto, algo cheio de ruínas do passado.

Quase todos pelas ruas têm reclamações. As mesmas queixas feitas em 2003, mas dessa vez contra o primeiro-ministro Nuri Kamal Al-Maliki e outras autoridades oficiais que moram na Zona Verde. Egoísta é um insulto típico, bem como ladrão.

Por ali, Haider Kadhem chama a região de "outro país". "Estamos no Iraque, mas podemos dizer que a Zona Verde é outro Iraque", disse. "Um distintivo é como um passaporte e, se você não tem um, não pode entrar nesse país."

* Por Anthony Shahid

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