A luta pela vida em uma rua devastada

PORTO PRINCÍPE - A Avenida Poupelard no centro dessa devastada cidade pulsa com a vida e exala morte duas semanas após o terremoto.

The New York Times |

Antes do que os haitianos chamam de "o evento", essa era uma rua movimentada e caótica com quiosques de loteria e lan houses, casas com portões e barracas de ambulantes, igrejas e escolas.

Agora, um fabricante de caixões passa o dia martelando madeira o mais rápido que consegue, enquanto o corpo de um menino de seis anos decompõe nas ruínas de uma escola.

Centenas de moradores agora sem teto ocupam carros do antigo estacionamento de uma mecânica enquanto uma advogada, escrevendo autos, acampa sob uma buganvília no quintal de sua inabitável mansão.

Um fervoroso pastor prega diante das ruínas de sua igreja; ambulantes vendem pequenos sacos com água potável; uma clínica de Aids reabre brevemente todos os dias para os pacientes que sobreviveram ao terremoto mas já não têm os remédios necessários.

E, envolto em tecido como uma múmia, um cadáver repousa sob uma placa que grita "SOS", colocado ali por seus vizinhos.

Com pouco mais de uma milha, a Avenida Poupelard, em uma região residencial e comercial conhecida como Nazon, oferece um panorama da vida em ruínas na capital do Haiti onde um coração ferido ainda bate.

Uma análise completa dos danos é impossível sem documentos de propriedade e impostos, que não estão disponíveis. Mas dos 53 prédios analisados na Avenida Poupelard, apenas seis permanecem intactos.

Vinte e três estão completa ou parcialmente danificados. Os outros 24 mostram danos que vão de rachaduras a paredes caídas, com tremores diários representando uma ameaça contínua.

Mas nessa avenida da cidade, como em outras áreas, a vida de sobrevivente continua.

Alguns pequenos negócios - uma barbearia aqui, uma pequena barraca de comida ali - retomam a vida. O debate político, um sinal de normalidade, está ressurgindo, com muitos amaldiçoando abertamente o presidente Rene Preval por fazer poucas incursões às áreas mais atingidas.

Comida, água, abrigo, doença e morte: esses continuam a ser problemas urgentes mesmo com a chegada de alguma ajuda, finalmente.

Para muitos na Avenida Poupelard, o trauma da perda criou uma vertigem quase existencial. Nora Jean Phillipe, trabalhadora de escritório que se sentava ao lado de uma barraca com uma caixa de Pop Tarts no colo, quase obsessivamente escavava as certidões de nascimento de sua família de sua casa em ruínas.

"Por favor, entenda," ela disse. "Eu perdi minha casa. Eu perdi o meu filho. De alguma forma, eu achei um jeito de salvar nossa identidade".

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