A dificuldade das famílias que se mudam por causa do trabalho

Cada vez mais trabalhadores estão se mudando para o exterior nos últimos anos, mas embora os números sejam crescentes, os temas familiares ainda são o fator principal no fracasso dessas mudanças.

The New York Times |

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A empolgação inicial de uma mudança para um lugar exótico pode se tornar um choque cultural, motivo de solidão, perda de identidade e depressão, e geralmente os mais afetados são os filhos e o cônjuge do funcionário, devido à ausência da familiar rotina do trabalho.

Eu pensei que seria uma aventura, e foi, disse Francesca Kelly, que se mudou dez vezes nos primeiros nove anos como esposa de um diplomata, morando em lugares como Belgrado (capital da ex-Iugoslávia e atual capital da Sérvia) e a ex-URSS durante a Guerra Fria. Mas foi muito mais difícil do que eu imaginava que seria.

Brenda H. Fender, diretora das iniciativas globais da Worldwide ERC, uma associação preocupada com a mobilidade da força de trabalho, disse que se a família não consegue se adaptar, o funcionário provavelmente não irá ter sucesso.

E não ter sucesso pode sair bem caro.

Prejuízos

Scott T. Sullivan, vice-presidente sênior da GMAC Global Relocation Services, contou a história de um homem de Cleveland que tinha uma função importante na construção de uma instalação de produção na China rural.

Ele deixou o trabalho e voltou para casa quando sua mulher e seu filho começaram a ficar desesperadamente infelizes. Isso interrompeu o projeto, que fazia parte de um empreendimento conjunto com uma empresa chinesa, que então recuou ¿ o que foi uma perda de centenas de milhões de dólares para a empresa americana, disse Sullivan, que poderia ter sido evitada com uma melhor assessoria para o homem que deixou sua casa.

Treinamentos sobre outras culturas ajudam as famílias a saberem o que esperar, disse, mas apenas 23% das empresas têm isso como obrigatório.

Uma pesquisa da GMAC Relocation Trends divulgada em maio apontou que embora a economia esteja mais lenta, 68% das corporações multinacionais continuam mandando funcionários para outros países em níveis recordes. Especialistas dizem que é muito cedo para dizer como a crise atual irá afetar a mobilidade da força de trabalho global.

Aumento

Jeanne E. Branthover, chefe do departamento de serviços financeiros globais da Boyden Global Executive Search, empresa que faz recrutamentos com escritórios em 40 países, disse que o recrutamento de serviços financeiros nos mercados em desenvolvimento permanece estável. Em comparação há alguns anos, os candidatos estão querendo se realocar muito mais".

Yvonne McNulty, consultora com base em Cingapura, que estuda esse tema, disse que a maior questão para os cônjuges é a perda de identidade. Encontrei em minha pesquisa que a maioria deles enfrenta uma crise de identidade, mas apenas 10% a 15% faz algo para melhorar, tornando-se autores, ou fazendo MBA ou começando negócios, disse. A maioria se sentiu como se fossem vítimas, sem controle algum.

Mesmo quando a empresa oferece um grande apoio, que inclui uma ajuda para encontrar moradia, treinamento do idioma e até mesmo fundos para o desenvolvimento pessoal do cônjuge, não é o suficiente.

Suporte

No começo dos anos 90, um estudo interno conduzido pela Royal Dutch Shell apontou um aumento no número de famílias com pessoas com carreiras distintas que estavam recusando contratos no exterior.

No passado, um alto quadro de funcionários iria a qualquer lugar a qualquer hora caso lhes fosse pedido, disse Simon Armstrong, que até recentemente era gerente da Global Outposts Services, rede de suporte dos funcionários da Shell e suas famílias que foi criado em resposta a esse estudo.

Armstrong, que é um cônjuge que vive no exterior, disse que a rede tipicamente começa aconselhando-os seis meses antes da viagem. Nós nos esforçados e fizemos o que foi aconselhado. Sabíamos o que esperar.

Kelly, esposa de um diplomata, que agora vive em Bethesda, em Maryland nos EUA, e outra esposa tornaram o The Sun (The Spouses´Underground Newsletter ¿ Boletim das Esposas Resistentes) uma forma de criar sua própria comunidade de apoio. Inicialmente, foi uma mistura irreverente de poesia, opiniões e a continuação de contos de ficção sobre uma altamente defeituosa e completamente desastrada esposa de um diplomata, disse.

Logo, contribuições tornaram o negócio mais sério; leitores queriam informações sobre onde elas estavam planejando morar. Em 2000, The Sun se tornou Tales From a Small Planet (Contos de um pequeno planeta), um website não lucrativo onde os membros podem ler relatórios de 350 cidades escritos por pessoas expatriadas.

Patrícia Linderman ¿ que mora em Guayaquil, no Equador ¿ edita o Tales e é co-autora do The Expert Expat: Your Guide to Successful Relocation Abroad (Nicholas Brealey, 2007) (O expatriado especialista: um guia de sucesso para a realocação no exterior).

Ela disse que há uma explosão de fontes nos últimos anos que apoiam os expatriados e muitos agora também focam nos aspectos pessoais e emocionais na mudança de cultura, disse.

Problemas

Devido à falta de experiência ou da falta de investimento nos serviços de realocação profissional, não espere necessariamente que a empresa ou a organização que lhe mandar para o exterior tome conta das suas necessidades, disse Linderman.

Essa foi a experiência de Meg Sondey quando se mudou para Torreon, no México, há quatro anos, quando seu marido foi mandando para cuidar de uma fábrica pela Lincoln Eletric Co. a empresa, com base em Cleveland, tinha apenas mais uma pessoa em Torreon.

Ela teve que cuidar da maioria dos detalhes ¿ moradia, documentos de imigração, conseguir carteira de habilitação ¿ tudo por conta própria. Foi como um balde de água fria, disse. É incômodo, amedrontador, e deve-se estar muito alerta porque tudo é muito diferente.

Ela acrescentou: Há horas que você fica de saco cheio e deprimido. Algumas vezes você entra em choque e a única pessoa que te entende é algum outro expatriado.

Por TANYA MOHN

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