A difícil construção do caráter

Ser o alvo de um grupo ou ter uma série de inimigos é algo especialmente traiçoeiro, dizem os pesquisadores

The New York Times |

Na sexta série elas eram amigas improváveis, a criança boa e a ruim, a menina que estudava e a que fumava no banheiro. Elas andavam juntas, se encontravam para o lanche e até iam embora juntas, com uma delas observando, apavorada, enquanto a outra entrava nas lojas do bairro para roubar brilhos labiais, cigarros e doces.

A amizade não poderia durar. Em uma manhã da sétima série, um desagradável bilhete foi colocado no caderno da menina e alguém lhe disse que a autora havia sido sua amiga mais boazinha.

"Eu nunca, nunca teria feito aquilo", disse a amiga, Bonnie Shapiro, 45, agora mãe de dois filhos de Evanston, Illinois, que trabalha como recrutadora de uma agência de design. "Mas não importava."

Deixando de lado qualquer alegação da amiga, a menina violenta prometeu vingança. "Após as aulas, ela e algumas amigas esperavam por mim do lado de fora e eu não tinha ninguém para me ajudar", recorda Shapiro. "Lembro de tudo claramente. Lembro do que eu estava vestindo: um moletom amarelo com costura rosa."

Admiração rapidamente virou medo. "Ela se tornou AQUELA PESSOA para mim", disse Shapiro, "e a gente simplesmente não esquece isso".

Quase todos têm um atormentador ou dois enquanto cresce e até recentemente os pesquisadores haviam ignorado estas relações - supondo que eram pouco mais do que o contrário da amizade. Mas novos estudos sugerem que, por mais ameaçadores que possam parecer, relacionamentos antagônicos podem muitas vezes aumentar o desenvolvimento social e emocional mais do que impedi-lo. As relações não são todas iguais - uma rival de sala de aula é uma coisa, um ex-amigo hostil é outra - e os pesquisadores alegam que seu efeito psicológico depende, em parte, da forma como reagimos quando jovens.

"Amizades proporcionam um contexto em que as crianças se desenvolvem, mas é claro que as relações negativas também", disse Maurissa Abecassis, psicóloga da Faculdade Colby-Sawyer de New Hampshire. "Devemos esperar que os dois tipos de relações, ainda que de maneiras diferentes, apresentem oportunidades de crescimento."

É claro que ninguém atesta que relacionamentos hostis sejam invariavelmente saudáveis. A prova de que eles podem infligir mais do que sofrimentos visíveis é descrita diariamente em sites de relacionamento (às vezes acompanhada de fotografias), bem como em brigas e intimidações de pátios escolares. Neste ano, pelo menos duas adolescentes cometeram suicídio após serem repetidamente atacadas e insultadas por um grupo de colegas.

Ser o alvo de um grupo ou ter uma série de inimigos é algo especialmente traiçoeiro, dizem os pesquisadores. E embora os suicídios sejam raros, o antagonismo permanece comum: estudos revelaram que entre 15% a 40% dos alunos do ensino elementar estiveram envolvidos em pelo menos uma dessas relações e que a taxa no ensino médio, em que a exclusão e as fofocas são mais presentes, varia de 48% a 70%.

Ainda assim psicólogos denotaram carências em seu primeiro estudo. Por um lado, a maioria das crianças (e adultos) que tiveram seus rivais, antagonistas ou inimigos passa muito bem, obrigado. Por outro, os resultados atestam a existência do sintoma de rejeição: algumas crianças são tão diferentes das outras que sofrem mais do que o necessário.

Em uma análise desse tipo de estudo na edição mais recente da revista Psicologia do Desenvolvimento, Noel A. Card, psicólogo da Universidade do Arizona, corrigiu os resultados por meio da rejeição dos colegas. "Se não contabilizarmos a rejeição dos colegas", ele disse em uma entrevista, "os efeitos de relacionamentos antipáticos na construção do caráter podem ser bastante reduzidos".

Isso pode confortar muitas crianças e adolescentes das trincheiras, que podem ser alvo de mensagens de texto agressivas, ameaças ou fofocas humilhantes. O sofrimento é particularmente maior quando bons amigos se tornam inimigos.

A briga de Shapiro com sua antiga amiga foi em parte apenas por aparência. A mais forte fingiu bater na sua face - e disse que ela fosse embora cobrindo o rosto, para o benefício das outras colegas violentas que observavam a cena. Foi assustador de qualquer jeito. "Eu corri para casa", disse Shapiro. "Durante o ensino médio eu sempre tive medo dela e não nos falamos. Eu simplesmente a evitava."

Crescer é, em grande parte, um exercício de autodefinição. Desde muito cedo as crianças desenvolvem objetos de ódio no qual podem projetar o que veem de pior em si mesmas, alegam os psicanalistas.

O mesmo acontece com grupos: um inimigo comum aprimora a coesão e um sentimento de aprovação coletiva. A psicologia diz que concentrar a atenção em uma pessoa de fora fortalece os vínculos entre os membros de um grupo.

Por fim, um inimigo verdadeiro pode preparar o jovem para evitar pessoas falsas ou pouco confiáveis na vida adulta, quando as traições podem ser muito mais perigosas.

"No início ela parecia uma amiga incrível", disse uma jovem na pesquisa de Card. "Mas depois, quando comecei a me aproximar dela, eu vi suas verdadeiras cores"

Sem saber que cores são essas pode ser mais difícil que as pessoas encontrem suas próprias cores. "Eu não sabia naquela época, mas ao pensar nisso agora eu vejo que optei por ser uma pessoa melhor depois daquela experiência. Na oitava série eu já era a amiga de todos e acho que a minha experiência com uma amiga ruim me fez ser assim - ou me permitiu ser isso", disse Shapiro.

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