A dieta milagrosa dos impostos

Quando o corpo humano está se desenvolvendo, quase tudo que tomamos se resume ao leite materno pelos primeiros anos e então, água, água e mais água.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

Obviamente, seria ruim se tivéssemos nos desenvolvido para nos sentirmos satisfeitos quando a água enchesse nosso estômago, porque então não comeríamos em abundância depois que caçássemos um mastodonte.

Atualmente, o resultado infeliz é que se bebemos uma garrafa de refrigerante, ainda não nos sentimos satisfeitos ¿ o corpo trata o líquido como não-calórico, como água ¿ então você não comerá menos da próxima vez que caçar o seu Big Mac.

Isso tem sido um grande problema na era das bebidas doces, e alguns acadêmicos acreditam que elas se tornaram a maior fonte da obesidade. É por isso que o novo imposto para o refrigerante proposto pelo governador de Nova York David Paterson é um progresso.

Paterson sugeriu que o imposto ¿ taxa de venda de 18% sobre refrigerantes e outras bebidas com açúcar que não sejam dietéticas ¿ ajudaria a aumentar em US$ 400 milhões por ano para tapar o buraco no orçamento do Estado. Mas também é um esforço marcante que, se outros Estados seguirem, pode nos ajudar a sermos mais saudáveis.

Tabaco

Vamos parar para fazer um joguinho: Qual foi o maior progresso na saúde nos últimos 40 anos nos Estados Unidos? A ponte de safena para coração? A tomografia computadorizada e a ressonância magnética? Novos tratamentos para câncer?

Não, foi o imposto sobre o cigarro. Cada 10% de aumento no preço dos cigarros reduziu as vendas em 3% no geral, e 7% entre os adolescentes, de acordo com o livro de 2005 Prescription for a Health Nation (Receita para uma nação saudável). Apenas em 1983, o aumento na taxa federal sobre o cigarro salvou 40 mil vidas por ano.

Claro que a cura mais promissora para o câncer de pulmão não partiu de um laboratório de pesquisas médicas, mas de políticos que gostam de dinheiro. Assim, a melhor forma para a obesidade pode ser não uma pílula, mas uma taxa.

Refrigerantes

Nos dias de hoje, bebidas com açúcar são para a saúde dos americanos, de certa forma, o que o tabaco era há uma geração atrás. Uma taxa poderia mudar alguns consumidores, especialmente crianças, levando-os a beber bebidas dietéticas ou água.

Refrigerantes são ligados a diabetes e a obesidade da mesma forma que o tabaco é ligado ao câncer de pulmão, disse Barry Popkin, especialista em nutrição da Universidade da Carolina do Norte e autora do novo excelente livro The World is Fat (O mundo está gordo). Ele adverte que a indústria da cola irá gastar uma vasta soma na luta contra a proposta de taxa.

Uma das objeções da indústria é de que os refrigerantes não são o único problema. Isso é verdade, eu adoraria ver uma taxa para a Twinkie (doce popular nos EUA) também. Mas as evidências de que as bebidas açucaradas são o que mais contribuem para a obesidade estão crescendo, porque a herança evolucionária que eu mencionei no princípio: Exceto as sopas, as calorias de líquidos não são registradas no corpo, de acordo com a Popkin e outros especialistas.

Alimentação

Se você tem alguma coisa pra comer, mesmo algo que não seja saudável como uma batata chips, você irá comer menos na sua próxima refeição. Mas se você tomar uma coca-cola, além de todas essas calorias, você comerá o mesmo tanto. Na verdade, de acordo com alguns estudos, você irá comer mais.

Essas descobertas levantam a possibilidade de que os refrigerantes aumentam a fome, diminuem a saciedade ou simplesmente aumentam a quantidade de açúcar para níveis mais altos o que gera a preferência de outras comidas açucaradas, disse um artigo do ano passado sobre esse assunto, no American Journal of Public Health (Jornal Americano de Saúde Pública).

O americano comum consome cerca de 132 litros de refrigerante normal a cada ano, e recebe muito mais açúcar com a bebida do que em sobremesas.

Barack Obama se comprometeu a fazer algo em relação ao sistema de cobertura de saúde universal e a maioria dos democratas veem a reforma da saúde pública como um problema que envolve o acesso aos médicos. Claro que esse acesso e a cobertura universal são essenciais, mas há apenas algumas coisas que esses médicos podem fazer sob essas condições.

Uma prioridade deve ser que a campanha de saúde pública mude o foco para os ambientes e comportamento social. Um ponto inicial é reconhecer que o comportamento de risco entre adolescente nesses dias envolve não apena álcool, drogas e sexo, mas também coca-colas extra-grandes.

Doenças e mortes

Um novo estudo estima que, atualmente, 24 milhões de americanos têm diabetes, quatro vezes mais do que em 1980. O custo total direto e indireto para os americanos é de US$ 218 bilhões por ano ¿ uma média de US$ 1900 por família americana. A cada ano, a diabetes contribui com a morte de mais de 200 mil americanos.

Parte da solução pode vir com a reforma da agricultura para que paremos de subsidiar cereais que acabam se tornando xarope de cereais com alto nível de frutose nos refrigerantes. Infelizmente, nesta quarta-feira, 17, Obama escolheu o ex-governador de Iowa Tom Vilsack, que tem laços antigos com os interesses do agro business, como secretário da Agricultura ¿ sua nomeação mais delicada até agora.

A indústria do refrigerante irá jogar grandes recursos para derrotar a proposta de Nova York de taxas sobre bebidas adocicadas. Deveríamos esperar pelo gesto ousado de Paterson. Ele está abrindo um caminho que outros Estados deveriam seguir.

Perder peso nunca é fácil, mas uma das dietas mais eficientes seria começar com impostos sobre os refrigerantes.


Por NICHOLAS D. KRISTOF

Leia mais sobre refrigerantes

    Leia tudo sobre: refrigerante

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG