A contagem de mortos após o confronto entre cristãos e muçulmanos na Nigéria

JOS ¿ Residentes da vizinhança não sabiam nesta segunda-feira, 1, de quem eram os corpos carbonizados sob pedras e latas amassadas que ainda jaziam na sala de estar da casa incendiada.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

Eles acabaram de chegar, disse Femi Olayinka, 32, cujo hotel vizinho foi queimado por inteiro. Não os conhecíamos. Acho que eles ficaram presos na casa e então queimaram até a morte.

Ninguém parecia notar um porco morto apodrecendo ao lado da casa, despedaçado até a morte com machadadas há três dias.

Ao menos 400 pessoas foram mortas nesta sexta feira, 28, e mais de sete mil foram forçadas a fugir de suas casas, em uma cidade que fica no centro da Nigéria, após os protestos de multidões raivosas de cristãos e muçulmanos contra o que eles disseram ser uma fraude eleitoral.

No fato que acabou sendo uma turbulência passageira, embora brutal, grupos de jovens homens mataram civis e incendiaram casas, igrejas, mesquitas e escolas.

Calmaria

Uma tranquilidade constrangedora voltou na segunda-feira, 1, o número exato de mortos e feridos ainda não era certo e os civis continuavam a debater sobre o que desencadeou a violência.

Soldados pesadamente armados e oficiais da polícia estavam operando em dúzias de postos de controle. Homens e meninos passavam por eles com os braços levantados para mostrar que não carregavam armas. Um homem que não fez isso rápido o suficiente foi forçado pelos soldados a colocar suas mãos nas paredes com entalhes de cascalhos e depois colocá-las em um barril de óleo, para só então ser dispensado.

Corpos ainda estavam sendo procurados e empilhados em caminhões militares para serem entregues a hospitais ou recolhidos por parentes e levados a igrejas ou mesquitas. No fim da tarde, dez corpos chegaram à mesquita central. Os atendentes médicos levantaram os cobertores que cobriam dois dos corpos, revelando o corpo de uma jovem mulher esfaqueada até a morte e o corpo de uma criança tão queimada que estava irreconhecível.

A maioria dos comércios permaneceu fechada, mas durante a tarde os civis, aos poucos, começaram a surgir de suas casas e lugares de refúgio para verificar o que haviam perdido e comprar o que necessitavam. O combustível ficou escasso e estava sendo vendido por quádruplo do preço de quatros dias antes.

Nigéria

A população da Nigéria de 140 milhões de pessoas compreende aproximadamente números iguais de muçulmanos e cristãos, e a cidade de Jos fica no que é conhecido como cinturão central, onde pessoas de ambas as religiões costumam morar e cultuar suas religiões lado a lado, habitualmente, em paz.

Mas a cidade já foi local de conflitos. Em 2001, quase mil pessoas foram mortas em um conflito religioso e, em 2004, centenas morreram lutando em uma cidade próxima chamada Yelwa.

Estragos

A explosão de violência que ocorreu nesta sexta-feira, 28, afetou cristãos e muçulmanos, que geralmente são do mesmo bloco. Eles queimaram minha casa e toda minha propriedade, disse Ladi Musa, 50, dona de casa muçulmana e mãe de cinco filhos. Tudo que me restou foram as roupas do corpo.

Logo do outro lado da rua havia os restos de uma igreja e uma clínica cristã incendiadas.

Joseph Atsen, 35, cristão, civil e empregado estava em casa tentando ir para o trabalho quando chegou um grupo de garotos, disse ele de seu leito no Universidade de Aprendizagem Hospitalar de Jos. Alguns tinham varas, outros facas e alguns armas. Eu ouvi um tiro, então caí. A próxima coisa que me lembro era que eu estava no hospital.

Os exames de raios-X mostraram que três balas estavam alojadas em sua cabeça, ombro e perna. Ainda assim, ele não guarda mágoas de seus vizinhos. Eu tenho amigos muçulmanos, disse. Eu vi alguns deles lá e eles me viram. Quando eu vê-los novamente, irei cumprimentá-los.

Religiões

Embora haja agressões verbais emocionadas em discussões sobre quem foi mais responsável pela violência, os líderes cristãos e muçulmanos de Jos parecem concordar que o governo público fez pouco para aliviar as tensões entre os grupos.

Nosso povo é profundamente religioso, disse Ignatius Kaigama, arcebispo de Jos, referindo-se a todos os nigerianos. Eles seguem seus líderes religiosos cegamente e os políticos sabem disso. Esses jovens homens foram usados.

Sheik Khalid Adem, Imam (chefe religioso muçulmano) de Jos, disse Há muito discurso e pouca ação por parte do governo. Ele deveria ser visto com um pai, cuidando e se preocupando com suas crianças, e não criando uma como filho legítimo e o outro como um bastardo.

Ambos os lados também disseram que os soldados e oficiais da polícia, mandados para reprimir a violência na sexta-feira, abriu fogo contra civis.

Desespero

Kabir Musa Sati, 56, funcionário civil aposentado e conselheiro do Imam, disse que viu alguém sendo alvo de disparos da polícia. Eu e o filho do meu vizinho estávamos sentados pertos um do outro do lado de fora de nossas casas quando a polícia chegou então eu lhe disse para correr para dentro, disse. Eu entrei primeiro, mas ele prendeu sua camisa em alguma coisa e foi atingido por uma bala. Ninguém o ajudou. Nenhum carro veio. Tivemos que levá-lo de carroça até um hospital.

Kaigama disse que os soldados devem ter reagido de forma exagerada. Os soldados estavam atirando segundo as ordens, disse, muitos daqueles mortos certamente devem ter sido atingidos por soldados.

Por WILL CONNORS

Leia mais sobre Nigéria

    Leia tudo sobre: nigéria

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG