A classe média de outros tempos

No começo de toda recessão, há pessoas que vêem a queda como uma ocasião para reavivar a moral: os americanos irão aprender a viver sem extravagâncias materiais. Eles irão simplificar suas vidas. Irão descobrir o que realmente importa: o lar, os amigos e a família.

The New York Times |

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Mas as recessões são muito mais do que a escassez material. Elas também são o medo e a redução das expectativas. As consequências culturais das recessões raramente são construtivas.

A diminuição da economia nos anos 80 e 90 produziu uma tempestade de populismo agrário e nativismo, com uma hostilidade particular direcionada aos católicos, judeus e negros. A Grande Depressão não foi apenas um tempo de otimismo de Franklin D. Roosevelt e do cinema escapista, também foi um tempo de pressentimentos apocalípticos e movimentos coletivos que acabaram com os direitos individuais.

A recessão de 1970 produziu um cinismo que na verdade nunca passou. A parte dos estudantes que admitiam trapacear subiu de 34% em 1969 para 60% uma década depois. Mais de um quarto de todos os empregados disseram que os bens que produziam eram tão mal feitos que não os comprariam nem para eles mesmos. Como apontou David Frum em seu livro, How we got here (Como chegamos aqui), a insatisfação no trabalho em 1977 era maior do que em qualquer tempo anterior naquele quarto de século.

Perfil atual

Recessões geram pessimismo. É por isso que as taxas de nascimento tendem a cair e as taxas de suicídio aumentar. É por isso que as margens caem. Tamar Lewin do New York Times mostrou em estudos que mulheres selecionadas para serem Playmates (companheiras de jogos) do ano da Playboy tendem a parecerem mais maduras durante recessões ¿ mais velhas, mais pesadas, mais confiantes -  embora não tenha verificado isso pessoalmente.

Essa recessão provavelmente terá seu próprio perfil social. Em particular, é provável que haja a produção de um novo grupo social: a classe média dos velhos tempos. Estas são pessoas que alcançaram o status da classe-média no final do grande boom e então o perdeu. Para eles, o intervalo entre onde eles estão e onde eles costumavam estar parecerá extenso e amedrontador.

O fenômeno é mais evidente em nações em desenvolvimento.
Durante a década passada, milhões de pessoas nessas sociedades conseguiram sair da pobreza. Mas a recessão global está puxando-lhes de volta para baixo.

Muitos parecem furiosos com a democracia e o capitalismo, os quais eles acreditam que tenham destruído seus sonhos. É possível que essa queda produza uma profusão de Hugos Chavez. É possível que a administração de Obama gaste muito de seu tempo batalhando contra um movimento global de protesto que ainda não existe.

Consequências

Neste país, há também milhões de pessoas enfrentando recaídas por pressões psicológicas e sociais.

Nos meses seguintes, os membros da ex-classe média irão sofrer mudanças na carreira. Paco Underhill, especialista em revenda, contou que 20% das vitrines de shopping centers podem estar vazias. Somente esse fato significa que milhares de servidores da economia terão a experiência da autodúvida que vêm com o desemprego.

Eles irão sofrer mudanças no estilo de vida. Durante a última década, milhões de americanos tiveram acesso sem precedentes a luxos acessíveis graças a marcas como Coach, Whole Foods, Tifanny e Starbucks. Essas submissões eram sinais de mobilidade no status social. Mas tais luxos acessíveis não serão mais tão acessíveis. De repente, a porta para a terra do elegante irá fechar subitamente para milhões de americanos.

Os membros da ex-classe média irão sofrer mudanças em seus lares. A atual crise de hipotecas está tendo seu efeito concentrado em pessoas nas mais baixas escalas da classe média - pessoas que moram do lado de fora dos subúrbios da cidade, antes em crescimento, na Flórida e em Nevada que agora estão abandonando as moradias em montes; pessoas que acabaram de se mudar de suas vizinhanças urbanas e foram para velhos subúrbios mais modestos na Califórnia e em Michigan. De repente, a casa própria de alguém se vai e volta o complicado problema de moradia.

Ordem social

Finalmente, eles irão sofrer a queda do capital social. Em tempos de recessão, pessoas gastam mais tempo em casa. Mas esse será o primeiro problema da recessão desde a revolução da formação da vida doméstica.

Aninhando-se em uma família extensa rica em capital social é muito diferente de se aninhar na vida doméstica de uma pessoa que vive isolada da família e de ligações com a comunidade. Pessoas da classe média baixa têm taxas muito mais altas de divórcio e muito menos ligações com a comunidade. Para eles, esse ato de lidar com pessoas é apenas um arriscado labirinto psicológico.

Nesta recessão, talvez mais do que nas outras, as últimas pessoas que uniam a classe média serão as primeiras a deixarem-na. E não será apenas por causa da escassez material.

Será pela perda da identidade social, a perda das ligações sociais, a perda dos pequenos símbolos de status que sugerem um lugar elevado na ordem social. Essas mudanças  levarão à produção de uma alienação e uma reação política. Se você quer saber de onde virão os próximos grandes movimentos sociais, eu diria que virão da ex-classe média.

Por DAVID BROOKS

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