À beira da nobreza após uma vida no anonimato

Trompetista que passou a infância em orfanatos está perto de descobrir se é filho de marquês espanhol e tem direito a uma fortuna

The New York Times |

José Collado tinha 49 anos quando finalmente conheceu sua mãe e foram precisos alguns instantes antes de ela lhe dizer quem era seu pai. A informação o deixou estupefato.

Ela disse que ele é filho do quarto Marquês de Larios e herdeiro de uma grande fortuna. Collado, que cresceu em um orfanato e batalhou toda a vida - trabalhando em um camping, em um navio e nos correios, quando não conseguia ganhar seu sustento como trompetista - não acreditou. "Como pode isso?", perguntou.

Mas sua mãe garantiu que era verdade. Quando jovem, ela foi cozinheira na casa do marquês. Eles se apaixonaram, mas a ciumenta marquesa descobriu e a mandou embora.

Depois de anos tentando descobrir se a história era verdadeira, Collado, agora com 63 anos, finalmente terá a resposta. No mês passado, um juiz ordenou a exumação do corpo do marquês José Antonio Larios Franco, que faleceu em 1954, para que fossem realizados exames de DNA.

Collado disse que chorou ao observar o processo no túmulo localizado na propriedade da família Larios em Alicante, Espanha. "Fiquei muito comovido", disse. "Gostaria de ter conhecido meu pai."

A história de Collado chamou a atenção da população local, fazendo desse homem comum e modesto conhecido como o trompetista Pepe uma espécie de celebridade. Atualmente, ele concede entrevistas com frequência e reúne recortes de jornais locais sobre a sua história.

O interesse em Collado não surpreende, uma vez que o nome Larios está por toda a parte na região de Marbella, Espanha. O primeiro marquês abriu fábricas de algodão, sabão e açúcar, ajudou a construir a estrada de ferro e acumulou quase 30 mil hectares em terras agrícolas. Na cidade vizinha de Málaga, o principal boulevard leva seu nome, porque ele construiu graciosos apartamentos em ambos os lados da rua como moradia para técnicos ingleses e escoceses que mantinham a máquina em andamento.

"Por aqui esse nome tem proporções místicas", disse Víctor Heredia, membro de uma equipe de pesquisa na Universidade de Málaga que estuda o impacto econômico da família de Larios na região. "E, naturalmente, existe a questão da herança. As pessoas estão muito curiosas para ver o que acontecerá."

Collado sempre teve uma certidão de nascimento com o nome de sua mãe. Mas foi apenas quando um programa de televisão a encontrou em 1997 que eles puderam se conhecer.

Na época, ela era viúva e tinha outros três filhos. Ela disse a Collado que o marquês a sustentou por um tempo depois que ela deixou de trabalhar para a família. Mas um dia a marquesa lhe visitou para dizer que o apoio financeiro seria encerrado. Incapaz de tomar conta de seu filho, ela o deixou em um orfanato quando ele tinha 9 meses.

Collado disse que membros da família Larios foram afáveis quando o conheceram na exumação. Mas o advogado e amigo de Collado, José Ortiz Checa, afirma que a família lutou contra o processo por muito tempo, chegando a dizer que o túmulo não devia ser perturbado por causa do seu valor arquitetônico.

Josep María Solsona, advogado da família Larios, disse que a família não quer comentar a questão. "A família prefere discrição, dado que o caso ainda está pendente de decisão", afirmou.

Durante anos, o caso de Collado teve pouco progresso. Mas, em 2006, Ortiz Checa decidiu agir. Ele conheceu Collado quando este ensinou trompete a seu filho portador da síndrome de Down. "Pepe é um homem bom e simples", disse Ortiz Checa. "Ele nunca teve bens materiais. Ele toca em casamentos e comunhões de graça. Por isso quis ajudar."

Não está claro se Collado teria qualquer direito à fortuna da família Larios, disse Ortiz Checa. Em 1954, quando o marquês morreu, as leis de herança excluíam filhos ilegítimos. Mas hoje as leis reconheceriam Collado, explicou Ortiz Checa.

Apesar de toda sua riqueza e poder, a família Larios não é exatamente adorada na região. Heredia afirmou que a mansão da família que ficava em Málaga foi queimada por trabalhadores furiosos em 1931. Eles também jogaram uma estátua de bronze do primeiro marquês no porto.

A família tinha tendência a casamentos internos (o primeiro marquês se casou com uma prima) e teve inúmeros problemas de saúde, disse Heredia . E vários membros da família tiveram sua competência mental contestada em corte, embora os processos nunca tenham tenham terminado favoráveis a essa acusação.

O quarto marquês levou uma vida em grande parte reclusa e não tinha filhos reconhecidos no momento de sua morte. Ele adotou o filho de sua mulher e sua fortuna passou para ele e seus descendentes.

Collado acredita que o marquês queria reconhecê-lo e veio visitá-lo no orfanato. Ele se lembra de sentar no colo de homem quando tinha cinco anos de idade. Mas o marquês morreu quando Collado tinha sete. Collado afirma que quer apenas a verdade: "Seria a mesma pessoa. Mas gostaria de saber."

Mas Ortiz Checa espera que a família de Larios chegue a um acordo com Collado se os resultados dos exames de DNA, que ficarão prontos em algumas semanas, provem que ele é filho do marquês. "Há mais do que uma questão espiritual aqui. Há aspectos econômicos também."

* Por Suzanne Daley

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