Kerry cancela visita a líder palestino após pedido de adesão a agências da ONU

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Abbas assina pedidos de adesão em 15 agências internacionais em meio à negociação para estender diálogo de paz com Israel

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O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmud Abbas, assinou nesta terça-feira documentos para entrar em 15 agências internacionais, ameaçando um duro golpe às estremecidas negociações de paz do Oriente Médio. Um encontro entre Abbas e o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, que tinha planejado viajar à região na quarta-feira para finalizar um acordo estendendo o diálogo para 2015, foi cancelado.

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AP
Ao lado do negociador-chefe Saeb Erekat, presidente palestino, Mahmud Abbas (D), assina pedido de adesão a agências da ONU na cidade cisjordana de Ramallah

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Abbas, que está sob pressão de outros líderes e do público palestinos para impulsionar o reconhecimento de um Estado por meio das agências da ONU, disse nesta terça que adotava esse curso porque Israel fracassou em libertar o quarto grupo de prisioneiros palestinos até o fim de março, como prometido quando as negociações começaram, em agosto.

“Não queremos usar esse direito contra ninguém nem confrontar ninguém", disse Abbas depois de assinar os documentos em um discurso transmitido ao vivo na televisão palestina. “Não queremos colidir com o governo americano. Queremos uma boa relação com Washington porque ele nos ajudou e exerceu grandes esforços. Mas, como não encontramos formas para uma solução, isso se torna nosso direito."

Israel e EUA se opõem de forma vigorosa à entrada dos palestinos nessas organizações internacionais. O Congresso americano aprovou uma lei dizendo que tais participações poderiam ter como consequência a retirada de auxílio financeiro dos EUA à ANP e outras medidas.

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Kerry, que viajou para Bruxelas para um encontro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e planejava retornar ao Oriente Médio para se reunir com Abbas em Ramallah na quarta-feira, não fará mais essa viagem, disse um funcionário do Departamento de Estado. Não está claro o que o cancelamento significará para as negociações de paz.

Uma autoridade palestina graduada disse que as 15 agências às quais Abbas pediu integração - escolhidas de 60 possíveis - não incluem o Tribunal Penal Internacional ou a Corte Internacional de Justiça, onde muitos palestinos esperam processar israelenses pelo que consideram crimes de guerra, incluindo a demolição de casas, prisões e assassinatos de palestinos, e construção de assentamentos. As 15 incluem as convenções de Genebra e Viena e agências que lidam com direitos das mulheres e das crianças, disse a autoridade.

Funcionários envolvidos nas negociações disseram que o acordo sob discussão envolveria a libertação de Jonathan J. Pollard, um americano que cumpre uma sentença de perpétua nos EUA por espionar para Israel, além da libertação do quarto grupo de prisioneiros palestinos - incluindo cidadãos árabe-israelenses - e outros 400 presos palestinos. Também incluía o congelamento parcial da construção israelense nos assentamentos da Cisjordânia em troca do continuado compromisso palestino de conter-se em pedir adesão a agências internacionais.

Kerry e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, negociaram os detalhes do potencial acordo em encontros que começaram na noite de segunda e continuaram nesta terça. Mas o acordo aguardava aprovação da Casa Branca em relação a Pollard assim como o endosso de Abbas, e as medidas tomadas pelo líder palestino nesta terça podem torná-lo irrelevante.

Israel disse que só libertaria o quarto grupo de prisioneiros palestinos se Abbas aceitasse estender as negociações, argumentando que seu compromisso original não era vinculante porque nenhum diálogo significativo havia acontecido desde novembro. A mudança de postura de Israel na noite de terça-feira, amenizada pela promessa da libertação de Pollard, pode ter surgido muito tarde.

“Hoje é a última chance de Israel para libertar aqueles presos", disse Jameel Shehada, um membro da comissão executiva da Organização de Libertação da Palestina, em uma entrevista a uma rádio na manhã desta terça. “Ontem a liderança tomou a posição clara de recorrer às agências internacionais porque está muito claro que os israelenses não estão interessados em cumprir sua parte do acordo e libertar os prisioneiros."

Abbas disse nesta terça que os palestinos "continuarão seus esforços para alcançar uma solução pacífica por meio de negociações". Mas também afirmou que, se Israel não libertasse os prisioneiros como prometido, se integraria ao restante das 63 agências internacionais às quais os palestinos se tornaram elegíveis depois que a Assembleia Geral da ONU lhes garantiu o status de Estado observador não membro em 2012.

Mais cedo, um funcionário graduado envolvido nas negociações disse que os termos do acordo em discussão significavam que Pollard, um ex-analista de inteligência da Marinha condenado por espionagem há mais de 25 anos, seria libertado antes da Páscoa dos judeus, que começa na noite de 14 de abril. Israel libertaria o quarto grupo de palestinos presos como prometido no início das negociações, assim como mais outros 400 prisioneiros, muitos deles mulheres e crianças que não foram condenados por assassinato.

Entre os prisioneiros estariam 14 árabe-israelenses, cuja libertação é profundamente controversa em Israel porque levanta questões sobre soberania e poderia causar uma crise em sua coalizão governista, com alguns ministros ameaçando renunciar se eles forem soltos.

Israel também concordaria em mostrar "contenção" em seus assentamentos da Cisjordânia, que a maioria do mundo vê como ilegais. O congelamento parcial se aplicaria à emissão de propostas do governo para habitação; projetos em andamento teriam permissão para continuar, e projetos institucionais como escolas poderiam ser adiante. Jerusalém Oriental, que os palestinos consideram a capital de um futuro Estado, não seria incluída no congelamento.

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