Partido de Mandela enfrenta resistência na África do Sul após 20 anos no poder

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Duas décadas depois do fim do apartheid, a frustração com seus líderes provoca criação de novo partido político

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Quando Alton Dalasile arranjou seu primeiro emprego como mineiro no final dos anos 80 em Marinaka, ele rapidamente se tornou membro do Sindicato Nacional de Mineiros, uma poderosa organização que não só lutava pelo direito dos trabalhadores, mas também confrontava o sistema de segregação racial conhecido como apartheid. Quando o aliado político de seu sindicato, o Congresso Nacional Africano (CNA), disputou as eleições em 1994 nas primeiras eleições democráticas da África do Sul, Dalasile entusiasticamente votou em Nelson Mandela, o primeiro presidente negro do país.

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Partidários do partido Combatentes da Liberdade Econômica, criado por Julius Malema, participam de comício em Marikana, África do Sul

No ano passado, Dalasile desistiu do sindicato após uma temporada violenta de greves que terminou com 34 mineiros mortos pela polícia em agosto e se juntou a um sindicato novo e radical que acusa a velha guarda de peleguismo. Agora, Dalasile está considerando o que antes era inimaginável: votar contra o CNA nas eleições do ano que vem.

"Eles nos abandonaram e nos traíram", disse Dalasile. "O CNA não é mais o partido dos pobres, dos trabalhadores. Eles só se preocupam em enriquecer."

No ano que vem, a Ágrica do Sul terá eleições para a Assembleia Nacional, que escolhe o novo presidente do país. Vinte anos após o fim do apartheid, quando o CNA chegou ao poder ovacionado internacionalmente, o partido de Mandela enfrenta, talvez, seu maior desafio eleitoral até aqui.

As eleições ocorrerão sob a sombra das mortes em Marikana, um acontecimento que muitos têm comparado aos massacres da época do apartheid, que provocaram a luta contra o governo branco. Apenas dessa vez, os policiais e os políticos que os coordenaram eram quase que todos negros. O governo do CNA, acusado de matar manifestantes desarmados, responderam indiciando os mineiros em greve pelo assassinato de seus colegas.

A forma como o partido lidou com a greve e seus resultados, assim como com as alegações de favorecimento ilegal e corrupção nos níveis mais elevados da liderança, provocou uma frustração generalizada com o CNA, e uma nova safra de personagens políticos está tentando surfar na onda do descontentamento.

Julius Malema, o militante que liderou a juventude do partido até ser expulso no início do ano acusado de semear a discórdia, deu início ao seu próprio partido político, os Combatentes da Liberdade Econômica.

O pontapé inicial de seu partido ocorreu em um gigantesco comício no mês passado em meio a aplausos de adulação, com ele vestindo uma capa vermelha, como se estivesse se autoproclamando um herói, um próximo Hugo Chávez, ao apresentar como bandeiras a nacionalização das minas do país e o confisco das propriedades dos brancos.

"Devemos restaurar a dignidade da maioria negra", declarou a milhares. "Agora é o momento de realizarmos as promessas de 1994.

Apesar de sua popularidade, Malema pode não ser o candidato mais indicado para desafiar o CNA nas questões de corrupção e favorecimento ilegal. Como um líder proeminente do CNA, ele se tornou conhecido por seu luxuoso estilo de vida, usando relógios da Breitling e sapatos Louis Vitton e dirigindo Range Rovers e construindo uma casa em um dos bairros mais chiques de Johannesburgo.

Ele foi acusado de bancar esse estilo de vida com o desvio de milhões de dólares em contratos, e é atualmente apontado como responsável por lavagem de dinheiro em contratos com uma empresa de engenharia ligada a ele em sua província natal, Limpopo.

Malema negou essas acusações e, em uma entrevista, disse que sua expulsão do CNA era um sinal de que "o movimento se tornou um porco e está comendo seus próprios filhotes". Ele afirmou que o presidente Jacob Zuma forçou sua saída do partido, porque se sentia ameaçado e queria deixar os empresários tranquilos.

"Ele me tirou de lá, porque as pessoas diziam para ele: 'Tire o Malema e as pessoas brancas ficarão felizes'", disse.

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Julius Malema, que foi expulso do CNA no início do ano, participa de comício em Marikana,na África do Sul

Ele se autointitulou como o homem destinado a finalizar a revolução incompleta da África do Sul transferindo a riqueza dos homens brancos, que controlam a maior parte da indústria e grande parte da terra arável para a maioria negra. Malema também execrou os programas de inclusão social para os negros estabelecidos pelo CNA como um esquema para enriquecer poucos eleitos e acusa o partido de abandonar os pobres.

Ele afirmou que pode falar com nova autoridade sobre a pobreza agora. Como resultado da investigação de corrupção, seus bens foram congelados e vendidos para pagar os impostos devidos, retirando dele toda sua fortuna. Seu atual endereço, segundo ele, é uma pequena casa onde ele foi criado pela avó. "Não teorizamos sobre a pobreza", disse. "Crescemos na pobreza."

Malema não é o único político tentando retirar a ampla maioria eleitoral do CNA. Outra figura proeminente, Maphela Ramphele, uma executiva e ex-parceira do já falecido Steve Biko, líder da consciência negra, deu início a um partido político de centro que ela espera angariar apoio da classe média negra e branca, embora analistas acreditem que é mais provável que ela conquiste votos do principal partido de oposição, a Aliança Democrática.

Não importa quão insatisfeitos estejam os eleitores, o CNA deve permanecer no poder. Seu apoio majoritário foi reduzido ao longo dos anos desde a eleição de Mandela, mas continua importante. Analistas afirmam que se o CNA conquistar um número abaixo de 60% de votos, já será um golpe simbólico.

Por Lidya Polgreen

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