Com custo de até R$ 138 mil, treinar cães-guia é desafio para ONGs nos EUA

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Cachorro demora 2 anos para 'se formar' e a taxa de sucesso é baixa, o que dificulta a manutenção de escolas

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Jennifer Murray acordou depois de ter saído com seus amigos à noite e pensou que seu marido estava fazendo alguma brincadeira. Ela não conseguia enxergar e não acreditou quando ele disse que já era de manhã. "Era como se o interruptor estivesse desligado", disse. "Fechei meus olhos e pisquei. Tentei fazer isso várias vezes. Então, senti o sol no meu rosto, e disse: 'o que é isso agora?'"

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Igloo, cachorro sendo treinado pela Fundação Fidelco de Cães-Guias em Bloomfield, Connecticut

Murray lutava para manter a pouca visão que possuía desde seu nascimento prematuro em 1978. Ela tinha um pouco da visão periférica em um olho, mas nada além disso, Poucos anos antes do dia em que perdeu sua visão para sempre, ela havia sido submetida a uma cirurgia para implantar uma lente de contato permanente em seu olho direito. Isso deu a ela visão pela primeira vez na vida.

"Eu fiquei com vertigem por semanas", disse. "Eu conseguia ver tudo, e todo mundo era bonito. Lembro de pensar que a vida era colorida e linda."

Com a perda de sua visão, Murray diz que começou a se isolar do mundo. Seu marido, um veterano da Guerra do Iraque, estava passando por um momento difícil, e viver era uma luta. Com o nascimento do filho, Liam, que agora tem 2 anos, Murray disse que passou a sentir necessidade de se tornar mais independente para cuidar dele.

"Eu percebi que com a bengala não estava funcionando", disse. "Eu estava colocando uma pressão velada em meu marido e meu filho, o que não era justo para eles."

Foi nesse momento que ela decidiu tentar usar um cão-guia.

A missão de todas as escolas de cães-guias é criar uma equipe, uma dupla com um cego e um cachorro para dar à pessoa maior liberdade e independência. Na teoria, essa deveria ser uma causa com facilidade em angariar recursos. Afinal, a maioria das pessoas ficam derretidas ao ver um filhote - uma grande ferramenta de marketing dessas escolas - e ajudar pessoas cegas a levar vidas melhores parece ser uma coisa boa.

Apesar de a causa se vender bem, o trabalho não é barato. Essas escolas precisam juntar dinheiro e reunir voluntários em larga escala para garantir recursos suficientes para pagar pelo longo, custoso e por vezes mal sucedido treinamento dos cachorros. Um cão-guia leva ao menos dois anos para ser treinado e custa ao todo de US$ 45 mil (R$ 104 mil) a US$ 60 mil (R$ 138 mil). E cerca de 45% dos cachorros treinados nas escolas não conseguem "se formar". Os que conseguem são doados àqueles que precisam deles para viver.

Além disso, as casas de caridade de cães-guia devem competir com diversas outras organizações sem fins lucrativos para conseguir dinheiro. O Instituto Urbano, uma organização que se concentra em questões sociais e econômicas, estima que 1,6 milhão desses grupos operam nos EUA hoje, um crescimento de 25% em dez anos.

"Estamos competindo com todas as instituições de caridade e com todas as causas que estão por aí", disse Eliot Russman, diretor executivo da Fundação Fidelco de Cães-Guia em Bloomfield, Connecticut. "A Sociedade Americana contra o Câncer, a Sociedade Americana contra Doenças do Coração - todo mundo está por aí contando histórias tristes. Mas há uma capacidade finita de dinheiro."

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Jennifer Murray e sua cão-guia, Fuchsia, caminham com Sue McCahill, instrutora da O Olho que Vê em Nova Jersey

"Temos filhotes, mas a Hole in the Wall Gang Camp tem crianças morrendo", disse. "O que é mais apelativo? Nossos doadores têm que ter confiança na administração dos recursos."

Russman começou a trabalhar na Fidelco quando deixou o mundo da publicidade, e seus clientes incluíam o McDonald's e a Xerox. E essa experiência tem o ajudado a conquistar potenciais doadores para a Fidelco, conhecida por seus pastores alemães.

Bob Forrester, presidente e chefe-executivo da Newman's Own Foundation, que recebe seu dinheiro a partir da linha de comidas criada por Paul Newman em 1982 e doa para a Hole in the Wall Gang, disse que a escola possui o perfil condizente com a missão de sua fundação que é a capacitação de pessoas. "Queremos ajudar as pessoas e desenvolver seus potenciais, quando estes são bloqueados por circunstâncias que vão além do seu controle", disse.

Ele afirmou que a fundação já doou US$ 450 mil para a Fidelco desde 2010 para um programa que une cães-guias com veteranos de guerra cegos. "Pensamos que, no geral, isso dá para nove cães, mas confiamos que nossas organizações sem fins lucrativos usaram esse dinheiro bem e nos deixarão saber disso."

Como muitas ONGs, escolas para cães-guia têm dificuldade em atrair doações de grandes coorporações. A Fundação Cão-Guia para Cegos em Smithtown, Nova York, recebe contruibuições de empresas locais. Uma delas é a Marchon, uma empresa de óculos de Long Island.

Donna Rollins, vice-presidente das operações de vendas dos EUA na Marchon, disse que a empresa começou a se envolver com a fundação durante a crise econômica em 2008. A Marchon estava dando uma festa para 5 mil convidados em um evento comercial em Las Vegas e decidiu que, dada a situação do país, a empresa deveria ter um componente de caridade. "Tínhamos uma banda formada por oftamologistas que iria tocar e perguntamos aos nossos parceiros se poderiam patrocinar a banda para que o dinheiro fosse revertido para a Fundação Cão-Guia", disse. Essa ideia rendeu US$ 25 mil. Em vez de fazer uma festa open bar, a empresa pagava os primeiros dois drinks, e cobrava US$ 5 por cada bebida extra, o que rendeu mais US$ 5 mil.

Apesar de a empresa continuar a promover a fundação em seus eventos comerciais, os lucros revertidos em doações são mais baixos hoje em dia.

Uma coisa que todas as escolas compartilham é a necessidade de centenas de voluntários todos os anos para atender a telefonemas, fazer tours ou caminhar com os cachorros. Eles precisam de pessoas para ajudar a socializar os cães durante seu primeiro ano na escola. Chamados de "Criadores de filhotes", esses voluntários levam o cão para a casa com dois meses de idade e ensinam a eles as lições básicas de obediência e o devolvem cerca de um ano depois.

Roger, 70 anos, e Sheila Woodhour, 68, de Woodcliff Lake, Nova Jersey, estão em seu 29º pastor alemão. Catorze de seus filhotes foram levados pela Fundação O Olho que Vê - tida como a escola de cães-guia mais antiga do mundo, fundada em 1929 - e se tornaram cães-guia.

Ainda assim, Sheila fica emocionada quando se lembra de sua primeira filhote, Dorsey. "Quando eu entreguei Dorsey, pensava que ninguém mais no mundo ia amá-la tanto quanto eu", disse. Mas depois que viu Dorsey trabalhando, mudou de ideia. "Eu amava o cachorro, mas não precisava dele", disse. "Percebi que aquilo dava a eles um propósito."

Ela e outros "Criadores de filhotes" costumavam dizer a frase que ouvem de várias pessoas que sabem de seu trabalho voluntário: "Eu nunca poderia fazer isso, porque eu não conseguiria devolver o cachorro."

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Michael Malarsie caminha com Xxon, um cão-guia, enquanto Becky Cook, da Fundação Fidelco para Cães-Guia, observa, em Connecticut

As críticas recebidas por escolas beneficentes de cães-guias geralmente estão relacionadas ao custo de treinar um cachorro e a dificuldade em fazer com que ele se encaixe com um dono. A porcentagem de animais que não conseguem aprender as noções de guia é alta. Cachorros geralmente não conseguem se tornar cães-guia por problemas de saúde - problemas de visão, no estômago e no quadril - e por causa do temperamento, às vezes calmo demais, às vezes agitado demais. E eles podem trabalhar somente por oito ou 10 anos antes que se aposentem e se tornem apenas animais de estimação. Uma pessoa cega pode ter seis ou sete cães-guia em sua vida, o que é consideravelmente caro.

"Temos algo que as pessoas podem ver e entender, mas ainda é com certeza um ambiente de captação de recursos bem desafiador", disse Jean Thomas, diretora da O Olho que Vê. "Um dos desafios é que o que fazemos tem um profundo impacto para 265 pessoas todo ano. Se você está competindo com uma instituição que alimenta um milhão de pessoas por ano, é uma comparação difícil."

Marqueteiros de filantropia apontam, entretanto, que embora existam maneiras de afetar mais vidas com o mesmo dinheiro, os doadores talvez não tenham o mesmo nível de satisfação fazendo isso. "Se o lugar para onde você está doando não refletir as coisas pelas quais você se interessa ou nutre uma paixão, não será muito recompensador para você", disse Jim Coutre, parceiro da Iniciativa Filantrópica de Boston. "Os doadores precisam ser honestos consigo mesmos. Se fornecer água potável para um vilarejo na África não der algum retorno emocional, eles não vão se jogar de cabeça nisso."

Ele acrescentou, entretanto, que as pessoas deveriam ser ainda mais exigentes com diferentes organizações sem fins lucrativos que se concentram na mesma causa. "Há muitas organizações diferentes que treinam esses cachorros, mas elas não são todas iguais", disse. "Algumas terão mais impacto."

As escolas para cães-guia estão tentando resolver a alta taxa de perdas, melhorando a reprodução e a formação para reduzir o número de animais que não conseguem "se formar" além de tentar encontrar outros usos para estes.

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Voluntários brincam com filhotes que passarão por treinamento de cão-guia na Fundação Fidelco para Cães-Guia em Connecticut, EUA

Russman afirma que os cachorros da Fidelco que não conseguiram se tornar cães-guia trabalharam para delegacias de polícia em Connecticut e Nova York. Um cão treinado pela Fidelco encontrou um sobrevivente no local do World Trade Center um dia após o ataque em 2001. Alguns anos atrás, Wells B. Jones, chefe-executivo da Fundação Cão-Guia, disse que o grupo via a necessidade de contratar cachorros para ajudar soldados feridos. Chamada de Veterinários de Cães da América, o programa expandiu suas atividades para ajudar civis. Ele disse que a ex-deputada Gabrielle Giffords, que foi baleada na cabeça durante evento em um supermercado do Arizona, em 2011, usou um cachorro treinado por meio do programa para ajudá-la com o equilíbrio.

"Tivemos cães que não foram usados no programa do cão-guia, mas que puderam dar sua contribuição", disse. "Vemos isso como uma oportunidade para atender necessidades usando recursos possíveis. Francamente, isso nos deu muitos benefícios."

No mês passado, após quatro semanas na O Olho que Vê, Jennifer Murray estava se preparando para ir para casa com seu cachorro, Fuchsia. "Eles mudaram minha vida de uma maneira que só eles sabem, mas eles não sabem disso", disse.

Ainda assim, ela admitiu certo receio em deixar a escola e voltar para a casa, para uma vida diferente com seu cão. Ela não sabia em quanto sua vida seria modificada.

"Quando perdi minha visão, eu meio que me isolei", disse. "A primeira vez que eu caminhei nas ruas com Fuchsia, senti a brisa em meu rosto, e sorri como uma pequena criança."

Lágrimas de satisfação caíram de seus olhos fechados.

Por Paul Sullivan

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