Busca pelo corpo ideal turbina seios e emagrece até manequins na Venezuela

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Bonecas com seios grandes e cintura fina expressam a corrida por cirurgias plásticas entre as mulheres no país

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Frustrado com a queda das vendas em sua pequena fábrica de manequins, Eliezer Álvarez fez uma observação simples: as mulheres venezuelanas estão cada vez mais fazendo cirurgias plásticas para transformar seus corpos, ainda que os manequins nas lojas de roupa não reflitam essas novas, e, por vezes, radicais proporções.

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Manequins com proporções volumosas expõem roupas à venda em loja em Caracas, Venezuela (30/10)

Então, ele voltou à sua oficina e criou o tipo de mulher que imaginava que o público queria - com os seios salientes, nádegas arrebitadas, cintura
fininha e pernas longas. A fantasia no estilo venezuelana, mas em fibra de vidro.

Assim como as formas, as vendas aumentaram. Agora, seu estilo de manequim se tornou padrão nas lojas por toda a Venezuela, servindo como uma visão
exagerada, e às vezes polarizada, sobre as formas femininas expostas tanto em pequenas lojas que vendem roupas baratas para mulheres da classe
trabalhadora quanto em janelas de butiques de luxo em shoppings centers.

A arte de Álvarez pode ter tentado imitar a vida. Mas em uma cultura saturada com tais imagens, a vida acabou devolvendo o elogio.

"Você vê uma mulher como essa e diz: 'Nossa, eu quero ser como ela'", disse Reina Parada, enquanto lixava o torso de um manequim na oficina. Embora ela não possa pagar por uma cirurgia, ela diz que gostaria de fazer implante de silicone nos seios. "Isso aumenta a autoestima."

Procedimentos estéticos estão tão em alta na Venezuela que as pessoas se referem a uma mulher que fez alguma cirurgia plástica como "uma mulher operada". Elas falam tranquilamente sobre suas cirurgias e os fabricantes de manequim brincam que suas criações são "mulheres operadas" também. A mulher e sócia de Álvarez, Nereida Corro, chama seu modelo de manequim mais vendido - que tem proporções volumosas - de "normal".

O sucesso da cirurgia plástica vai de encontro com a ideologia socialista do governo e com o discurso de criar no país uma sociedade livre da tentação comercial. O ex-líder da Venezuela Hugo Chávez, que morreu em março após 14 anos de governo, se colocava contra os procedimentos estéticos, dizendo que era "monstruoso" que mulheres pobres gastassem dinheiro em cirurgias nos seios quando enfrentavam dificuldades para pagar suas contas.

Mas o mesmo recurso no qual o governo se apoiava - sua enorme reserva de petróleo - alimentou por muito tempo uma cultura de dinheiro fácil e consumismo no país, que sempre caminhou junto a uma propensão para soluções rápidas e gratificações instantâneas.

"A Venezuela é conhecida por seu petróleo e por sua beleza", disse Lauren Gulmas, pesquisadora de feminismo e antropologia na Faculdade de Dartmouth, que estudou o fenômeno da cirurgia plástica na Venezuela. "Isso explica por que ela é vista como tão importante para as venezuelanas."

A beleza desempenhou um papel particularmente importante no final dos anos 1970 e 1980 quando as rainhas da beleza do país, já uma obsessão nacional, foram coroadas como Miss Universo três vezes. Seu sucesso no palco internacional teve especial ressonância. Isso ocorreu enquanto o país teve suas expectativas frustradas com o boom do petróleo nos anos 70 e teve que lidar com os problemas econômicos subsequentes, que provocaram uma crise nacional de confiança.

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Manequins com proporções volumosas são colocados à venda em loja em Caracas, Venezuela

A fama das rainhas da beleza ajudaram a alimentar uma fascinação por cirurgias estéticas e procedimentos como implantes nos seios, abdominoplastias, plásticas no nariz e injeções de botóx.

Osmel Sousa, presidente do concurso Miss Venezuela, se orgulha de ter incentivado a prática. Ele recomendou que a primeira Miss Universo venezuelana fizesse uma plástica no nariz, o que, segundo ele, tornou possível sua vitória há mais de três décadas.

"Quando existe um defeito, eu vou lá e corrijo", disse Sousa. "Se pode ser facilmente arrumado com uma cirurgia, então por que não?"

Para Sousa, a beleza está realmente no lado externo. "Eu digo que essa história de beleza interior não existe. É algo que as mulheres feias inventaram para se justificar."

Naturalmente, nem todo mundo vê a situação dessa forma. Muitos grupos de mulheres protestaram contra o concurso Miss Venezuela no mês passado, criticando a pressão para que se encaixassem em um padrão de maneira artificial.

Os poucos dados disponíveis indicam que as venezuelanas não fazem mais plásticas do que as mulheres em muitos outros países. Mas para Gulbas as cirurgias têm um status elevado graças a importância da beleza na Venezuela e da crença de que os procedimentos estéticos vão ajudar a projetar uma imagem de sucesso.

"Há essa ideia na Venezuela de 'buena presencia', de 'boa aparência'", disse. "Isso quer dizer que existem alguns aspectos que dizem se você é um trabalhador, um bom trabalhador, uma pessoa honesta." E acrescentou: "Há uma virtude associada com a aparência."

Todos os dias, Yaritza Molina arruma vários manequins na entrada de sua pequena loja de roupas em Coro, no oeste da Venezuela, tomando sempre cuidado de colocar dois à frente dos outros. "Essas são as princesas", disse. "Porque elas tem o melhor busto."

"Tenho muitas clientes que vêm aqui e dizem: 'Eu quero ficar igual a esse manequim", disse Molina. "Eu digo a elas: 'Ok, então faça uma cirurgia."

Como em muitos outros países, essa obsessão pode ser perigosa. Nos últimos dois anos, a mídia local relatou vários casos em que mulheres morreram após injeções para deixar suas nádegas mais firmes em clínicas ilegais.

A poucos quilômetros da oficina de Corro, trabalhadores usaram um processo similar para fazer manequins em uma pequena fábrica dirigida por Daniela Mieles, 25 anos, e sua família.

Enquanto os manequins de Corro deram um salto de volume em seus corpos há muitos anos, Mieles disse que os seios e nádegas dos manequins de sua família cresceram gradualmente, para ficarem condizentes com a moda das cirurgias plásticas.

Agora, eles estão com o formato que seu marido, Trino Colmenarez, 32 anos, considera extravagante.

As vendas vão bem, e Mieles disse que ela e seu marido começaram a juntar dinheiro para que ela consiga colocar um implante nos seios. Uma operação em uma clínica particular pode custar cerca de US$ 6.350, segundo Mieles, uma quantia equivalente a três meses de gastos de uma família normal, incluindo comida, moradia, entre outros.

O objetivo é ficar mais parecida com o ideal artifical projetado nos manequins de sua família. "Beleza é perfeição, tentar se aperfeiçoar mais e mais todos os dias", disse Mieles. "É assim que as pessoas enxergam isso por aqui."

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Trabalhadores constróem manequins na oficina de Eliezer Álvarez em Valência, Venezuela

Por William Neuman

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