Casal acusado de deixar filha morrer de fome enfrenta julgamento no Catar

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Defesa aponta falhas nas provas e preconceito em um país onde adoção e famílias multirraciais são anomalia

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Matthew e Grace Huang, um casal americano com três filhos adotivos da África, vivem no reino do Catar desde julho de 2012. Na maior parte do tempo desde então, entretanto, os pais estão presos no país, acusados de matar sua filha de oito anos de fome com intenção de vender os órgãos da menina.

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Grace e Matthew Huang com sua filha, Glória, que morreu em janeiro aos 8 anos de idade, e um de seus filhos, Emmanuel (foto de arquivo)

As autoridades do Catar negaram repetidas vezes os pedidos de fiança do casal e somente nas últimas poucas semanas permitiram que a mãe de Grace levasse as duas crianças sobreviventes, dois meninos, à sua casa nos EUA. Em todas as audiências preliminares, os advogados de defesa, que garantiram sua inocência, não obtiveram permissão de apresentar seu lado da história para o juiz que preside o caso. Nesta quarta-feira (6), eles devem ter essa oportunidade.

Não há dúvidas de que a filha do casal, Glória, morreu em 15 de janeiro após não se alimentar, talvez, por dias. Mas Matthew, Grace e seus apoiadores afirmam que a garota tinha um transtorno alimentar ignorado pela acusação. Eles decreveram o caso como uma combinação escandalosa de evidências falhas ou inexistentes, preconceito étnico e desencontros culturais extremos em um país onde famílias multirraciais são uma anomalia e a adoção uma prática incomum.

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Investigadores da polícia do Catar, em seu relatório sobre a morte de Glória, entenderam as circunstâncias da família como altamente suspeitas, e escreveram que a garota teria sido forçada a passar fome. Os réus, concluiu a investigação, "tinham participação no tráfico de crianças, muito provavelmente para vender seus órgãos ou realizar experiências médicas com eles".

A prática devota do cristianismo pela família Huang pode ter levantado as suspeitas da polícia, que destacaram em seus relatórios que as três crianças eram educadas em casa pela sua mãe, em vez de frequentar uma escola.

Questionada em uma audiência preliminar em fevereiro sobre quais provas teriam para afirmar a acusação de tráfico de crianças, um investigador respondeu que "o processo de adoção consiste em buscar crianças que tenham boa aparência e se comportem bem, e que tenham características hereditárias semelhantes a de seus pais", segundo a transcrição traduzida do árabe. "Mas as crianças ligadas a esse incidente são todas da África e a maioria de suas famílias é composta por indigentes."

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O caso levantou questionamentos sobre o sistema judiciário do Catar, um aliado próximo aos EUA, que aspira à posição de uma sociedade islâmica moderna e tolerante e se tornou o primeiro país árabe a ser escolhido para sediar uma Copa do Mundo, em 2022. Pressionando ainda mais o Catar, o processo foi assumido pelo Projeto Inocência da Califórnia, um grupo com base em San Diego que busca publicizar o que considera aprisionamentos injustos, e a Agência David House, grupo de Los Angeles especialista em ajudar clientes envolvidos em complicadas crises legais no exterior.

Funcionários da embaixada dos EUA também questionaram várias vezes sobre o andamento do caso, afirmou uma autoridade do Departamento de Estado, o que se configura, aparentemente, como uma adicional fonte de pressão ao país.

"A acusação tem apresentado suas evidências sem nenhuma participação nossa", disse Alex Simpson, um advogado da equipe de defesa do casal Huang, que é de Los Angeles, em uma entrevista por telefone. "Você tem essas pessoas que estão na cadeia há quase um ano com base em coisas que eles não tiveram acesso. De onde veio isso? Vamos explicar no tribunal nosso lado dessa história pela primeira vez."

Ele caracterizou o encarceramento como um pesadelo para o casal Huang, dizendo: "É como se fosse kafkaniano."

A reportagem tentou falar com representantes da promotoria de Doha por e-mail e por telefone, mas não obteve sucesso. Não há quaisquer indicações de que a promotoria ou o juiz, Abdullah al-Emady, pretendam retirar a acusação ou conceder fiança pelo crime, que pode levar à pena de morte no Catar.

David House Agency
Agentes da David House chegam ao aeroporto internacional de Los Angeles com os filhos do casal Huang e sua avó adotiva

Foi a Copa do Mundo que levou o casal Huang e seus filhos ao Catar em 2012. Matthew, um engenheiro, foi convidado a trabalhar em um projeto grande de infraestrutura para preparar o país para o torneio de futebol.

A defesa afirma que Matthew Huang, 37 anos, e Grace Huang, 36, tentaram resolver o grave transtorno alimentar de Glória, que passou fome durante boa parte de sua infância em Gana. Eles afirmaram que a menina às vezes ficava dias sem comida, às vezes apresentava compulsão por junk food ou vasculhava o lixo, ou roubava comida para comer escondida em seu quarto. Segundo especialistas em adoção dos EUA, esses distúrbios não são incomuns entre filhos adotivos de países carentes.

Eric Volz, diretor da Agência David House, disse em entrevista por telefone que ele estava "perplexo sobre por que o Catar deixaria o caso chegar tão longe" e disse que a embaixadora dos EUA no Catar, Susan Ziadeh, tem sido "atenciosa e prestativa". Ziadeh não respondeu os pedidos para comentar o caso.

Por Rick Gladstone

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