Onda de assassinatos a sangue frio levanta questão: há maldade em todos nós?

Por NYT |

compartilhe

Tamanho do texto

Desumanizar inimigo ou trabalhar por 'causa maior' pode despertar ódio em qualquer um, não sem consequências

NYT

Do confortável sofá de sua sala de estar em Londres, Sean O’Callaghan assistiu pela TV as imagens das pessoas aterrorizadas fugindo de militantes terroristas em um shopping center no Quênia. Lá dentro, alguns foram indagados sobre sua religião. Os muçulmanos foram poupados; os demais, executados.

Conheça a nova home do Último Segundo

NYT
Sean O'Callaghan, ex-membro do IRA, matou um homem que ele acreditava ser um traidor dos católicos irlandeses

"Costumávamos fazer a mesma coisa", disse O’Callaghan para um compatriota irlandês. No massacre de Kingsmill, em 1976, católicos armados da Irlanda do Norte pararam um grupo de 12 trabalhadores, libertaram o único que era católico e mataram os 11 protestantes.

O’Callaghan, um antigo paramilitar do Exército Republicano Irlandês (IRA), tem uma visão particular sobre assassinatos a sangue frio. Em 1974, ele entrou em um bar e matou um homem que se lia um jornal, um notório traidor da causa católica irlandesa.

Globalização do ódio: "Todos têm alguém para odiar", diz historiador 

No Brasil: Onda de crimes em família divide especialistas

Entrevista: 'Povo não crê em crimes de pessoas bonitas e famílias harmônicas'

Paralelos históricos são inevitavelmente imperfeitos. Mas a terrível onda recente de assassinatos sanguinários – o ataque em Nairóbi que deixou 60 mortos, a execução de prisioneiros amarrados e vendados perpetrada por jihadistas sírios, o soldado egípcio que fez mira e atirou na filha adolescente de um líder da Irmandade Muçulmana – levanta questões tão antigas quanto Caim e Abel: será que todos temos maldade dentro de nós?

Muitos especialistas acham que sim. Para O’Callaghan, tudo é questão de foco. “O que você está vendo naquele momento não é um ser humano”, disse em entrevista na semana passada.

É perigoso supor que apenas um monstro comete monstruosidades, afirmou o professor emérito de ética social de Harvard, Herbert Kelman. “Todos somos capazes de tais coisas”, disse Kelman, 86 anos, cuja família fugiu de Viena tomada pelos nazistas em 1939. “Isso não desculpa, não justifica, mas é algo que vale ser lembrado: estamos lidando com um comportamento humano em resposta a certas circunstâncias.”

Imagens: Vídeo mostra pânico em shopping no Quênia após ataque

21 de setembro: Tiroteio em shopping na capital do Quênia mata dezenas

Superar uma ideia profunda contrária ao assassinato não é fácil. Em seu livro “Homens Comuns”, Christopher R. Browning descreveu como um batalhão da polícia alemã composto por pais, pequenos empresários e encanadores sofreu para cumprir a tarefa de matar milhares de judeus na Polônia. Quantos deles erraram tiros à queima-roupa. Quantos vomitaram e choraram depois de massacrar mães e filhos. Quantos deles tiveram de trabalhar duro para se tornarem assassinos.

Uma cultura de autoridade e de obediência que suplante a responsabilidade moral individual pela lealdade a uma missão maior ajuda na perda da inibição moral contra o assassinato, dizem psicólogos. Assim como a violência rotineira, a injustiça e as dificuldades econômicas, que permitem que o assassino se veja como a verdadeira vítima.

Afeganistão: Soldado americano abre fogo contra civis e mata pelo menos 16

Bales: Soldado dos EUA pega perpétua por massacre de civis no Afeganistão

Mas talvez o ingrediente mais importante seja a desumanização das vítimas, diz David Livingstone Smith, professor de filosofia na Universidade de New England, autor de Less Than Human: Why We Demean, Enslave, and Exterminate Others (Menos que humano: por que humilhamos, escravizamos e exterminamos os outros, em tradução livre).

“Pensar em nossos inimigos em categorias subumanas é uma forma de criar uma distância mental, de exclui-los da família humana. Isso torna o assassinato não apenas permitido, mas obrigatório. Devemos exterminar vermes ou predadores”, afirmou.

Síria: Vídeo em que rebelde arranca coração de soldado causa indignação

Abu Sakkar: Frente a frente com o 'rebelde canibal' da Síria

Os hutus em Ruanda chamavam os tutsis de baratas; os nazistas tratavam os judeus por ratos. Invasores japoneses se referiam a suas vítimas chinesas durante do massacres de Nanjing como chancorro, ou subumanos. Os soldados americanos lutaram contra ‘hunos bárbaros’ durante a Primeira Guerra e ‘chinas sem Deus’ no Vietnã.

Em Tralee, County Kerry, onde O’Callaghan cresceu, os protestantes eram chamados de sassanagh, palavra em gaélico para “estrangeiro”. Mais tarde, os protestantes também se tornaram “hunos”.

Esses rótulos ajudam, disse John Horgan, diretor do Centro para Estudos de Segurança e Terrorismo da Universidade de Massachusetts e autor de Walking Away From Terrorism (Abandonando o terrorismo), um livro de experiências de ex-militantes.

Guerra da Bósnia: Saiba o que foi o massacre de Srebrenica, o 'triunfo do mal'

Quinze anos após massacre: 775 vítimas são sepultadas em Srebrenica

Ainda assim, diz Horgan, “eles lutam contra sua consciência. Não dormem bem à noite. Ver o rosto de alguém enquanto você o mata é algo muito difícil de lidar”. Não é coincidência que execuções terroristas frequentemente envolvam cobrir o rosto da vítima ou cortar a garganta por trás.

O’Callaghan nunca ousou olhar no rosto do homem que matou em 1974. Quando ele fecha os olhos e procura na memória, tudo que lhe vem à mente é uma fotografia do jornal do dia seguinte.

Ele se filiou ao IRA aos 15 anos, um garoto do interior furioso com a injustiça que presenciou com os refugiados de Belfast chegando ao sul da Irlanda. Ele se tornou instrutor sobre explosivos e armas de fogo. Passar seis meses na cadeia por porte de armas só o deixou mais bravo.

Em maio de 1974, foi mandado à Irlanda do Norte e tomou parte em roubos e explosões. Um dia, recebeu a ordem de assassinar Peter Flanagan. O’Callaghan tinha 19 anos.

Na hora, ele se lembrou do que sua avó lhe disse quando tinha apenas 9 anos: “Quando atirar em um policial britânico, recarregue e atire de novo, porque nunca se pode confiar neles”.O’Callaghan atirou oito vezes.

NYT
Mulher ferida é ajudada após ataque no shopping Westgate em Nairóbi, Quênia (21/9)

Anos mais tarde, descobriu que Peter Flanagan não era o monstro que o IRA dizia ser. O’Callaghan acabou se tornando informante da polícia irlandesa e se entregou, confessando 42 crimes. Foi sentenciado a 539 anos de prisão, mas foi perdoado após cumprir apenas 8.

Ele matou vários homens, em emboscadas no escuro, jogando morteiros, mas nunca mais como essa morte, à queima-roupa. Às vezes, a imagem do homem caindo ainda atormenta seus sonhos.

Mas o que mais o perturba até hoje foi um comentário da motorista que o levou ao bar naquela noite. Ela estava tão nervosa que chegou a se perder pelas ruas. Depois do assassinato, eles largaram o carro roubado e voltaram ao quartel-general do IRA. Quando a jovem finalmente conseguiu recuperar o fôlego, ela disse: “Tenho pena da mãe de Peter Flanagan."

Por Katrin Bennhold

Leia tudo sobre: sean o'callaghaniraódioqueima roupaassassinatocrimeirlanda do norteterrorismopsicologia

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas