Em impasse fiscal nos EUA, republicanos perderam muito para ganhar pouco

Por NYT |

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Episódio destacou divisões internas do partido e prejudicou sua popularidade antes das eleições legislativas

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Para os republicanos que desprezam a reforma da saúde do presidente dos EUA, Barack Obama, a últimas semanas deveriam ter sido um momento singular para transformar sua contínua campanha de reclamações em argumentos concretos contra a lei. Em vez disso, em uma "cruzada" inútil para retirar dinheiro federal da reforma, o partido acabou se concentrando em suas próprias divisões internas, prejudicou sua posição nacional e minou sua capacidade de conseguir concessões dos democratas. Então, se renderam quase que incondicionalmente.

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Presidente da Câmara dos EUA, John Boehner, deixou conservadores do Tea Party no controle da situação

"Se você voltar no tempo e avaliar as duas últimas semanas, elas deveriam ser intituladas: 'O Momento da Grande Perda de Oportunidade'", disse o senador Lindsey Graham, da Califórnia do Sul, que estava entre os muitos republicanos que defendiam que o apoio público à lei da saúde ruiria à medida que o povo visse quão desastrosa ela realmente era.

"Foram as melhores duas semanas para o Partido Democrata nos últimos tempos, porque eles ficaram fora dos holofotes e não tiveram que apresentar suas ideias", acrescentou.

Agora, diante do fim de uma crise do governo que ameaçou Washington e desanimou uma nação já profundamente descrente de seus líderes políticos, republicanos estão lutando para responder até a mais básica das questões sobre a causa e o efeito do que aconteceu nas últimas semanas.

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Eles discordam sobre como, ou até mesmo se, eles devem aprender com a experiência. Muitos não conseguem compreender como eles fracassaram em evitar esse tão evitável autoflagelo. Outros não conseguem explicar por que causou tanto sofrimento, ao partido e a milhões de pessoas prejudicadas pelo confronto e pela paralisação, chegar aonde muitos deles já esperavam que chegariam.

"Alguém teria que explicar isso para mim", disse o senador John McCain, republicano do Arizona. "Eu sabia como isso iria acabar."

"Estou tentando esquecer isso", disse a senadora Lisa Murkowski, republicana do Alasca, ainda incrédula pelo fato de que muitos dos seus colegas do partido não conseguiram compreender que essa foi uma batalha perdida. "Aqui estamos nós. Aqui estámos nós. Nós prevíamos isso. Ninguém queria que isso fosse dessa forma."

Por todo o tempo, eles tiveram o povo ao seu lado em outras questões que eles poderiam ter deixado para a opinião pública, como a necessidade de controlar o déficit do país. E embora eles tenham iniciado o processo no mês passado com grande vantagem - um presidente na defensiva sobre uma proposta incerta para a guerra na Síria e um acordo dos democratas para manter o financiamento do governo em níveis que muitos liberais acreditavam ser baixos demais - mas sua obsessão pela lei da saúde impediu ao partido usar de sua influência.

"Conseguimos nos dividir sobre algo em que estávamos unidos, por um objetivo que não era possível", disse o senador Roy Blunt. "O presidente provavelmente teve o pior mês de agosto e início do mês de setembro que qualquer presidente jamais poderia ter tido. E nós conseguimos reverter isso."

A questão crucial para a viabilidade do Partido Republicano agora, a caminho das eleições legislativas de 2014 e além, é se a queda terá sido prejudicial o suficiente para que os conservadores que insistiram em liderar esse confronto se sentirão coibidos nos meses seguintes, quando o governo ficar novamente sem dinheiro e perder sua capacidade de endividamento novamente.

Não é uma questão abstrata. O acordo alcançado na quarta-feira financia o governo somente até 15 de janeiro e eleva o teto da dívida até 7 de fevereiro. Alguns líderes republicanos sugerem que esse confronto terminou de maneira tão ruim para eles que pode reduzir as chances de uma nova batalha daqui a poucos meses.

Muitos republicanos estão apelando por uma reordenação de suas prioridades, dizendo que o partido deve se voltar a questões maiores, como revisar o Código Tributário e reduzir o déficit.

A estratégia do presidente da Câmara, John Boehner, sempre envolveu uma aposta de que seus aliados ficariam longe desse conflito. Ele intencionalmente permitiu que os integrantes mais conservadores do partido controlassem a situação e tentassem em vão que o Senado aprovasse uma medida atrás da outra - primeiro para modificar a lei da saúde, depois para adiá-la, depois para desabastá-la. Sua esperança é que eles percebecemm que a luta não valia a pena.

A preocupação entre muitos republicanos é que os radicais do Tea Party não tenham entendido a mensagem, muito porque seus distritos são tão conservadores que eles nem precisariam ouvir.

Alguns temem que a história esteja se repetindo. Depois da derrota de Mitt Romney em 2012, o partido tentou se reagrupar. Seu status quo alertou que era necessário deixar de ser tão estridente, tão excludente e tão pouco focado em questões que afastam um grande bloco de eleitores que poderia pensar em ser republicano.

Certamente, a luta do orçamento mostrou que os congressistas republicanos têm ideias diferentes sobre como seguir esse conselho.

Na quarta-feira, o republicano Mich Mulvaney deu a seu partido algumas ideias sobre o que deveria ser feito sobre a lei da saúde. "A inclinação seria dizer, 'Não vai ser exatamente o mesmo", disse. "Mas se conseguíssemos descobrir uma maneira de levar essa mensagem de que é sobre justiça, é sobre princípios, o resultado poderia ter sido diferente."

Jeremy W. Peters

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