Paquistaneses enfrentam jornada por céu, mar e terra para fugir da violência

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'Prefiro morrer no barco a ser vítima de uma bomba', diz xiita da etnia hazara que se preparava para ir à Austrália

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Perdido em um hotel sujo no coração da cidade portuária de Karachi, Paquistão, aguardando o chamado do contrabandista, Hussain se sentia como um prisioneiro prestes a ser libertado.

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Para trás ficou sua cidade natal, Quetta, local no Paquistão ocidental que se tornou o centro de assassinatos para esquadrões sunitas que caçam xiitas. Hussain quase foi um deles. Ele mostrou uma cicatriz de 20 centímetros em sua perna, resultado da explosão de uma bomba em janeiro.

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Ali, 26 anos, vai abandonar seus estudos de contabilidade em Karachi, no Paquistão, para fugir para a Austrália

No entanto, ele estava na iminência de enfrentar um novo tipo de desafio. Hussain estava a caminho da Austrália, onde milhares de seus companheiros xiitas da etnia hazara, que sofreram as consequências da onda de violência, têm procurado refúgio.

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A viagem ilegal por todo o Sudeste Asiático - por ar, terra e mar à mercê de traficantes de seres humanos sem escrúpulos - seria longa e perigosa. Várias centenas de hazaras morreram nessa rota nos últimos anos, a maioria quando seus barcos frágeis naufragaram no mar. Para Hussain, valia a pena correr o risco.

"Eu prefiro morrer no barco do que na explosão de uma bomba", disse, bebendo uma xícara de café em um restaurante perto do hotel. "Pelo menos desta forma eu posso ter uma escolha."

Hussain, 25 anos, faz parte de um êxodo crescente de jovens hazaras que fogem do Paquistão à medida que se tornou mais evidente que seu governo e os militares não conseguem, ou não querem, protegê-los contra os extremistas violentos.

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O irmão mais velho de Hussain foi baleado e morto por militantes em 2008. Seu próprio encontro com a morte veio no dia 10 de janeiro, após uma poderosa explosão que destruiu um salão de bilhar perto de sua casa. À medida que Hussain correu para ajudar, ele foi pego em uma segunda explosão que matou trabalhadores de resgate, policiais e jornalistas. Ele desmaiou.

"Eu não me lembro do som da explosão", disse, "só como me senti, como uma espécie de pulso sonoro." Ele acordou no hospital, com 36 pontos em uma perna e ficou sabendo que três de seus amigos mais próximos estavam entre os 84 mortos.

Alguns reagiram com indignação e começaram a repreender os policiais militares, exigindo uma melhor proteção, lembrou Hussain. Mas ele voltou para casa para fazer um telefonema. Dois anos antes, seu irmão mais novo tinha ido para a Austrália, onde ele havia conseguido um emprego em um restaurante de fast food. Agora Hussain precisava ouvir sua voz. "Venha para cá", disse o irmão.

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Pouco depois, Hussain tinha concordado em pagar US$ 6 mil (R$ 13 mil) a um traficante e estava em um vôo para Karachi, na primeira etapa de uma viagem pela Ásia que seria emocionalmente desgastante.

No avião, ele ficou sentado ao lado de um menino de 16 anos de idade, também hazara, que disse que seus pais o obrigaram a ir para a Austrália. No hotel em Karachi, ele dividia o quarto com "Mestre", um comerciante de sapatos de 41 anos de idade, de Quetta, que também estava indo para a Austrália.

Assim como acontece com muitos outras hazaras que procuram ir para a Austrália - do Afeganistão, assim como do Paquistão - seu ponto de partida foi Karachi. De lá, a viagem é árdua e incerta. Os refugiados primeiro voam para a Tailândia ou Malásia, muitas vezes através do Sri Lanka, depois de seus agentes subornarem oficiais de imigração e oficiais de fronteira paquistaneses. A caminhada continua por terra e mar através da Malásia e Indonésia, em carros e trens, esquivando-se de patrulhas policiais, e passando a noite em barracos precários.

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Alguns imigrantes são presos por policiais e guardas de fronteira ao longo do caminho e deportados para o Paquistão, enquanto outros são extorquidos ou abandonados pelos traficantes, ou roubados na beira da estrada. Em muitos casos, eles acabam pagando milhares de dólares a mais - em subornos aos oficiais de fronteira corruptos ou em taxas suplementares para contrabandistas - para que possam continuar a caminho da Austrália.

A chegada na Austrália não é de maneira alguma garantida. Entre o final de 2001 e junho de 2012, 964 requerentes de asilo e membros da tripulação de barcos vindos de vários países são conhecidos por terem perdido suas vidas tentando chegar no continente, disse Sandi Logan, porta-voz do Departamento de Imigração e Cidadania do governo australiano.

O governo australiano tem tentado impedir as pessoas que chegam de barco. No ano passado, começou a transferir requerentes de asilo para centros de detenção em duas ilhas remotas do Pacífico, enquanto os seus casos eram analisados. Grupos de direitos humanos e oficiais da ONU condenaram as condições dos acampamentos, e meios de comunicação australianos relataram várias tentativas de suicídio nos últimos meses.

Respondendo às críticas, as autoridades australianas disseram que têm aumentado sua quota humanitária de refúgiados para 20 mil este ano, um aumento de 40%. Ao mesmo tempo, em países como o Paquistão, Irã e Afeganistão, o governo australiano iniciou uma campanha publicitária tentando convencer potenciais refugiados a permanecerem em seus respectivos países.

Antes de sair de Karachi, Hussain e Mestre passearam ao longo da praia, molharam os pés no mar da Arábia e caminharam entre as jovens famílias na areia.

Seu irmão mais novo havia lhe avisado a respeito da difícil jornada que lhe aguardava - "Espere o pior ", foram suas palavras - e por isso ele estava contando com ajuda de seus acessórios religiosos em volta de seu pescoço: uma pequena bolsa de couro contendo duas inscrições do Alcorão dobradas, de seu pai e de sua esposa, e um pingente preto com a inscrição "Y'Allah Madaat" - "Oh Deus, ajude-me."

Nas semanas seguintes, enviou várias mensagens para seu irmão: de Bangkok, onde estava hospedado em um quarto apertado com outros 16 refugiados ("Esperando, esperando, e assim por diante", escreveu), e, depois, da Indonésia.

Este mês, um barco que transportava cerca de 90 pessoas, em sua maioria hazaras, afundou enquanto estava a caminho da Austrália. Hussain estava deprimido, mas sua fé não havia sido abalada. "Eu estou olhando para o futuro", escreveu ele. Em seguida, acrescentou: "Que Deus me ajude."

AP
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Por Declan Walsh

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