Brigas entre facções rivais em greve refletem divisões na Venezuela pós-Chávez

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Sindicalistas a favor e contra o governo se enfrentaram sobre manter ou interromper paralisação em siderúrgica

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Sindicalistas rivais se enfrentaram na semana passada do lado de fora da maior siderúrgica do país sobre manter ou interromper uma longa greve na empresa estatal. Cada facção gritava sua mensagem em alto-falantes no volume máximo, uma voz tentando se sobrepor à outra. Seguiu-se um empurra-empurra e um “duelo” de interpretações do hino nacional.

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Líder de sindicato dos siderúrgicos fala segurando lista de exigências assinada por trabalhadores en Ciudad Guayana, Venezuela (3/10)


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Então o chefe do governo regional, um ex-general, apareceu com mais alto-falantes para dizer que todos deveriam simplesmente voltar ao trabalho.

O presidente Nicolás Maduro insinuou que a greve na companhia com 14 mil trabalhadores é parte de um plano dos EUA para desestabilizar o país, e na semana passada expulsou um diplomata americano na Venezuela e dois funcionários da embaixada. Como evidência da conspiração, Maduro apontou a visita que eles fizeram no mês passado a Ciudad Guayana, quando se encontraram com líderes sindicais e políticos de oposição.

Ele não mostrou provas de que a visita dos diplomatas teve qualquer relação com a greve, que já estava acontecendo. Os líderes sindicais negaram veementemente relações com a embaixada.

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A principal demanda dos grevistas é que a Orinoco Steelworks, também conhecida como Sidor, pague milhões de dólares em bônus e outros benefícios que foram calculados erroneamente.

E apesar das acusações de interferência externa, a cena era essencialmente venezuelana – bagunça, barulho, muitos gritos e pouca ou nenhuma escuta. Ainda assim, jamais teria acontecido sob o governo de Hugo Chávez, o carismático mentor de Maduro, que governou por 14 anos até sua morte em março.

“Sidor é uma pequena Venezuela, com suas elites, divisões, governistas e oposicionistas, e ela está passando por mudanças. Os trabalhadores perceberam que o grande líder não está mais aqui”, disse Leonel Grisett, membro do comitê executivo do sindicato.

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Desde a morte de Chávez, líderes repetidamente pediram por união, conclamando os chavistas a se manterem juntos a todo custo contra o inimigo comum. Mas os sinais indicam que a mensagem não está sendo bem recebida em meio a problemas econômicos severos, que incluem a escalada da inflação e escassez de itens básicos.

Na presidência, Chávez, um ex-soldado e figura paternal amada por muitos, mantinha a disciplina e o respeito, algo que Maduro está se esforçando para conseguir enquanto tenta continuar a autodeclarada revolução de seu predecessor.

A greve cria um problema especialmente espinhoso para Maduro, que se intitula o presidente dos trabalhadores e frequentemente cita seu passado como líder sindical do sistema de trânsito da Caracas.

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Ciudad Guayana foi criada nos anos 1960 como uma cidade planejada para abrigar a indústria pesada do país. Hoje, ela ainda tem as largas avenidas e modernos prédios residenciais sonhados pelos arquitetos de Harvard e do Massachusetts Institute of Technology, mas também abriga grandes favelas. E embora as empresas do governo continuem empregando dezenas de milhares, elas sofrem com queda de produção, corrupção e pouco investimento.

Sidor cresceu com a cidade. Fundada pelo governo nos anos 1960, a companhia foi privatizada na década de 1990, antes de ser nacionalizada por Chávez em 2008. Mas a produção caiu quase 60% desde que o governo assumiu, algo que analistas acreditam ser culpa de má gestão, corrupção, falta de investimento e de manutenção.

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A greve na Sidor começou em meados de setembro, com protestos de trabalhadores de baixo escalão pela demora na negociação de um novo contrato em substituição a outro que expirou há três anos e por causa das alegações de que durante vários anos a companhia pagou os bônus anuais em valores mais baixos do que o deveria.

A longa duração do movimento e o seu início nas bases são características dignas de nota em um país onde a maioria dos sindicatos mantém uma relação próxima com o governo e o seu partido socialista, especialmente em estatais como a Sidor.

Depois da paralisação de fato das atividades, a maioria dos líderes sindicais apoiou a causa. Mas uma facção ligada a Maduro se opôs à greve, levando a uma luta política dentro do sindicato e a uma incomum divisão pública entre forças que eram todas pró-Chávez.

Esse foi o pano de fundo para a batalha de alto-falantes da semana passada. Por volta das 6 horas, como era rotina nos últimos dias, líderes sindicais favoráveis à greve começaram seus discursos, transmitidos em caixas de som para centenas de trabalhadores. Mas, nesse dia, a facção dissidente montou seu próprio palanque a cerca de 10 metros dali e pregou a todo volume contra a greve.

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Trabalhadores levantam as mãos em favor da greve na Orinoco Steelworks, enquanto sindicato rival pedia pelo fim da paralisação, em Ciudad Guayana, Venezuela

O trabalhador Hugo Navarro, 29 anos, estava aturdido no meio da "batalha" de som. “Não dá para entender nada”, afirmou.

Num certo momento, o contingente anti-greve tocou uma gravação de Hugo Chávez cantando o hino nacional. Assim que terminou, os sindicalista pró-greve, em número bem superior, começaram a cantar o hino a plenos pulmões.

Quando as coisas pareciam estar se acalmando, um caminhão trouxe Carlos Osorio, general da reserva, ex-confidente de Chávez e presidente de uma espécie de holding estatal em Guayana que controla Sidor.

“Todos estamos aqui graças a Chávez”, ele disse. E conclamou os grevistas a voltar ao trabalho. Osorio afirmou que a companhia pagaria alguns benefícios adicionais, mas não recalcularia os bônus passados, principal demanda dos trabalhadores parados.

Os grevistas responderam gritando: “somos chavistas, mas queremos nosso dinheiro”. À noite, em discurso ao vivo na televisão, Maduro voltou a lembrar a expulsão dos diplomatas, chamou a greve de ilegal e disse que se ela continuar por muito mais tempo ele tomará “medidas drásticas”.

Por William Neuman

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