Prostituição e álcool tomam conta de cidade próspera no Afeganistão

Por NYT |

compartilhe

Tamanho do texto

Tecnologia e crescimento econômico levam a Mazar-i-Sharif costumes ocidentais que o país, de tradição islâmica, não tolera na maioria de seu território

NYT

A cidade de Mazar-I-Sharif é lar de alguns dos maiores tesouros do Afeganistão. É o local de nascimento do célebre poeta Rumi e o local de uma das mesquitas mais célebres do país. É a primeira cidade afegã a ter sido ligada a outro país através de ferrovias.

No meio de todas estas características, no entanto, pode-se encontrar uma um pouco mais duvidosa. Ela também é a capital, não oficial, da prostituição do Afeganistão - tanto que "ir até Mazar" tornou-se sinônimo para homens afegãos que procuram pagar por sexo.

NYT
Palusha, uma ex-prostituta que agora trabalha como costureira, posa para foto em sua casa em Mazar-i-Sharif, Afeganistão

Em parte, o fenômeno é resultado da cultura da cidade, que é consideravelmente mais indulgente ao vício do que o resto do país. O álcool, embora ainda ilegal, pode ser encontrado sem muita dificuldade. Mulheres, que normalmente ficam confinadas em casa, podem ser vistas socializando com os homens em parques públicos de Mazar, algo que não ocorre mesmo em Cabul, a capital do país.

Entenda por que o Afeganistão é estratégico

No entanto, como qualquer outra coisa, uma melhoria nos negócios é o motivo por trás do comércio do sexo em Mazar, disseram autoridades locais e trabalhadores humanitários.

Nos últimos anos, a economia da cidade floresceu à medida que sua proximidade da Ásia Central e sua relativa paz e estabilidade a transformou em um centro comercial. Prédios estão surgindo por toda a cidade conforme empresas locais e regionais se estabelecem na região.

Invasões e conflitos marcam história do Afeganistão

"Mazar é uma cidade grande e, diferentemente das outras, muita prostitutas trabalham aqui", disse Nilofar Sayar, diretor de um grupo de direitos das mulheres em Mazar, que oferece formação profissional para trabalhadores da indústria do sexo. "Existem muitas empresas, o que significa muito dinheiro e clientes."

O florescimento da prostituição em Mazar ressalta as contradições da sociedade machista do país, onde até mesmo a implicação de imoralidade pode significar morte para as mulheres. O comércio sexual já existia de uma forma ou de outra, durante décadas, mesmo sob o governo ultraconservador do Taleban. Mas autoridades da cidade disseram que a rápida disseminação da tecnologia tornou o negócio mais fácil de gerenciar e mais difícil de ser detectado, permitindo que a prostituição se expanda.

Obama e Karzai aceleram transição militar no Afeganistão

A corrupção é outro fator que mantém o negócio proliferando. Uma das entrevistas realizadas com uma prostituta para este artigo foi realizada por um policial que é um cliente.

O negócio da prostituição é administrado secretamente e poucos estão dispostos a falar publicamente sobre o assunto. Quase todas as mulheres envolvidas optam pela prostituição para não terem de viver na pobreza.

A maioria das prostitutas veste véus, tornando impossível de reconhecê-las, e até mesmo a logística do negócio é sigilosa. Existem poucos bordéis.

"Há alguns anos, não tínhamos telefones celulares, computadores ou a Internet", disse o general Salahuddin Sultanis, o chefe de investigações criminais para a província de Balkh. "Toda essa tecnologia tem aumentado as relações entre as pessoas e isso torna mais difícil para que possamos controlar a prostituição."

Muitas das mulheres que se prostituem compartilham histórias similares. Elas são quase sempre pobres e, normalmente, divorciadas ou viúvas, lutando para sustentar sua família. Às vezes, suas próprias famílias as forçam a se prostituírem para ajudar a pagar as contas ou para apoiar o vício do marido.

A maioria sabe que assim que começam a oferecer sexo por dinheiro correm risco de morte se forem descobertas, além do risco de doenças sexualmente transmissíveis, caso não sejam.

Poucos são os casos de prostitutas casadas, que entram para a prostituição sem que seus maridos saibam.

Fereshta, uma mãe de 25 anos de idade, de três crianças, disse que sua vida começou a desmoronar quando seu marido perdeu o emprego na construção há mais de cinco anos.

Eles foram forçados a saírem de sua casa e agora habitam um pequeno cômodo em um edifício sem janelas ou portas e passam por grandes dificuldades para se alimentar. Para sobreviver, ela disse, ela sentiu que prostituir-se foi a melhor opção, uma vez que as mulheres raramente são autorizadas a trabalhar no Afeganistão.

Ela ficou sabendo do negócio através de suas amigas, que cobram entre US $ 30 a US $ 60 por seus serviços. Ela descreveu uma rede semelhante à descrita por outras prostitutas: os clientes ligam para um contato, que, em seguida, organiza uma reunião na casa do cliente ou na casa da mulher. Seus clientes são na maioria das vezes homens solteiros da classe média com dinheiro.

"Nós nunca atendemos chamadas de pessoas que não conhecemos", disse ela. "Eles têm que ter uma referência sólida."

Sem o dinheiro, sua família poderia morrer de fome. E, no entanto, se o marido viesse a descobrir o que ela faz para colocar comida na mesa, as consequências seriam terríveis.

"Eu sou obrigada a fazer isso", disse ela. 

Leia tudo sobre: afeganistãoprostituiçãoálcoolmazar-i-sharif

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas