Ressentimentos persistem quase 200 anos após batalha de Waterloo

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Região belga permanece dividida sobre exaltação britânica em batalha que marcou uma dura derrota para Napoleão

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A região ao redor da cidade belga de Waterloo está se preparando para comemorar em 2015 o aniversário de 200 anos de uma das mais importantes batalhas militares da história da Europa. Mas os preparativos estão se mostrando quase tão difíceis como cruzar o campo de batalha na época, quando o duque de Wellington, comandante das forças da aliança internacional esmagou Napoleão.

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Marie-Christine passeia com seu cachorro em Hougoumont, local que está sendo restaurado como um centro de educação em campo de batalha de Waterloo (20/9)

A casa principal de uma fazenda em ruínas chamada Hougoumont, que foi crucial para o resultado da batalha, está sendo restaurada e transformada em centro educacional. Próximo a ela, um centro turístico subterrâneo está em construção, e as estradas e monumentos por todo o terreno onde os lados se enfrentaram estão todos sendo reformados. São esperados mais de 6 mil fãs de histórias militares para encenar a disputa.

Mas se a batalha terminou há dois séculos, alguns ressentimentos ainda perduram. As memórias são antigas e nem todos compartilham do entusiasmo britânico por comemorar a derrota de Napoleão.

Todos os anos, em distritos da Valônia, a parte francesa da Bélgica, há festas em homenagem a Napoleão. “Para essas pessoas, Napoleão era muito popular. É por isso que, ainda hoje, há alguns inimigos do projeto”, afirma o conde Georges Jacobs de Haia, importante industrial belga e presidente do comitê responsável por restaurar Hougoumont.

A Bélgica, obviamente, não existia em 1815. As regiões onde se fala holandês pertenciam ao Reino dos Países Baixos, enquanto a porção de língua francesa tinha sido incorporada ao Império da França. Enquanto os belgas de idioma holandês lutaram sob o comando de Wellington, os de francês lutaram por Napoleão.

A antipatia se cristalizou hoje na região de língua francesa como resistência à proposta britânica de erguer em Hougoumont um memorial aos soldados britânicos que morreram defendendo a entrada norte durante um momento crítico em 18 de junho de 1815. “Cada discussão no comitê é carregada de altas sensibilidades”, disse Jacobs.

Se a Bélgica relutou em se envolver no projeto, a França, a princípio, se mostrou totalmente desinteressada. “Eles nos disseram: não queremos tomar parte no triunfalismo britânico”, disse a condessa Nathalie du Parc Locmaria, presidente do comitê que representa os quatro municípios onde o terreno do campo de batalha se encontra.

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Centro de visita em construção perto do campo de batalhas de Waterloo, na Bélgica (20/9)

Contudo, o príncipe Charles Napoleão, 62 anos, politico francês e descendente direto de Jerome Napoleão – irmão do Bonaparte, que também lutou em Waterloo – concordou em participar da cerimônia, no primeiro dos quatro dias de evento. Ele vai cumprimentar o oitavo duque de Wellington, de 98 anos, e o príncipe Blucher von Wahlstatt, um descendente direto do marechal que comandou os soldados prussianos na batalha. O embaixador francês na Bélgica se tornou membro honorário do comitê de organização.

Agora, o portão norte não passa de um muro de pedras e arame farpados caindo aos pedaços, mas será reconstruído exatamente como era quando as tropas francesas e britânicas lutaram furiosamente por seu controle, o que significava também o controle de todos os prédios da fazenda. Após um combate sangrento, os soldados britânicos conseguiram fechar o portão, o que barrou o avanço de Napoleão. Próximo ao local, o polêmico memorial de mármore será erguido.

A palavra triunfo e algumas variantes aparecem frequentemente quando de discute o assunto na Bélgica, mas os britânicos envolvidos sempre negam se pautar por ideias triunfalistas. “De forma nenhuma isto será triunfalista ou anglocêntrico. Nunca falamos sobre celebração”, afirmou Michael Mitchell, secretário voluntário do comitê, cujo pai é inglês e os ascendentes da mãe lutaram por Wellington.

Se existe a tentação de triunfalismo do lado britânico, isso seria estranho, já que a maioria dos soldados que lutaram ao lado de Wellington não eram britânicos. Ele comandou 25 mil ingleses, escoceses e irlandeses, 26 mil alemães e 17 mil holandeses – o marechal Blucher reuniu 50 mil soldados prussianos.

Para a Alemanha, o evento é bem-vindo. Ano que vem será marcado pelas comemorações do 100.º aniversário do início da Primeira Guerra (1914-1918). Diferentemente desse caso, na guerra napoleônica não há nada de que os alemães sintam que devem se desculpar. O porta-voz da embaixada alemã em Bruxelas confirmou que seus representantes devem participar da comemoração.

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Jeremy Drage guia um grupo através do campo de batalha de Waterloo na Bélgica (20/9)

A família Wellington, dona da propriedade, e toda a comunidade do entorno se beneficiam com as terras. Em anos bons, 300 mil pessoas visitam o campo de batalha, embora recentemente o número tenha caído, porque as palavras “obras de restauração” espantam turistas. Os organizadores da reforma têm esperanças e elevar o número de visitantes a 500 mil por ano. Nas discussões do comitê, frequentemente se menciona Gettysburg, que atrai mais de 2 milhões de pessoas por ano.

Mas a questão econômica é apenas uma parte do quadro geral. “Nossa preocupação é com a experiência do visitante. Qual é a mensagem do local, a que propósito ele serve?”, questiona a condessa Du Parc.

Jacobs concorda com ela. “Ainda hoje você encontra belgas em ambos os lados. Mas, graças aos britânicos, a experiência napoleônica acabou. Isso mudou a história da Europa”, disse.

Por John Tagliabue

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