Sofisticação do grupo aumentou desde que passou a adotar causas comuns a de redes como a Al-Qaeda

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O feroz movimento político armado conhecido como Al-Shabab enfrenta dificuldades na Somália, perdendo território e influência em seu país natal.

Mas neste fim de semana o Al-Shabab mostrou que continua uma força terrorista tão perigosa quanto antes, mantendo a polícia queniana às portas do shopping-center Westgate em Nairóbi por dias enquanto outros militantes coordenavam um ataque contra forças da União Africana em Mogadíscio, capital somali, de acordo com diplomatas e um oficial de contraterrorismo americanos.

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Clientes do shopping Westgate deixam centro de compras em meio a ataque do Al-Shabab (21/9)
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Clientes do shopping Westgate deixam centro de compras em meio a ataque do Al-Shabab (21/9)

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Alguns especialistas alertam que o Al-Shabab pode estar dando início a uma ofensiva mais ampla, particularmente no Quênia. “Testemunhamos o Al-Shabab levando seus ataques assimétricos ao Quênia, ao mesmo tempo que intensifica seu padrão de ataques na Somália”, disse uma autoridade americana que monitora relatórios de inteligência.

Agentes de contraterrorismo dizem que a sofisticação do Al-Shabab só aumentou desde que passou a adotar causas comuns com outros grupos, como a Al-Qaeda no Iêmen, dividindo táticas, treinamento e financiamento.

Agora, está claro que o grupo está usando esses recursos para punir o Quênia, principalmente por sua atuação na Somália, mas também, em certo nível, devido ao crescente apoio que as forças de segurança quenianas recebem dos EUA.

Nos últimos anos, o Quênia passou a cooperar com militares americanos na caçada a integrantes da Al-Qaeda e no combate a piratas. A estação da CIA em Nairobi está entre as maiores da África. O embaixador americano para o Quênia, Robert Godec, já trabalhou com contraterrorismo no Departamento de Estado.

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Autoridades americanas dizem que estão trabalhando junto a colegas quenianos para aprender mais sobre os terroristas de Nairóbi e sobre como eles realizaram o ataque. Um dos focos é saber se os homens eram do próprio Quênia ou vieram da Somália; outro é entender se há alguma ligação deles com os EUA, como os terroristas alegaram no domingo.

Uma autoridade americana afirmou que não houve interceptações eletrônicas que indicassem um possível ataque contra um alvo importante em Nairóbi, mas que o Westgate era um dos três grandes shopping centeres sobre os quais os funcionários da embaixada já haviam expressado preocupação pela falta de segurança.

Al-Shabab significa juventude em árabe. Ele foi formado em meados da última década como uma pequena milícia armada do grupo Cortes de União Islâmica da Somália, que chegou ao poder com a ajuda de senhores de guerra de Mogadíscio financiados pela CIA.

As fileiras do Al-Shabab aumentaram em meio à crescente raiva dentro da Somália com as táticas urbanas brutais usadas por soldados etíopes, que invadiram o país para tirar as Cortes de União Islâmica da capital. Os guerrilheiros do Al-Shabab entraram em uma sangrenta campanha contra os etíopes, com ataques surpresa e bombas deixadas nas estradas.

Forças de segurança procuram por militantes armados dentro de shopping Watergate em Nairóbi, Quênia (21/9)
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Forças de segurança procuram por militantes armados dentro de shopping Watergate em Nairóbi, Quênia (21/9)

Em poucos anos, o grupo consolidou seu controle sobre uma larga fatia do território somali, mas então passou a sofrer derrotas quando a União Africana e o Quênia, entre outros atores, se envolveram mais profundamente no país. Frente a forças militares superiores, o Al-Shabab se retirou rapidamente das cidades para se reagrupar no interior.

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A milícia perservou o número de integrantes – estimado em cerca de 5 mil pela ONU – e evitou confrontos diretos. E desde então parece ganhar impulso para realizar ataques terroristas.

Faz tempo que há uma preocupação sobre a capacidade do Al-Shabab de fazer ataques no exterior, sendo o primeiro deles um ataque a bomba contra fãs de futebol em Kampala, Uganda, em 2010, matando 76.

Mas apesar das ameaças de atacar interesses americanos, a maior parte dos especialistas diz que o foco do grupo ainda é tirar os soldados estrangeiros da Somália. O ataque em Uganda foi explicitamente pelo papel do país nas forças da União Africana operando na Somália. E agora, no Quênia, o ataque foi um golpe contra um dos mais constantes antagonistas do grupo.

“Vemos que o Al-Shabab não está se tornando uma organização internacional de jihad”, disse um funcionário da ONU que segue de perto as operações do grupo. “O Al-Shabab ainda luta pela agenda somali, atacando países que enviam soldados para a missão na Somália”.

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“O Shabab está mais estruturado e mais radicalizado. Eles estão com um leque limitado de possíveis ações na Somália, e isso leva a ataques espetaculares no exterior”, explicou Vanda Felbab-Brown, da Brookings Institution.

A derrota militar em casa fez com que o Al-Shabab elevasse as apostas. “Os líderes precisam mostrar, para o mundo e para os próprios afiliados, que o grupo ainda está vivo”, disse Vanda.

Um relatório de 2011 da ONU descreve que o grupo tem apoio dentro do Quênia, com várias organizações religiosas e culturais levantando dinheiro e oferencendo militantes para as atividades do Al-Shabab. A presença teria começado com a comunidade de etnia somali que vive no Quênia, mas desde 2009 sua influência se expandiu entre não-somalis.

“Esta é uma guerra internacional e temos que unir nossas mãos e trabalhar juntos”, disse o presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, em discurso no domingo, dois dias antes de anunciar o fim do cerco ao shopping Westgate. E representantes dos EUA enfatizaram que a África é um campo de batalha contra o terrorismo global.

Veja imagens do ataque em Nairóbi, Quênia:

Por Nicholas Kulish, Mark Mazzetti e Eric Schimitt

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