Lutando para sobreviver, jovens sírios refugiados formam geração perdida

Por iG São Paulo |

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'Costumava ser uma criança, agora sou chefe da casa', diz garoto de 17 anos que vive em barraca na Jordânia

Os pais ficaram horrorizados ao saber que o mais velho de seus sete filhos poderia ser convocado para o Exército sírio. Tinham medo que sua filha adolescente fosse estuprada e sequestrada. E seu filho, que estava quase atingindo a adolescência, tinha começado a se rebelar na escola e na rua contra o governo.

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Refugiados sírios são colocados em local coordenado pela Unicef no campo de refugiados Zaatari na Jordânia (04/2013)


Então, em setembro de 2011, seis meses depois do início do levante contra o presidente da Síria, Bashar al-Assad, os pais enviaram os três filhos - então com 15, 13 e 11 anos de idade - para longe de casa, na província de Hama, com cerca de US$ 425 e uma barraca feita de sacos de arroz chineses. As crianças vivem sozinhas na Jordânia desde então.

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O mais velho, agora com 17 anos, trabalha em colheitas de legumes ganhando US$ 8,50 por dia, quando consegue trabalho, a menina aprendeu a cozinhar e o menino mais novo brinca ou joga cartas. Ele não tem cartas de verdade, então fez as suas próprias, escrevendo números em pedaços de papel.

"Eu costumava ser apenas uma criança - agora sou o chefe da casa", disse o garoto de 17 anos de idade, que falou sob a condição de não ser identificado para proteger sua família na Síria. "Eu preciso administrar nosso orçamento e gerir o meu dinheiro. Eu nunca pensei nisso antes”.

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À medida que a guerra civil entra em seu terceiro ano, quase um terço da população de 22 milhões dentro da Síria precisa de ajuda humanitária e mais de 2 milhões se refugiaram em países do exterior. Dos 512 mil buscando refúgio na Jordânia, 55 % têm menos de 18 anos. Seus problemas e desafios - anos fora da escola, trauma de ter testemunhado o assassinato de parentes, abuso sexual - refletem a situação de seus pares que lutam para sobreviver em tendas e refúgios na Turquia, Iraque, Líbano e nas comunidades destroçadas da Síria.

Essas crianças, a próxima geração perdida, compõem uma categoria particularmente preocupante de danos colaterais do conflito caótico da Síria, que deixou mais de 100 mil mortos.

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"Quando você fala com eles a respeito do futuro", disse Carolyn Miles, presidente-executiva da organização Save the Children, “eles não conseguem enxergar além do dia seguinte."

Antes da guerra, mais de 90% das crianças sírias estavam matriculadas na escola; na Jordânia, cerca de 1 em cada 3 dos refugiados entre 6 a 14 anos frequentavam às aulas. O restante aprendia a viver a vida no exílio, onde a astúcia e agressividade são mais importantes do que livros e testes. Onde não há motivos para olhar além do presente.

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Refugiados sírios constroem barraca improvisada enquanto aguardam por trailer de órgão da ONU na Jordânia (04/2013)

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Em Zaatari, as crianças se esquivam de gás lacrimogêneo em manifestações quase diárias. Eles chacoalham tanques de água para encher seus baldes. Atiram pedras contra trabalhadores humanitários. Gangues foram formadas, saqueando portas e janelas de trailers e arrebentando cercas.

Cerca de dois terços dos refugiados estão vivendo em favelas e acampamentos em cidades e aldeias da Jordânia, mas os problemas são mais profundos em Zaatari, onde famílias vivem em fileiras de barracas ou trailers, vivendo dia após dia um interminável batalha para encontrar comida e água, limpando a poeira e detritos, a esperando nas filas.

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O acampamento, que abriu em julho de 2012 e agora se estende por 8 km², custa US $ 1 milhão por dia para ser administrado e tem uma população de talvez 120 mil - de longe o maior centro de refugiados da região.

Estas são as lições de vida para os filhos de Zaatari, onde os meninos que mal começaram a fazer a barba aprenderam a cuidar de suas famílias - e as meninas aprendem como evitar avanços de pretendentes adultos.

Marwa Hutaba, 15 anos, que quer ser farmacêutica, disse que havia se tornado mais religiosa desde que deixou Daraa, vestindo um vestido modesto e carregando colares de orações. Um dia depois da escola, uma mulher saudita procurando uma esposa para seu filho puxou Marwa de lado.

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"Eu disse a ela que eu sou jovem, e que eu não quero me casar com esta idade", disse Marwa. "Eu não queria envelhecer, pois quanto mais velha eu fico, mais eu me torno mais atraente para as pessoas."

Mas, independentemente do quão limitadas estejam suas vidas, essas crianças têm mais segurança e estabilidade do que os irmãos que vivem em uma barraca feita de sacos de arroz.

Cerca de uma hora de carro do acampamento se encontra a favela perto de Sabha, Jordânia, onde os adolescentes de Hama têm vivido durante cinco meses. Fica a um quilômetro da fronteira com a Síria: Tanques do Exército podem ser avistados à distância e é possível ouvir os bombardeios. Os jovens não conseguem falar com seus pais por telefone há dois meses.

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O mais velho disse que consegue trabalho agrícola cerca de uma vez a cada 10 dias, e quando não consegue comprar comida, depende de vizinhos no acampamento improvisado. Em fevereiro, eles se registraram com a agência de refugiados das Nações Unidas, e, desde então, vêm recebendo um cupom de alimentos no valor de US$ 48 e visitas do Corpo de Médicos Internacional.

Mas a agência não pretende encontrar um orfanato para os irmãos, ou movê-los para um apartamento. "Ele provou que consegue manter as crianças em segurança", disse Mary Jo Baca, uma conselheira de saúde mental do grupo, sobre o mais velho. "Ele é um sobrevivente."

Sua tenda é grande. Um galho de árvore que segurava o centro era decorado com círculos de paetês cor de salmão trazidos da Síria. Na parte de trás, duas caixas de plástico guardavam frascos de azeitonas, queijo, lentilhas; a menina faz conserva de quaisquer legumes que seu irmão traz para que durem.

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Refugiados sírios aguardam em fila para receber ração diária distribuída por Programa Mundial de Alimentação na Jordânia (04/2013)

A menina usava um lenço de cabeça azul para combinar com as lantejoulas em seu abaya preto. Seus olhos também estavam maquiados de azul. "Eu tenho minha maquiagem da Síria", disse. "Usar maquiagem faz com que eu me sinta um pouco melhor."

O garoto de 13 anos estava entediado e com saudades de casa. "Eu tinha uma vida melhor na Síria com meus pais e meus amigos", disse. "Eu queria ir para a escola."

Por Jodi Rudoren

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