Em vantagem militar e com ONU na Síria, por que Assad lançaria ataque químico?

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Erro de cálculo, sensação de impunidade e demonstração de força são razões para suposto uso de agentes químicos

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Enquanto o presidente da Síria, Bashar al-Assad, enfrenta uma probabilidade cada vez maior de ser alvo de ataques de mísseis americanos, tantos seus rivais quanto seus aliados estão se perguntando: por que ele lançaria um ataque químico mortal em escala ainda não vista se ele estava conseguindo manter vantagem no conflito e justamente quando os inspetores internacionais estavam no país?

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Os aliados de Assad tentaram lançar dúvidas sobre as alegações de uso de armas químicas dizendo que não havia nenhum benefício lógico para seu governo realizar tais ataques. E mesmo quem defende uma intervenção militar na Síria expressa perplexidade ante a ação que pode levar o relutante governo americano a uma resposta enérgica.

Se o governo sírio for mesmo responsável pelo ataque, algo que ele nega, as razões são conhecidas apenas pelas pessoas próximas a Assad. Mas analistas militares têm sugestões de possíveis motivos: aterrorizar ainda mais quem apoia os rebeldes, projetar confiança e desafiar a comunidade internacional, ou simplesmente por querer aumentar a pressão militar sobre alguns dos rebeldes.

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“O que faz sentido militar e estratégico para Assad pode não fazer sentido para nós”, diz Emile Hokayem, analista militar do International Institute for Strategic Studies. “Assad está lutando sua própria guerra em seus termos e no tempo que ele quer. Ele pode ter até cometido um erro – talvez não tivesse a intenção de matar tantos, ou não acreditasse que a comunidade internacional fosse se importar – mas não significa que não faça sentido sob sua perspectiva."

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O ataque, que matou centenas - segundo os EUA, mais de 1,4 mil - em subúrbios ao leste e sudoeste da capital Damasco, parece ter sido o mais amplo e mais letal uso de armas químicas na Síria, onde gases tóxicos foram usados em vários ataques menores durante o ano passado – cada lado acusa seu opositor de usar armas banidas internacionalmente.

De certa forma, o episódio pode representar mais a continuidade de uma conduta do que uma mudança. Durante dois anos e meio de conflito, Assad aumentou vagarosamente a intensidade dos ataques em bairros civis onde os rebeldes encontram apoio. Hokayem chama isso de estratégia de “aumento gradual e dessensibilização” da opinião pública na Síria e no exterior.

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As forças do governo usaram armas convencionais de forma imprecisa, disparando quase às cegas mísseis Scud, ataques aéreos e de artilharia em certos bairros, em ações aparentemente para disseminar o medo e punir populações. Embora acredite-se que as mortes da semana passada tenham sido o maior assassinato em massa da guerra, as armas convencionais mataram muito mais do que as químicas.

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Mesmo depois de governos ocidentais terem declarado que as forças do governo sírio usaram armas químicas como o sarin, cruzando o que o presidente Obama chamou de “linha vermelha”, os ataques provocaram respostas pouco visíveis.

E, nas últimas semanas, com os EUA cada vez mais preocupados com os extremistas islâmicos entre a fracionada oposição a Assad e com a perspectiva de que a queda do presidente poderia trazer ainda mais caos ao país e à região, Assad assistiu aos generais do Egito comandarem as mortes de mais de 1 mil manifestantes islâmicos, também com pouca repercussão internacional.

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Alguns analistas dizem que uma crescente sensação de impunidade levou Assad a acreditar que poderia sair ileso após ataques em maior escala. Outros suspeitam que ele pretendia aumentar apenas um pouco o uso de armas químicas e que um erro tático levou a um número muito maior de mortes – e a fotos de corpos de crianças que provocaram o ultraje internacional.

Na semana passada, as forças de Assad tinham consolidado posição ao redor da cidade de Homs, com o objetivo de conquistar o altamente povoado corredor entre Damasco e a cidade de Aleppo, na costa norte. Mas a capital continuava cercada de subúrbios densamente povoados onde o governo não consegue vitórias definitivas contra os rebeldes apesar dos ataques incessantes.

Yezid Sayigh, analista militar do Carnegie Middle East Center em Beirute, disse que as forças do governo usaram armas químicas em pequenas quantidades várias vezes para incapacitar os combatentes da oposição e tentar tomar áreas específicas, e que agora poderiam estar tentando fazer o mesmo em maior escala.

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O governo, diz Sayigh, também pode ter desejado usar o efeito psicológico das armas químicas para afugentar os moradores que resistiram até agora, para que eles neguem abrigo e apoio aos rebeldes, e para aumentar o fluxo de imigrantes para os já saturados países que fazem fronteira com a Síria.

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“Eles claramente usaram armas químicas antes e conseguiram escapar, sabendo que deveriam permanecer dentro de certos limites. Talvez tenham sentido necessidade de atingir um progresso mais significante na área de Damasco e afrouxaram os limites”, afirmou.

E apesar de as forças de segurança permanecerem relativamente coesas e organizadas, o governo não é monolítico. Há diferentes centros de poder e alguns analistas especulam que o irmão do presidente, Maher, líder da temida Guarda Republicana, pode ter dado a ordem, ou que o ataque foi feito por forças irregulares. Evidências de vídeos e testemunhas sugerem que as substâncias tóxicas saíram de lançadores improvisados, que poderiam ter sido usado por unidades pequenas.

Por Anne Barnard

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